Economia

Mais da metade das canetas emagrecedoras vem do mercado informal, diz estudo

O mercado informal de medicamentos à base de GLP-1, que ajudam a controlar a glicemia e promovem saciedade e perda de peso, pode responder por mais da metade das doses consumidas no Brasil. A estimativa é de um estudo da Scanntech, empresa de inteligência de dados para o varejo e a indústria de bens de consumo.

Ainda segundo o levantamento, considerando a soma do mercado formal e da estimativa de consumo do mercado informal, o uso desses medicamentos cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Para estimar a dimensão do mercado informal de medicamentos à base de GLP-1, a Scanntech avaliou a evolução das vendas de seringas em farmácias e construiu uma linha de base histórica associada ao consumo de insulina. O crescimento das vendas desse material de aplicação injetável observado acima da tendência esperada para o consumo de insulina foi utilizado como indicador do uso de medicamentos adquiridos em ampolas, fora dos canais formais de comercialização.

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Priscila Ariani, diretora de Marketing da Scanntech, explica que, embora não seja possível mensurar diretamente o mercado informal, é possível buscar relações. “Observamos nas farmácias um crescimento das vendas de seringas de insulina muito superior ao que seria esperado apenas pela evolução do consumo de insulina. Esse excedente nos permite estimar que, possivelmente, mais de 50% das doses de GLP-1 em circulação no país, desde o último trimestre de 2025, estejam sendo consumidas fora do mercado formal em farmácias”, explica.

Para aprofundar a compreensão sobre a penetração do GLP-1 no País, a Scanntech realizou uma pesquisa quantitativa, com mais de 2 mil pessoas adultas, representativas da população. O levantamento avaliou aspectos como penetração, perfil desses consumidores, motivações de uso e disposição de começar a usar diante de uma eventual redução de preços, já esperada pela queda da patente. Os resultados mostram que 6% dos brasileiros adultos já fazem uso desses medicamentos.

Do ponto de vista financeiro, 87,4% das pessoas que usam o medicamento custeiam o tratamento do próprio bolso: 72% gastam até R$ 600 por mês, enquanto 26,5% não contam com nenhum tipo de desconto e 39,2% afirmam comprometer uma parcela significativa da renda com o medicamento. O valor médio mencionado fica abaixo do preço oficial das marcas de referência, o que pode reforçar a presença de um mercado informal.

Os dados declarados pelos entrevistados também ajudam a compreender a dimensão desse cenário. Na pesquisa quantitativa com consumidores, apenas 5,2% dos usuários afirmam utilizar medicamentos manipulados. Já no estudo que estima o consumo total de GLP-1 a partir de dados de mercado, os resultados indicam que o canal informal pode representar mais de 50% das doses em circulação no país.

A diferença entre os resultados das duas análises não representa uma inconsistência. Enquanto a pesquisa captura as respostas declaradas pelos consumidores, o estudo de varejo estima o consumo a partir do comportamento observado no mercado, sugerindo que parte dos usuários pode não declarar ou não ter ciência de que seu medicamento é originado fora de uma cadeia formal de abastecimento.

A pesquisa mostra ainda que 47,3% dos entrevistados ficariam mais interessados em iniciar ou retomar o tratamento com GLP-1 diante da entrada de novas opções no mercado. Trata-se de um público com perfil de consumo próximo ao dos atuais usuários de GLP-1, marcado por maior frequência de consumo fora do lar, delivery e categorias associadas à indulgência.

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A queda da patente e a recém chegada de novos medicamentos ao mercado, comercializados a partir de R$ 452, representam uma redução importante da barreira financeira de acesso, impulsionando tanto a formalização do consumo quanto a expansão da base de usuários.

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Impacto nos supermercados

O avanço das canetas emagrecedoras também começa a se refletir – de forma tímida – no varejo alimentar, segundo o levantamento. Após isolar o crescimento do consumo dos medicamentos de fatores externos como renda, emprego, endividamento e condições climáticas, a análise estima que o uso de medicamentos a base de GLP-1 resulte em uma redução de 0,49% ao ano no volume total de alimentos vendidos nos supermercados brasileiros, com impacto mais intenso nas cestas associadas à indulgência, com destaque para bebidas, que registram retração de 0,91% ao ano. Perecíveis embalados (-0,66%), mercearia (-0,53%) e mercearia básica (-0,43%) também estão entre os piores resultados.

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Entre as categorias, cerveja (-1,03%), petiscos e snacks (-0,82%), chocolate (-0,72%), biscoitos (-0,63%), goma de mascar (-0,55%), refrigerantes (-0,55%) e balas e pirulitos (-0,51%) lideram as quedas provocadas pela crescente adoção dos medicamentos a base de GLP-1 no Brasil.

A pesquisa também revela que os usuários de GLP-1 são consumidores contumazes em quase todas as outras categorias. Em comparação aos não usuários de GLP-1, eles consomem de quatro a cinco vezes mais cerveja, destilados, delivery, restaurantes e fast food, além de gastarem de duas a três vezes mais com academias, suplementos e vitaminas. Esse perfil ajuda a explicar o impacto do GLP-1 sobre o varejo, já que a redução do consumo ocorre justamente entre consumidores historicamente mais intensos.

Motivações para uso

Os dados indicam que a motivação de uso do GLP-1 vai além das indicações médicas. Embora o combate à obesidade seja a principal motivação declarada (29,5%), a perda rápida de peso (28,6%), o controle do apetite (23,8%) e a manutenção de peso (24,1%) aparecem logo em seguida, acima de outras questões de saúde, como a redução do risco cardiovascular (22,8%) e diabetes tipo 2 (16,7%).

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O consumo de GLP-1 tem idade, renda e gênero predominantes. A maior concentração de consumidores está entre mulheres de 25 a 34 anos, com renda mensal entre R$ 22 mil e R$ 32 mil. Consumidores com mais de 50 anos têm, estatisticamente, o menor consumo de GLP-1 e o maior consumo de alimentos frescos na alimentação diária.

O período de uso tende a ser curto. Dos que utilizam GLP-1 atualmente, 66,5% estão em tratamento há cinco meses ou menos. Além disso, 63,7% dos atuais consumidores de GLP-1 declaram baixa ou muito baixa intenção de continuar.

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Setores vencedores

O impacto não se concentra apenas nas perdas. Os números apontam crescimento em categorias como alimentos frescos (+11,5%), academia e bem-estar (+9,6%), suplementos proteicos (+9,1%), água com e sem gás (+7,9%) e vitaminas e suplementos (+7,4%). Entre os usuários, 29% relataram perda de massa magra, um dado que ajuda a contextualizar o crescimento observado em proteínas e suplementos.

“Um dos aspectos mais relevantes observados na pesquisa é que parte das mudanças nos hábitos alimentares persiste mesmo após o fim da utilização do GLP-1. Entre os usuários atuais, 54% afirmam que alimentação saudável é prioridade, enquanto os índices registrados entre ex-usuários permanecem acima dos observados entre quem nunca utilizou o medicamento”, afirma Priscila.

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