A estratégia do PT para tentar minar a hegemonia da oposição entre os evangélicos

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Em julho de 2018, Lula estava preso, o PT amargava o desgaste pelo envolvimento em rumorosos casos de corrupção e o amplo alcance dos escândalos acabou por consolidar em uma parte considerável da sociedade a percepção de que certos valores precisavam ser resgatados. Essa combinação levou o eleitorado evangélico a apoiar majoritariamente a candidatura de Jair Bolsonaro. Em 2022, as pesquisas mostravam que o então presidente ainda contava com o apoio da maioria desses religiosos, mas mesmo assim foi derrotado. Em uma disputa polarizada, como a que se avizinha, um voto conquistado no território do adversário pode fazer toda a diferença. Pré-candidato do PL à Presidência, o senador Flávio Bolsonaro, assim como o pai, leva uma confortável vantagem entre os cerca de 50 milhões de evangélicos. Segundo as pesquisas, o parlamentar teria hoje 41% dos votos nesse segmento, enquanto Lula, seu principal oponente, é preferido por apenas 26%. O PT sabe que inverter essa tendência é uma tarefa quase impossível. Por isso, vai se empenhar em tentar diminuir o prejuízo.
Desde o início de seu terceiro mandato, Lula tenta construir pontes com os evangélicos. A indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF) do advogado-geral da União, Jorge Messias, diácono da Igreja Batista Cristã de Brasília, fez parte dos esforços do presidente. O Senado barrou o nome de Messias, mas a campanha dele pelo cargo contou com o apoio de importantes líderes religiosos, exatamente como queria o PT, que conseguiu estabelecer uma parceria circunstancial no caso. Agora, o partido se prepara para uma ofensiva mais estruturada e pretende se beneficiar do desgaste momentâneo de Flávio Bolsonaro em razão de seu envolvimento no escândalo do Banco Master e do fato de a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, considerada o principal trunfo da oposição entre os evangélicos, ter se distanciado do Zero Um. A nova estratégia petista — organizada por Gutierres Barbosa, membro da Igreja Batista Nazareth e coordenador do setor inter-religioso do partido — tem como base núcleos evangélicos montados nas 27 unidades da federação.

A missão deles é promover encontros com eleitores, debater políticas públicas e detalhar programas e realizações do governo. A prioridade é dialogar com a base religiosa, com o chão da fábrica — não por meio de versículos, como faz simbolicamente o clã Bolsonaro, mas tratando de assuntos do dia a dia da população. Esse trabalho presencial é considerado fundamental para complementar outras iniciativas pensadas pelo PT para o embate eleitoral e difundir os principais programas sociais do governo — de preferência, associando-os a valores cristãos, como combate à fome, busca por justiça social e solidariedade com os mais pobres. Ciente das razões da resistência dos evangélicos a Lula, o partido também deixará de lado, como tem feito nos últimos tempos, algumas de suas conhecidas bandeiras na chamada pauta de costumes, como a legalização do aborto e o casamento entre pessoas de mesmo sexo. A legenda evitará tratar disso quanto for possível durante a campanha. A defesa da linguagem neutra, cara a nichos específicos da esquerda, também será ignorada.

Há o entendimento de que o debate deve priorizar temas como custo de vida, criminalidade e oportunidades para ascender socialmente. A coordenação da campanha à reeleição de Lula também detectou incômodo de parcela dos evangélicos com a instrumentalização política dos púlpitos. Por isso, o PT deixará claro que não quer transformar a igreja em palanque. “Nós não vamos manipular a fé de ninguém”, afirma o presidente do partido e um dos coordenadores da campanha à reeleição, Edinho Silva. O próprio presidente deixou isso claro quando explicou ao apóstolo Estevam Hernandes, organizador da tradicional Marcha para Jesus em São Paulo, por que não estaria presente no evento. “Eu não participo de nada religioso em época de eleição porque não quero passar a ideia de que estou tentando tirar proveito político de uma coisa sagrada”, disse Lula. Foi uma tentativa de fazer um contraponto com o principal oponente, Flávio Bolsonaro, que estava no ato ao lado do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Desde sua entrada no páreo presidencial, o senador tenta herdar todos os ativos eleitorais do pai dele, Jair Bolsonaro — e, obviamente, se livrar dos passivos, como o alto nível de rejeição. Pesquisa Genial/Quaest mostrou que as intenções de voto no Zero Um entre os evangélicos caíram de 49% para 41% entre maio e junho, ficando estável no caso de Lula (passou de 25% para 26%). O presidente, no entanto, colheu uma boa notícia, já que o saldo negativo entre desaprovação e aprovação ao governo no eleitorado evangélico caiu de 35 para 25 pontos percentuais no mesmo período. A desidratação momentânea de Flávio Bolsonaro, segundo alguns de seus aliados, ocorre porque ele não conhece o movimento evangélico e não tem laços com esse grupo, apesar de fazer um gesto ou outro para parecer um “neoconvertido”. É uma situação muito diferente da vivida pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, respeitada e admirada no segmento. Diferente também da situação de Jair Bolsonaro, que, mesmo sendo católico, caiu nas graças dos evangélicos em razão de seu carisma.

Líderes religiosos e políticos de direita reconhecem que iniciativas do PT estão rendendo frutos, especialmente entre fiéis mais pobres. Entre elas, o pacote de bondades eleitorais do presidente, estimado em cerca de 200 bilhões de reais, e a própria indicação de Jorge Messias ao Supremo, barrada por causa da dobradinha entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e a oposição. “Na prática, Flávio se levantou contra um evangélico e manchou a imagem dele dentro dos templos. Isso foi um erro grave da direita”, diz um influente parlamentar oposicionista. Há também a preocupação sobre como as mulheres — as evangélicas em particular — reagirão à guerra entre ele e Michelle Bolsonaro, que recentemente acusou o enteado de humilhá-la, desrespeitá-la e maltratá-la. “O voto evangélico vai ficar na direita, está cristalizado. Quem for para o segundo turno contra Lula vai levar a grande massa do voto evangélico: seja Flávio, Romeu Zema ou o João das Couves”, minimiza o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo. O problema é que o apoio nesse segmento parece estar se dispersando.
Caso se confirme nas próximas pesquisas, esse movimento pode até não mudar a situação de Lula, mas tem poder para enfraquecer Flávio Bolsonaro, cuja candidatura se mantém competitiva apesar de acumular reveses. “No primeiro turno, a tendência é que o apoio fique mais pulverizado”, afirma o bispo Rodovalho, fundador da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra. “Já me posicionei de acordo com o candidato de Jair Bolsonaro. Se for o Flávio, vou de Flávio. Se tiver alguma alteração, vou continuar alinhado ao ex-presidente”, acrescenta. Outros expoentes do segmento têm postura diferente. Alguns querem despolitizar o púlpito e se dissociar de candidaturas. Outros procuram alternativas. É o caso do bispo Samuel Ferreira, presidente da Assembleia de Deus do Brás e da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil. Ele declarou apoio à candidatura presidencial de Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás. Essas fissuras são acompanhadas com atenção por Lula. O presidente sabe que dificilmente terá maioria entre os evangélicos, mas será um grande avanço se conseguir tirar uns pontinhos do adversário.
Publicado em VEJA de 10 de julho de 2026, edição nº 3003
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