Bombardeio de informações e estímulos causa sobrecarga digital e sensação de cabeça que não desliga

Ao acordar, uma olhadinha nas redes sociais. No trabalho em home office, logo que uma reunião termina, começam a pipocar no WhatsApp pedidos e mais pedidos sobre o que foi conversado. No mesmo aplicativo chegam mensagens da família e de amigos. Em outro app ela recebe avisos da escola das filhas. “Se eu não me policiar, não desligo nunca“, diz a advogada paulistana Cláudia de Brito Pinheiro, 43.
A sensação, ela diz, é de um cansaço resultante do bombardeio de informações e estímulos que recebe no celular o tempo todo, e isso tem nome: sobrecarga digital. No caso da mulher, esse esgotamento se soma ao trabalho invisível dentro de casa e às exigências de uma sociedade que espera mulheres sempre disponíveis.
“Ela já está sobrecarregada e, com o celular, são várias outras ‘abas’ que ficam abertas na cabeça. Como no computador, quando a gente abre várias abas, acaba se perdendo”, afirma a psicóloga Tassiane Valim. “Com a exaustão, é comum que a mulher comece a esquecer coisas simples, como marcar o dentista ou comprar a ração do cachorro.”
“Mesmo quando, no fim do dia, ela está sentadinha no sofá, a mulher está pensando que precisa tirar a comida do congelador para preparar no dia seguinte e marcar médico para o filho”, acrescenta Kátia Olivieri, psicóloga especializada na saúde mental feminina. “A cabeça dela não para.”
É o que sente Cláudia. “Às vezes tenho que resolver algo do trabalho, mas minha filha me pede algo, e aí surge uma demanda da casa, eu lembro de outra coisa e fico com dificuldade de me organizar”, conta.
A advogada conta que já sente a memória falhar e, até para que o quadro não piore, coloca algumas regras na sua rotina. Uma delas é não responder mensagens em alguns momentos do dia. Ela diz que consegue fazer isso sem ficar checando a todo tempo se chegou alguma notificação do trabalho porque o chefe respeita o horário dos colaboradores.
Não é o que acontece em muitas empresas. “Hoje, o chefe fica no WhatsApp ou no email o tempo inteiro. E, só de ver a notificação, já gera ansiedade”, diz Andréa Krug, psicóloga, consultora em liderança e autora do livro “Vai Encarar? O Guia Definitivo da Sobrevivência na Liderança” (Literare Books International).
A ansiedade, ela afirma, vem do medo de não responder e acabar mal avaliado pelos superiores. “A fronteira física do que é trabalho e casa acabou”, afirma.
Para a economista Bárbara Vazquez, coordenadora da cátedra Celso Furtado da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), a tecnologia tornou tudo mais urgente, e isso faz mal. “As mulheres passaram a ter mais microtarefas, que parecem simples, mas têm um papel no desenvolvimento de estresse.”
Ela cita o exemplo de uma mulher que está trabalhando e se lembra de que precisa comprar alguma coisa para a casa ou pedir o almoço dos pais pelo aplicativo. “As tarefas se sobrepõem, e isso gera um fluxo muito tensionado, em que ela não desliga.”
A socióloga e historiadora Laura Hauser lembra que esse ritmo frenético —e enlouquecedor— já foi abordado no livro “Sociedade do Cansaço”, do sul-coreano Byung-Chul Han (Vozes, 2015).
“Entendo que o poder de contemplação, que ele diz nos fazer falta, é destruído pela lógica das notificações”, diz Laura. “No caso das mulheres, o pouco tempo de descanso é tomado pelo digital.”
Para as mulheres com sobrecarga digital —ou profissional ou emocional ou mental ou todas elas juntas—, um bom recomeço seria, como escreve o autor do livro, conseguir “capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento”.
Informação
Folha de São Paulo



