Declaração sobre voto feminino reacende discussão sobre sufrágio no Brasil

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As mulheres conquistaram o direito ao voto em 1932 no Brasil. Até demorou, se a gente pensar em quando o movimento pelo sufrágio feminino começou. As sufragistas inglesas, encabeçadas por Emmeline Pankhurst, se organizaram em 1903 e conquistaram o voto em 1918. Antes disso, o primeiro país a garantir o voto feminino foi a Nova Zelândia, no final do século 19.
Se olharmos para quando outros países ampliaram o direito ao voto para as mulheres, o Brasil nem está tão mal: França, Itália, Japão e China só embarcaram no pós-Guerra. Bolívia, México, Colômbia e Peru, só na década de 1950.
Mesmo com quase cem anos de voto feminino no Brasil, ainda acontecem casos como o do influenciador e empresário bolsonarista Paulo Figueiredo afirmando em alto e bom tom que “mulher vota muito mal”.
Em um vídeo publicado em seu canal do YouTube na última quinta-feira (25), Figueiredo usou a frase para criticar a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Ele ainda acrescentou um tempero ao distinguir o voto das casadas do voto das solteiras. As últimas seriam piores, já que as casadas tenderiam a acompanhar o voto dos maridos.
A Folha publicou uma reportagem sobre o assunto e Figueiredo se pronunciou no X, o antigo Twitter. “Deixa eu me retratar: mulher não vota muito mal, mulher vota mal PARA CARALHO. Especialmente as solteiras. Se trabalha na Folha então, pior ainda. Como isso sequer é controverso, meu Deus?”, escreveu.
Pode parecer um caso à parte, mas é uma postura compartilhada por outros homens. Em agosto do ano passado, o secretário de defesa de Donald Trump, Pete Hegseth, compartilhou um vídeo de um pastor dizendo que mulheres não deveriam votar. O Pentágono se retratou dizendo que Hegseth era a favor do voto feminino. O vai e vem deixou um gosto amargo.
O pastor em questão era Douglas Wilson, que falou publicamente em favor do “voto da família”, isso é, um sistema em que cada família tem direito a um único voto, decidido pelo patriarca. Uma reportagem de abril do jornal americano The New York Times mostra que até algumas mulheres conservadoras advogam por isso.
Para quem quiser se aprofundar no tema do sufrágio feminino no Brasil, recomendo o podcast “Sufrágio”, da minha colega de newsletter Angela Boldrini.
Uma mulher para conhecer
Susan Sontag (1933-2004)
A figura da escritora Susan Sontag é difícil de ignorar. Uma das maiores intelectuais americanas do século passado, ela escreveu sobre crítica de arte, sobre estética, sobre fotografia e sobre mulheres. Além disso, escreveu romances e usou o próprio câncer como ponto de partida para reflexões sobre a doença como uma metáfora. Ela foi, ainda, crítica ferrenha da Guerra do Vietnã.
No começo desse ano li pela primeira vez o “Contra a Interpretação”, de 1964, e ela não saiu da minha cabeça. No ensaio, ela alerta para uma obsessão na busca por significado na arte, quando deveríamos nos ater às percepções sensoriais. Voltei à Sontag num livro que será lançado pela editora Fósforo, “Narrar Histórias”. É a transcrição de uma conversa entre Sontag e o escritor John Berger, somada a correspondências entre os pensadores. Vale a leitura.
Folha de São Paulo



