Política

Direita dá tiro no pé ao focar impeachment do STF, povão quer fim da 6×1, diz nova líder de Lula no Senado

A nova líder do governo Lula no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), afirma que a direita dará “um tiro no pé” ao apostar no impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) na campanha para o Senado neste ano e que o fim da escala 6×1 será um trunfo eleitoral para os candidatos de esquerda, mesmo se a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) não for aprovada antes das eleições.

“A direita vai dar um tiro no pé ao dizer que quer se eleger para fazer impeachment de ministros. O que é que o povão sabe disso? O povão sabe da PEC, 80% sabem da PEC, sabem o que é que ela vai mudar na sua vida”, afirma Teresa Leitão em entrevista à Folha. “Cinegrafista, diarista, maquiador, esse povo de serviços, tá todo mundo me perguntando quando é que essa PEC vai ser votada. Ela pegou no imaginário.”

Segundo pesquisa Datafolha de maio, 71% dizem ser favoráveis à redução da jornada. A direita bolsonarista tem destacado a campanha ao Senado pelo fato de a casa decidir o impeachment de ministros do Supremo, tribunal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.

Ela afirma que tem “resistido muito a fazer esse apelo eleitoral” e que deseja separar o debate em torno da redução da jornada da disputa eleitoral, mas reconhece que o tema é sensível e será abordado na campanha independentemente do resultado. “Ela serve aprovada ou não, serve de mérito para quem aprovou. Quem não aprovou, vai ser listado por quem quer aprovar”, afirmou Teresa Leitão.

No Planalto, a avaliação é a mesma que a da senadora. Interlocutores do presidente Lula acreditam que se o Senado segurar a PEC do fim da 6×1, o PT poderá reeditar a campanha “Congresso inimigo do povo”. No ano passado, esse mote rendeu ao presidente uma melhora nas pesquisas de opinião.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem dito a aliados que não pautará o fim da escala 6×1 até conversar com o presidente Lula. Eles estão afastados desde a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF. A derrota histórica do indicado do presidente ocorreu com a colaboração do presidente do Senado, que, publicamente, nega ter atuado contra a indicação.

A nova líder do governo diz que ainda não há previsão de reunião entre Lula e Alcolumbre. Ela ressalta que a relação institucional nunca foi rompida e que o presidente do Senado tem linha direta com qualquer ministro do governo. Já um encontro pessoal ainda está sendo avaliado. “Se isso for necessário, acho que a gente precisa construir, mas eu ainda estou avaliando como é que vou atuar nessa linha.”

Alcolumbre não antecipou qual o teor da conversa que deseja ter com Lula, segundo a petista, que assumiu a função no lugar de Jaques Wagner (PT-BA), após o senador ser alvo de operação da PF (Polícia Federal) por suspeitas de receber favores dos então donos do Banco Master, como ingressos para shows, caronas em jatinhos e um apartamento de R$ 2,5 milhões, para atuar nas pautas de interesse do banco.

Diante de rumores de que o presidente do Senado buscaria proteção contra a investigação do escândalo do Master, após reclamar publicamente no plenário de se sentir perseguido, ela afirma que esse assunto não prosperaria numa conversa com Lula.

“Ele [Alcolumbre] sabe como é que a Polícia Federal atua. Quando ele disse isso [que estaria sendo perseguido], uma semana depois a vítima foi Jaques. Então não é coisa de governo. O governo atuar contra o seu próprio líder?”, diz Teresa. “Isso é uma conduta histórica do PT, nós queremos que a investigação prospere”, afirma.

A nova líder do governo diz que “muita gente lamentou” a saída de seu antecessor na função, pelo perfil conciliador e pela longa experiência política de Wagner, mas que o afastamento foi para que ele possa se dedicar a sua defesa. “Ele tem obrigação com ele próprio, com a história dele”, diz. O senador tem rejeitado as acusações e dito que, na verdade, atuou contra os interesses do Master no Congresso.

Teresa afirma que deixará a discussão sobre o Master para a campanha eleitoral e que o assunto está atualmente fora da pauta do Legislativo. “Tem três pedidos de CPI do Banco Master. Todos nós do PT assinamos. Mas não tem CPI, então acho que em relação a isso, está entregue à Justiça. Vai ter debate político? Vai. Vamos evitar que ele se dê aqui [no Congresso]. Mas na campanha ele vai se dar, é evidente.”

Sobre o impacto para a campanha de Lula, a senadora adota a estratégia do PT de tachar a fraude financeira como uma crise gestada pelo governo Bolsonaro (PL). “Sempre é bom lembrar: o Banco Master e Vorcaro têm um nascedouro, e esse nascedouro é o [governo] Bolsonaro. Tem vídeos, conversas telefônicas, contatos, mensagens de Vorcaro e Flávio Bolsonaro“, diz.

A líder diz que Lula pediu que, além da PEC 6×1, ela trabalhe pela aprovação de outras duas propostas consideradas prioritárias. A PEC da Segurança Pública, que dá mais competência a governo federal para atuar nessa área, e o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Ambas, no entanto, estão menos avançadas, admitiu a parlamentar.

Folha de São Paulo

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