Política

Copa do excesso

Excesso de seleções. Quarenta e oito países, jogos de baixo nível técnico. Desenvolvimento do futebol mundial? Não: estratégia de poder de Infantino, capo da Fifa, que se eterniza à frente da entidade por meio da compra das federações nacionais periféricas.

Excesso de publicidade. A “pausa de hidratação”, nome ilusório para extensos intervalos comerciais, converteu um jogo de duas metades em jogo de quatro quartos. Nos EUA, a Copa concluiu sua mutação de evento esportivo em puro negócio e palco de celebridades.

Excesso de exclusão. Ao longo das três últimas décadas, o evento impulsionou a globalização do futebol, isto é, a concentração de riqueza nas ligas europeias e a edificação de arenas suntuosas. A inflação mundial dos preços dos ingressos expulsou o povo dos estádios, confinando-o à gaiola do pay-per-view. Os valores astronômicos dos ingressos da Copa atual são ilustrações extremas da gentrificação do futebol.

Excesso de arbítrio. Infantino ofertou a Trump um “Prêmio da Paz”, o Nobel farsesco de um chefe mafioso secundário a seu superior. Da vassalagem inaugural derivou uma coleção de outras. Sob a conivência da Fifa, a seleção do Irã viu-se proibida de estabelecer uma base nos EUA. Um árbitro somali, além de integrantes de delegações e torcedores estrangeiros, foram barrados pela imigração. O anfitrião xenófobo escreveu a regra do jogo.

Excesso de manipulação. A suspensão da suspensão do atacante americano Balogun evidenciou a submissão sem limites da Fifa a Trump. O Comitê Disciplinar da entidade –leia-se: Infantino– rasgou seu próprio regulamento para curvar-se à ordem emanada do Salão Oval. Faltou apenas anular os quatro gols belgas, via revisões do VAR.

No Brasil, excesso de bets. O fracasso da seleção, um time sem criatividade no meio-campo ou laterais agudos, forma uma tomografia do estado falimentar do futebol brasileiro. “Quando a bola é passada para você, precisa ser capaz de controlá-la. Se você não a controla, também não consegue passá-la”, ensinou Cruyff. Os jogadores brasileiros desaprenderam a técnica do controle da bola, assinalou Djorkaeff, campeão pela França em 1998. Ancelotti invocou o início de “um novo ciclo”. Suspeito que, aprisionado pelas bets, o futebol do país definhará ainda mais, enquanto estimula o endividamento popular e o vício doentio nas apostas.

Ainda no caso do Brasil, excesso de Neymar. A convocação da estrela inútil revelou a supremacia persistente do lobby dos patrocinadores. Já o gesto derradeiro do craque autocentrado sintetiza uma era. Após converter o pênalti, no lugar de recuperar a bola e conduzi-la ao centro do gramado, desperdiçou tempo precioso em chulas provocações ao goleiro norueguês. Provou assim, pela enésima vez, seu desprezo pela equipe que o adorava. A adoração indica, porém, que a “era Neymar” prosseguirá, como soberba e empáfia, mesmo na sua ausência.

No caso da França –e só nele!– uma nota positiva: excesso de arte. Seus jogadores, de famílias imigrantes, aprenderam a driblar e tabelar nas praças acanhadas das cidades-satélites de Paris, antes de ganharem músculos e inteligência tática no centro nacional de Clairefontaine. Sua seleção joga como o Brasil de 1982. Perderá, como aquele time encantado ou a Holanda total de 1974? Não importa: lembra-nos o que o futebol poderia ser.


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Folha de São Paulo

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