A posse de bola do Brasil foi ruim, mas e os atacantes?

Quando a Noruega eliminou o Brasil, no último domingo (5), uma estatística explodiu na tela: apenas 34% de posse de bola, a menor da seleção em uma Copa do Mundo desde ao menos 1966 (primeiro ano com dados medidos pela Opta). É um número tão ruim que ofuscou outros que avalio como tão ruins quanto esse.
Começando pela incompetência de converter as chances em gol. Segundo a métrica xG (que mede a quantidade de gols esperados dada a qualidade dessas chances), o Brasil ficou com 2,6 contra a Noruega.
Ou seja, mesmo com um tempo pífio de bola no pé, era para a seleção ter feito entre dois e três gols na partida. Marcou apenas um, com déficit puxado especialmente pelo pênalti perdido por Bruno Guimarães e pela chance desperdiçada por Endrick cara a cara com o goleiro.
O xG calcula a chance de gol avaliando fatores como distância até a meta, se a batida é de frente ou de lado do gol e se há muitos ou poucos defensores à frente do atacante, entre outros fatores.
O padrão de boas chances criadas, mas desperdiçadas, se estendeu pelo torneio como um todo. O Brasil estava entre os cinco melhores em gols esperados até os jogos desta terça-feira (7). Mas, na variável do xG que mede o quanto o time converte essas chances, a seleção ficou apenas na 32ª colocação entre as 48 seleções.
Há outra métrica considerável na qual o Brasil foi muito mal: o tempo de recuperação de bola. Em média, o time de Ancelotti levou 96,34 segundos na competição para reaver a bola depois de perdê-la, a pior marca de todo o Mundial.
Logo atrás da seleção brasileira vieram Gana, Paraguai e República Democrática do Congo; nenhuma dessas equipes conseguiu passar das oitavas. A França recuperou a bola 25 segundos mais rapidamente que o Brasil; a Espanha, quase 40.
Os selecionados por Carlo Ancelotti também enfrentaram dificuldades físicas nesta Copa. O Brasil teve uma das velocidades médias mais baixas do torneio —5,88 km/h, 35ª colocação entre as 48 seleções.
Uma possível explicação para essa carência física é o perfil do elenco: a média de idade dos jogadores brasileiros para este Mundial foi de 28,6 anos, acima dos 27,8 anos da Copa anterior, com 11 jogadores de 30 anos ou mais (a correlação é sugestiva, mas vale a ressalva: os dados não provam uma relação direta de causa e efeito entre idade e menor intensidade física em campo; outros fatores táticos podem explicar parte da diferença).
Uma equipe exitosa não precisa necessariamente liderar todas as estatísticas, mas precisa compensar as dificuldades em outros atributos. A Argentina, como um todo, está entre as cinco mais lentas do Mundial, considerando a velocidade média dos seus jogadores. Mas tem Messi, oito gols no torneio (o melhor brasileiro foi Vinicius Junior, com quatro).
Se o país não tem um fora de série como o argentino, talvez melhorias incrementais poderiam ter sido suficientes para chegar mais longe que as oitavas de final. Será que esse “trisco” que faltou poderia ter sido João Pedro, o atacante do Chelsea, um dos artilheiros deste ano na Premier League (a liga nacional mais forte do mundo)?
E daqui para a frente, qual vai ser o perfil do elenco e o esquema de jogo de Carlo Ancelotti para o ciclo até o Mundial de 2030?
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Esporte / Folha de São Paulo



