Romário na Copa e o mandato de meio período

Desde o início da Copa do Mundo, o tetracampeão tem sido criticado pela dupla jornada: senador da República e comentarista na CazéTV. Pressionado, declarou na terça-feira (30) que abriria mão dos R$ 46 mil de salário no período. No plenário, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), saiu em sua defesa: disse que o colega “honra o nosso Senado” e que se trata apenas de “ataques infundados nas redes sociais”.
Devolver o salário é perfumaria performática. Um dos 81 senadores da República não é um freelancer que abre mão da diária e pronto. É assustador pensar que representar milhões de brasileiros pode ser feito nas horas vagas, votando pelo celular como quem pede um delivery de comida.
Desde que o Sistema de Deliberação Remoto (SDR) foi criado durante a pandemia da Covid-19, as sessões online tornaram-se cada vez mais frequentes. Em 2026, segundo a Agência Cenarium, mais da metade das reuniões deliberativas da Câmara e do Senado foi realizada semipresencialmente.
A comodidade tem dois efeitos. Permite aprovar matérias sensíveis com o plenário vazio, longe da pressão pública, como no projeto que blindou os partidos no mês passado, e libera o parlamentar para outras atividades, do empresariado à televisão.
O tetracampeão não está sozinho nessa festa. Para citar só mais um exemplo: Amaro Neto (Republicanos-ES), o deputado mais votado da história do Espírito Santo, está há mais de 15 anos à frente do Balanço Geral na afiliada da Record.
Sabemos, empiricamente, que há muitos outros. Mas não existe hoje qualquer transparência nos sites do Senado ou da Câmara sobre as atividades privadas de deputados e senadores, o que torna impossível à sociedade exercer qualquer controle.
Quando promulgaram a Constituição de 1988, os constituintes não consideraram necessário prever um dever explícito de dedicação exclusiva à atividade parlamentar. Quase quatro décadas depois, ficou claro que a lacuna precisa ser preenchida. Os regimentos internos da Câmara e do Senado deveriam estabelecer que o lugar de trabalho do congressista é nas Casas do povo: presencialmente, ouvindo a população, estudando os projetos, participando de audiências e debates e votando publicamente, assumindo a responsabilidade por suas posições.
Representar milhões de pessoas em decisões que afetam suas vidas não pode ser tratado como um bico.
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Folha de São Paulo



