Grávidas após perdas, Tati Machado e Sabrina Sato viveram a dor silenciosa do luto

A chegada de uma nova gravidez após a dor de um aborto ou perda fetal mexe profundamente com o psicológico de qualquer mulher. Conhecidas pelo carisma e pela forte conexão com o público, Tati Machado e Sabrina Sato passaram por esse momento delicado em suas vidas pessoais. Atualmente, as duas apresentadoras dividem com o país a expectativa de suas novas gestações. Ambas trazem na bagagem o luto de perdas gestacionais anteriores que marcaram suas trajetórias recentes. Por isso, elas usam suas redes para falar abertamente sobre a mistura de medo e felicidade, um sentimento validado pela psicologia perinatal.
O processo de gerar uma nova vida depois do trauma exige paciência e acolhimento dos que estão em volta. Nesse cenário, as famosas jogam luz sobre um tema que muitas famílias ainda tratam como um tabu silencioso. Saiba mais sobre os relatos das artistas e a análise profissional desse turbilhão emocional.
O medo do apego e os sentimentos contraditórios na gestação arco-íris
A caminhada de Tati Machado e Sabrina Sato em 2026 é acompanhada de perto por milhares de mãe que viveram o mesmo drama. Após a trágica perda de Rael em 2025, Tati admitiu no programa Saia Justa que vive um misto de felicidade e medo constante. Isso acontece porque a gravidez atual desperta lembranças dolorosas do filho que partiu. Com efeito, Sabrina Sato também relatou viver a nova gestação, fruto de seu relacionamento com Nicolas Prattes, com muito mais cautela após sofrer duas perdas gestacionais.
De acordo com a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, uma perda em qualquer período da gestação se torna um fator de risco para que a mulher apresente alterações emocionais significativas no futuro, como ansiedade, estresse ou depressão. A especialista explica que o receio do luto reaparecer é recorrente:
“É muito comum que mulheres, após uma perda fetal, em uma próxima gestação, apresentem algum tipo de problema de saúde mental que precise de acompanhamento profissional. Pode ser uma ansiedade, um estresse, uma depressão, principalmente pelo medo de que tudo aconteça de novo. Perder um filho é traumático. É sempre um evento muito significativo, muito dolorido. Por isso, mesmo em uma nova gestação, pode aparecer esse medo de reviver a dor que ela já viveu antes.”
Mecanismos de defesa e o receio de planejar o enxoval do bebê
O impacto de um trauma anterior pode ditar o comportamento da gestante em relação aos preparativos práticos para a chegada do novo filho. Em suas primeiras experiências após o aborto de 2019, Tati Machado já havia confidenciado que demorou a criar um vínculo inicial com a gravidez seguinte por puro medo.
Ademais, a recusa em fazer planos ou celebrar etapas tradicionais funciona como um escudo psicológico protetor. Segundo Rafaela Schiavo, o medo de passar por aquilo de novo aumenta e isso pode, muitas vezes, interferir na nova gestação. A profissional destaca que a falta de apego inicial surge como um mecanismo de defesa da mulher para não sofrer tanto como sofreu antes:
“Às vezes, quando a perda aconteceu no final da gestação e ela tinha feito um chá de bebê, por exemplo, ela pode não se sentir tão impelida a fazer um chá de bebê em uma próxima gestação. Ela pode não ter tanta motivação, alegria ou prazer em fazer isso. Não são todas, claro, porque outras mulheres podem agir de outras formas, mas é possível que isso aconteça. Por isso, é muito importante que mulheres que perderam o bebê, em uma próxima gestação ou quando estiverem planejando uma próxima gestação, procurem um profissional da psicologia perinatal”, revelou a profissional.
O erro de tentar apagar a memória do filho que partiu
A necessidade de manter viva a história das crianças que não puderam crescer é um ponto em comum entre os relatos das apresentadoras. Em entrevista ao Fantástico, Tati Machado emocionou o público ao decretar que sorrir não significa esquecer, e que ela continua sendo mãe de Rael.
Por causa disso, a rede de apoio precisa agir com extrema sensibilidade, evitando silenciar o passado como se o bebê nunca tivesse existido. Conforme explica a psicóloga perinatal, muitas mães fazem questão de manter viva a memória desse bebê, reconhecendo ele como seu filho, mesmo que outro venha posteriormente. De acordo com Rafaela, a rede de apoio precisa permitir que essa mulher fale sobre a perda:
“As pessoas têm medo de tocar no assunto, têm medo de deixá-la falar. Muitas vezes, quando ela começa a falar, as pessoas dizem que é melhor mudar de assunto, numa tentativa de achar que isso vai fazer ela sofrer menos. Mas não é isso que ajuda. O que ajuda no processo de luto é permitir que ela fale sobre o assunto. Quanto mais ela puder falar sobre o assunto, e estar com outras pessoas que passaram pela mesma situação, mais isso pode ajudar no processo de luto”, disse Rafaela Schiavo.
Frases clichês que machucam e a invisibilidade do luto perinatal
A dor das famílias que passam por perdas gestacionais muitas vezes esbarra na falta de tato de parentes e amigos próximos. Expressões corriqueiras e tentativas automáticas de consolo acabam minimizando o sofrimento de quem perdeu um filho.
Logo depois de anunciarem suas novas gestações, tanto Tati quanto Sabrina receberam uma enxurrada de comentários na internet. Quando Sabrina postou sobre sua gravidez, Tati comentou a publicação e ouviu da amiga um sincero “Tenho tanto para conversar”, mostrando a necessidade mútua de desabafo. Segundo Rafaela Schiavo, a possibilidade de chorar sem ouvir palpites externos faz toda a diferença na vivência dos pais:
“Comentários como esses são, na maioria das vezes, desnecessários e podem atrapalhar muito a vivência do luto. Os pais, nesse momento, muitas vezes querem falar sobre o filho e manter sua memória viva. Muitas famílias evitam o tema, como se fosse um tabu, mas os pais querem, e precisam, falar sobre a criança, relembrar o que viveram e manter viva sua existência na memória. Esse luto ainda é muito invisibilizado. Muitas vezes, é como se nada tivesse acontecido, como se essa criança não tivesse existido.”
O momento ideal para buscar suporte especializado nas clínicas
A formação saudável do luto e a preparação emocional para o nascimento do bebê arco-íris dependem diretamente de um suporte qualificado. Sabrina Sato revelou que o companheiro, Nicolas Prattes, foi fundamental para que ela se permitisse viver o luto em vez de apenas se afundar no trabalho.
A busca por terapia deve ser vista como um ato de cuidado com a saúde mental da mãe e do futuro filho. De acordo com a especialista, toda pessoa que está em luto perinatal, seja por aborto espontâneo, perda fetal ou gestacional próxima ao parto, deve procurar um psicólogo perinatal. Segundo Rafaela, o luto não é uma doença, mas um processo intenso:
“O ideal é buscar esse profissional que possa acolher esse momento com escuta qualificada e técnicas específicas. O objetivo da psicoterapia não é fazer a pessoa esquecer o bebê ou acelerar o processo de voltar a ser feliz, mas ajudá-la a elaborar a dor, encontrar formas saudáveis de manter a memória do bebê, se desejar, e cuidar da própria saúde emocional nesse processo tão delicado.”
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