Política

Ex-prefeito Allyson Bezerra aposta em neutralidade nacional e marketing afiado na eleição no RN

O ex-prefeito de Mossoró Allyson Bezerra (União Brasil), 34, tenta se viabilizar como candidato ao Governo do Rio Grande do Norte combinando três frentes: a narrativa de origem humilde, uma estratégia de comunicação baseada em presença territorial e digital e um posicionamento de neutralidade em relação à disputa presidencial.

Ele afirma que pretende evitar associação direta com a polarização entre o presidente Lula (PT) e a direita, que terá o senador Flávio Bolsonaro (PL) como candidato na eleição nacional.

“Eu não tenho dificuldade de governar com nenhum presidente. Já governei com Bolsonaro e sei governar com Lula”, disse à Folha.

O estado é governado pelo PT desde 2019, sob a gestão de Fátima Bezerra, e a disputa vai reunir nomes ligados aos dois polos nacionais. Entre eles estão Cadu Xavier (PT), aliado da governadora, e Álvaro Dias, que se filiou ao PL em evento com Flávio Bolsonaro neste ano.

Allyson tem aparecido entre os líderes em pesquisas recentes no estado.

Na estratégia de campanha, ele tem percorrido o estado com a proposta de visitar os 167 municípios, em uma agenda que combina deslocamentos frequentes e produção de conteúdo para redes sociais. Até agora, visitou 68 cidades.

Com 400 mil seguidores, o ex-prefeito usa um chapéu de couro como marca, tenta enfatizar um jeito popular e publica suas agendas de corpo a corpo com os eleitores, uma de suas apostas para a disputa.

Ao falar de suas propostas, prioriza um discurso de superação pessoal e motivacional. “Ouse sonhar e seja atrevido para sonhar. Se você é filho de pobre, aprende uma coisa: eu quero trabalhar, sim, mas quero ter a oportunidade de ter o meu negócio, de ter o meu empreendimento”, disse em evento na última semana.

Engenheiro civil, Allyson iniciou a trajetória política em 2018, quando foi eleito deputado estadual com 20 mil votos. Em 2020, venceu a eleição para a Prefeitura de Mossoró e foi reeleito em 2024 com 78% dos votos.

Ele deixou o cargo no fim de março para disputar o governo. À frente da gestão municipal, afirma ter focado a digitalização de processos administrativos e a execução de obras em áreas como saúde, educação e infraestrutura. Costuma falar em “modernização”, dizendo que na prefeitura “nada mais se faz no papel, é tudo digital”.

Filho de um agricultor e de uma dona de casa, Allyson Bezerra afirma ter sido criado na zona rural de Mossoró, na comunidade Sítio Chafariz, a 30 quilômetros da cidade. A família vivia em condições precárias e dependia de trabalhos informais e da agricultura para subsistência.

A mudança para a área urbana ocorreu em meio a necessidade de tratamento de um irmão com deficiência. “Meu pai fazia esse trajeto de 30 quilômetros de bicicleta. Mesmo sem ter concluído o ensino fundamental, ele sempre dizia que, se eu quisesse ser alguém na vida, eu tinha que estudar.”

Na adolescência, Allyson passou a conciliar trabalho e estudo. Começou no comércio aos 16 anos, ingressou em curso técnico, prestou vestibular para engenharia e passou em concurso público. A formação, segundo ele, abriu caminho para a política.

Durante a gestão de Allyson, a Prefeitura de Mossoró foi alvo de uma operação da Polícia Federal.

A investigação da CGU (Controladoria-Geral da União) e da PF indicava que uma suposta fraude na área da saúde em municípios do Rio Grande do Norte envolvia distorções propositais na distribuição de medicamentos, como a falta de entrega em alguns postos de saúde e o excesso de remédios em outras unidades.

Em Mossoró, o volume pago pela prefeitura à empresa Dismed de 2021 a 2025 é de mais de R$ 13,5 milhões. A PF afirmou que o principal sócio da Dismed, Oseas Monthalggan, é próximo a Allyson Bezerra.

Ele afirma que não foi alvo direto da investigação e que a gestão adotou mecanismos de controle.

“Tudo que entra e sai na área de medicamentos é registrado em sistema auditável por órgãos de controle. Eu tratei isso desde o início com transparência. A minha imagem é de um homem sério, de um gestor que entregou, que faz, que executa. Usaram isso para tentar deturpar a minha imagem”, disse.

Folha de São Paulo

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