Mulheres mais à esquerda, homens mais à direita

O voto feminino é, cada vez mais, um filão importantíssimo nas eleições. E, um pouco por todo o mundo, as mulheres estão a votar mais à esquerda do que os homens. Mas, no Brasil, um dos grandes trunfos eleitorais, a conservadora Michelle Bolsonaro, veio baralhar a corrida.
Na última década, a tendência fica cada vez mais clara: há uma clivagem grande entre o voto feminino e o voto masculino. Enquanto elas tendem a ser mais progressistas e a votar mais à esquerda, eles são mais conservadores e votam mais à direita.
É assim no Brasil e em Portugal, mas também, por exemplo, nos Estados Unidos, no Reino Unido ou na Alemanha.
É fácil de perceber porque é que isso acontece: muitos destes partidos da direita e da ultradireita são contra o aborto e defendem papéis de género antiquados, privilegiando a imagem da mãe de família e da senhora “bela, recatada e do lar”.
Uma identidade redutora que as mulheres emancipadas, sobretudo as mais jovens, rejeitam.
O caso do Brasil, com eleições à porta, é curioso.
Desde 1934 que o voto feminino se tornou oficialmente um direito universal, e hoje elas são a maioria do eleitorado (cerca de 53%) e comparecem mais para votar. Os estudos mostram que nas eleições presidenciais passadas o voto das mulheres foi determinante para o resultado, por causa do maior número de eleitoras indecisas, que escolhem os seus candidatos de forma mais crítica, cautelosa e tardia, já na reta final da campanha.
Só que, na semana passada, esta pré-corrida presidencial sofreu mais um abalo, com a inesperada intervenção de Michelle Bolsonaro.
A mulher do ex-presidente é vista como um grande trunfo eleitoral, porque suaviza a alta rejeição feminina a Bolsonaro, capta muito bem um eleitorado evangélico e
construiu um forte capital político próprio no PL Mulher. Ou seja, ela poderia reduzir o “gender gap” que tem beneficiado candidatos de esquerda entre as mulheres, aproximando mais o voto feminino da direita, sobretudo nos segmentos religiosos.
Só que agora, para alegria da esquerda, ela fez tremer a já periclitante campanha de Flávio, acusando-o, de forma indireta, de ser machista e misógino, o que não deixa de ser uma enorme incongruência, porque ela própria é bastante conservadora. Basta dizer que Michelle ataca o feminismo e diz que as mulheres do PL não querem “competir com os homens, querem sim ajudá-los”…
Que mais surpresas reserva ainda Michelle, não sabemos. Mas uma coisa é certa: nenhum dos lados vai querer abrir mão de namorar esse voto feminino tão importante.
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Folha de São Paulo



