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Maior medalhista paralímpica do Brasil, Adria Santos comanda instituto que apoia crianças em SC

Maior medalhista paralímpica brasileira, Adria Santos, 51, não se esquece do dia em que a categoria em que competia passou de T12 (baixa visão severa) para T11 (cegos).

“Eu me senti impotente, não queria aceitar que teria de correr com uma venda nos olhos”, lembra. O nervosismo foi tanto com a mudança que passou aquela noite, em 1994, sem conseguir dormir, pensando em como se sairia na nova categoria.

Mesmo tendo conquistado uma medalha de ouro dois anos antes nas Paralimpíadas de Barcelona, Adria diz que não confiava em si. O sentimento é comum entre mulheres, como mostrou a pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, da qual Adria foi uma das entrevistadas.

O estudo, feito pelo Estúdio Clarice —organização de inteligência e criação com foco em investigar e fomentar o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais—, mostrou que 27% das mulheres apontam duvidar da própria capacidade.

Mesmo insegura, Adria correu com a venda e o veredicto veio: ela foi campeã e, dali em diante, nada a parou. “Era algo que eu tinha que aceitar. Fui me acostumando a usar a venda e os resultados vieram.”

Adria conquistou cerca de 600 medalhas em competições mundo afora, incluindo quatro de ouro em Jogos Paralímpicos. Além da de Barcelona, ganhou duas em Sydney, em 2000, nos 100 e nos 200 metros, e uma em Atenas, em 2004, oito de prata e uma de bronze.

Com as láureas, veio também a consciência de que ela é uma mulher poderosa. “Saber que eu conseguia vencer outras competições me deu confiança para continuar”, lembra.

As conquistas, ela diz, vieram de sua determinação, do apoio da equipe, dos amigos e de uma boa estrutura familiar.

“Tive uma infância que desejo para todas as crianças, brincando e subindo em árvore”, diz a filha de dona Matilde, mãe de nove filhos —dos quais quatro nasceram com alguma deficiência visual. A de Adria é retinose pigmentar, astigmatismo e ceratocone. Aos 13 anos, perdeu a visão do olho esquerdo e, aos 18, a do direito.



Algumas pessoas acham que podem fazer algo de uma forma diferente do que eu gostaria porque não enxergo. Então, às vezes, tenho que manter minha postura mais firme para ser respeitada

Não ter uma referência feminina no esporte em que competia fez falta, e hoje ela se orgulha de servir como exemplo de força para jovens atletas. Sente-se especialmente emocionada quando meninas lhe dizem se inspirar nela. “É um sentimento de realização saber que elas podem sonhar em ser o que quiserem a partir da minha história.”

No entanto, a sensação de poder desapareceu quando Adria se aposentou das pistas, em 2013, após uma lesão no menisco no ano anterior. Como acontece com muitos atletas de alto rendimento, ao parar, ela entrou em depressão.

Foi ao buscar ajuda profissional que conseguiu se reerguer e começou a correr na rua. Também competiu em 2018 e 2019, enquanto fazia faculdade de educação física, como paraciclista.

Seu sonho se realizou em 2022, quando fundou o Instituto Adria Santos, em Joinville (SC), onde vive desde 2003.

Atualmente, a instituição oferece aulas de atletismo e atividades lúdicas para cerca de 130 crianças de 6 a 12 anos de escolas públicas com e sem deficiência. Também promove palestras com a fundadora sobre sua trajetória e a importância da inclusão de pessoas com deficiência.

Como mulher que se vê como potência, Adria conseguiu enfrentar os desafios surgidos quando se tornou gestora. As adversidades incluem situações de preconceito. “Algumas pessoas acham que podem fazer algo de uma forma diferente do que eu gostaria porque não enxergo. Então, às vezes, tenho que manter minha postura mais firme para ser respeitada.”

Assim como ela, cerca de 33% das mulheres entrevistadas pelo Estúdio Clarice já tiveram que controlar expressões faciais e gestos para serem ouvidas. E, mesmo alterando sua postura, há quem duvide de sua capacidade como gestora.

“Como mulher, tenho que provar que consigo fazer o mesmo que homens fazem o tempo inteiro. Como mulher e deficiente, essa questão é ainda mais intensa”, diz.

Mas Adria não se deixa abater. “As pessoas também duvidavam da minha capacidade quando eu corria, e eu mostro meu poder pelos meus atos.”

Confiante, ela sabe da importância que tem para os jovens de seu instituto. “Sinto que sou a fortaleza para eles e, se eu estou forte, eles estão fortes comigo.”


Esporte / Folha de São Paulo

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