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Andresa Paiva leva ciência e escuta a mulheres que convivem com dor

A dor feminina quase sempre conta uma história maior do que o sintoma. Pode aparecer na cólica que interrompe o trabalho, na relação sexual evitada, no sangramento que enfraquece, no medo de não engravidar ou na rotina reorganizada em torno do ciclo menstrual. É nesse território, entre ciência, escuta e decisão cirúrgica, que Andresa Paiva constrói sua atuação como ginecologista.

Com 15 anos de experiência cirúrgica, Andresa Maria Felipe de Paiva fez da ginecologia minimamente invasiva uma das bases de sua carreira. Ainda assim, sua prática não se mantém somente no consultório. Para ela, cuidar de uma paciente também significa compreender sua história, seus planos e o impacto emocional de conviver com uma dor que, muitas vezes, foi desacreditada.

“Quando uma mulher não está bem, não é só ela que adoece. Existe uma família, um trabalho, uma rotina e muitas responsabilidades ao redor dela. A dor feminina precisa ser levada a sério porque atinge a vida de forma ampla”, afirma.

De Guaratinguetá à formação na Europa

Nascida em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, Andresa cresceu em uma família com referências diversas. Havia médicos no lado paterno e advogados no lado materno, mas ela não define sua escolha como herança. Prefere falar em vocação.

Desde cedo, era movida por perguntas. Interessava-se por biologia, mas também por história, física, psicologia e comportamento humano. A medicina surgiu como um caminho natural para unir investigação, conhecimento e cuidado.

“Eu sempre fui muito curiosa. Queria entender não só o que era algo, mas por que era daquele jeito. Acho que essa curiosidade me levou para a medicina, porque o ser humano sempre foi o meu maior campo de interesse”, relembra.

Durante a graduação em Medicina, em Vassouras (RJ), a ginecologia se consolidou aos poucos como escolha profissional. Apesar dos alertas sobre a rotina intensa da área, foi nos estágios que encontrou identificação.

“Era o estágio em que eu podia começar às cinco da manhã e terminar tarde, mas voltava para casa realizada. Eu podia estar cansada fisicamente, mas não mentalmente. Foi assim que entendi que havia encontrado o meu lugar”, conta.

Após a graduação, Andresa seguiu para São Paulo, onde realizou sua formação em ginecologia no Hospital Pérola Byington. O contato com pacientes com dor, sangramento, infertilidade e alterações ginecológicas complexas aproximou a médica da cirurgia minimamente invasiva, inicialmente pela videolaparoscopia. A inquietação diante de casos que exigiam estratégias mais amplas a levou a estudar novamente, com formações na Itália e na França voltadas à endometriose, ao assoalho pélvico e às técnicas cirúrgicas, a fim de ampliar sua visão sobre o tratamento de casos complexos e trazer novas possibilidades para sua prática no Brasil.

“Eu já era ginecologista e trabalhava, mas havia situações que eu não conseguia resolver como gostaria. Essa inconformidade me fez buscar mais. Voltei a estudar porque queria estar mais preparada para cuidar das minhas pacientes”, diz.

Endometriose, miomas e dor pélvica feminina

Entre as histórias que marcaram sua trajetória, uma adolescente de 15 anos se tornou símbolo de sua prática. A jovem relatava dores intensas, mas não era levada a sério. Mesmo com exames inconclusivos, Andresa decidiu aprofundar a investigação, e confirmou o diagnóstico de endometriose.

“Ela me disse que parecia estar com a barriga anestesiada. Aquela menina tinha ouvido que a dor era emocional, mas existia uma doença ali. Naquele momento, entendi que acreditar na dor de uma mulher pode mudar o rumo da vida dela”, recorda.

A experiência reforçou uma convicção: a dor pélvica não deve ser tratada como um incômodo menor. No consultório, Andresa atende mulheres que organizam a vida em função da dor, muitas vezes acreditando que o sofrimento faz parte da rotina.

“A mulher costuma normalizar demais a própria dor. Muitas passam anos acreditando que menstruar significa sofrer. Isso não deve ser tratado como destino. Dor que limita precisa ser investigada”, explica.

A endometriose é uma das principais causas, mas não a única. Miomas, adenomiose, prolapso genital e perda urinária também podem comprometer a qualidade de vida. Por isso, a médica defende uma avaliação individualizada, considerando sintomas, exames, idade, desejo reprodutivo e impacto emocional.

Ter mioma não significa, necessariamente, precisar operar. O que define a conduta é o impacto na vida da mulher, sangramento, anemia, dor, compressão de órgãos ou dificuldade para engravidar mudam completamente a avaliação”, esclarece.

Tecnologia, saúde emocional e cuidado integral

A cirurgia minimamente invasiva ocupa papel central em sua atuação e pode envolver videolaparoscopia, cirurgia robótica e abordagens por vias naturais, quando indicadas. O objetivo é reduzir o trauma cirúrgico e favorecer a recuperação.

Ainda assim, Andresa evita tratar a tecnologia como solução isolada.

“A tecnologia é uma grande aliada, mas não substitui a escuta nem a decisão médica. O robô não opera sozinho. Ele oferece precisão e visão ampliada, mas quem toma decisões é o cirurgião”, ressalta.

Essa visão se estende ao cuidado emocional. Em seu mestrado, Andresa estudou os impactos psicológicos da endometriose e observou como a dor crônica pode afetar autoestima, relacionamentos e planos de vida.

“A endometriose não afeta apenas a pelve. Ela pode atingir autoestima, trabalho e relações. Às vezes, antes de pensar em cirurgia, é preciso fortalecer essa mulher para que ela enfrente o tratamento”, reflete.

Por isso, defende uma abordagem multiprofissional, que pode incluir fisioterapia pélvica, nutrição, psicologia e outras especialidades, a depender do caso.

Informação, ensino e próximos passos

Nas redes sociais, Andresa compartilha conteúdos sobre dor pélvica, endometriose, miomas e saúde feminina em linguagem acessível. Para ela, a informação pode ser o primeiro passo para que mulheres reconheçam seus sintomas e busquem ajuda.

“Conhecimento liberta. Quando uma mulher entende que aquilo que sente não precisa ser normal, ela ganha força para procurar ajuda e participar das decisões sobre o próprio corpo”, afirma.

Atualmente, atua em São Paulo com foco em dor pélvica, endometriose e cirurgia minimamente invasiva. A prática clínica caminha ao lado do ensino, em aulas, palestras e formação de profissionais.

Entre os próximos passos, estão o aprofundamento em neuroanatomia pélvica e a criação de uma clínica multidisciplinar voltada ao cuidado integral da mulher.

“Eu queria que toda mulher entendesse que não precisa sofrer em silêncio. A mulher cuida de muita coisa e de muitas pessoas, mas também precisa olhar para si. Para viver bem, ela não deve aceitar a dor como parte obrigatória da própria história”, conclui.

CRM: 133198/SP | RQE Nº: 66616

Instagram: @dra.andresapaiva

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