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Aos 38 anos, cantor abre o coração sobre passado na igreja e bullying na infância

O período de isolamento social fez com que muitas pessoas olhassem para o próprio passado com outra perspectiva. Durante a quarentena em Vitória, no Espírito Santo, um cantor e compositor brasileiro aproveitou uma transmissão em vídeo para a revista Marie Claire para falar de temas sensíveis. Longe dos palcos, ele abordou a criação em um ambiente evangélico e as dificuldades de crescer lidando com o preconceito.

Na entrevista, o artista detalhou os episódios de hostilidade que enfrentou na escola e na comunidade religiosa. A pressão para se adequar a um padrão causou dor em sua juventude. “Eu sofri muito bullying na escola. Tinha uma voz muito fina, personalidade doce e calma. Tudo era viadinho. Eu não contava pra ninguém, guardava pra mim. Ouvia na escola e depois na igreja de que eu iria pro inferno se eu fosse gay”, relatou à publicação, afirmando que, na época, achava que era pecador e chegou a pedir a Deus para tirar isso dele.

Quem dá esse relato é Lúcio Silva de Souza, conhecido pelo público como Silva. Aos 38 anos, o músico multi-instrumentista transformou o peso do passado em uma carreira sólida. Nascido na capital capixaba, ele cresceu sob os cuidados do avô, um pastor batista. Apesar do conflito com os dogmas religiosos, foi justamente o avô quem usou o salário de professor de escola pública para investir nas primeiras ferramentas musicais do neto.

O amor nos tempos de internet

Ainda na conversa com a Marie Claire, Silva abordou sua vida pessoal e a forma como lida com relacionamentos. Naquele momento, ele dividia a casa com o então namorado, o estilista Renan Mantovaneli. A união começou de forma bem contemporânea: por um aplicativo de celular.

A gente se conheceu no Grindr”, brincou o cantor, explicando que eles já tinham amigos em comum na cidade. A convivência evoluiu e o artista conta que deu sinais claros de que queria algo sério, até que o parceiro fizesse o pedido oficial. Fora desse período, o histórico amoroso do artista inclui figuras públicas e anônimas, com passagens em seu currículo de relacionamentos com o enfermeiro Fernando Sotele e, mais recentemente, com o dermatologista Thales Bretas. Atualmente, o cantor está namorando o capixaba Samuel Emery, de 24. O jovem mora no Espírito Santo, terra do artista.

Superação através da terapia

Lidar com o que ele definiu na entrevista como uma “culpa cristã” exigiu tempo. Silva revelou que frequentou a igreja batista até os 19 anos. Hoje, o cantor de 38 anos garante que processos terapêuticos foram essenciais para deixar as amarras para trás e aceitar a própria identidade em sua totalidade.

Sem sentir saudade da época de repressão, ele faz questão de usar sua visibilidade para apoiar o ativismo. Para ele, é essencial acompanhar os grupos de conscientização civil. “É importante os movimentos em prol e na luta pelos direitos dos LGBTQIA+. Precisamos saber quem está lutando por e contra nós”, declarou na live.

Trajetória na música brasileira

A aposta feita pelo avô deu certo. A partir de 2012, quando lançou seu primeiro trabalho de estúdio, um EP homônimo seguido do disco Claridão, a música brasileira ganhou um novo expoente. Inicialmente focado no cenário independente, Silva logo chamou a atenção do mercado.

O reconhecimento nacional ganhou força com o álbum Vista pro Mar, de 2014, eleito um dos melhores discos do ano pela Rolling Stone Brasil. O ponto de virada definitivo para a MPB ocorreu em 2016, com a turnê e o disco Silva Canta Marisa, projeto que rendeu uma gravação inédita composta em parceria com a própria Marisa Monte. Desde então, ele manteve uma produção constante de sucessos, diversificando ritmos ao lado de artistas como Ludmilla e Ivete Sangalo, arrastando multidões com o “Bloco do Silva” no carnaval e lançando trabalhos elogiados, do álbum Cinco (2020) ao disco Encantado (2024).

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