Protesto por Malvinas na Copa gera reação no Reino Unido e na Argentina

Uma das cenas mais emblemáticas da Copa do Mundo deste ano, a de jogadores argentinos exibindo uma faixa para reivindicar a soberania das Ilhas Malvinas após vencer a Inglaterra por 2 a 1 em Atlanta, reverberou na política de ambos os países nesta quinta-feira (16), um dia após o clássico.
Trata-se de um assunto delicado. O conflito de 1982 matou 649 argentinos e 255 britânicos, terminando em uma derrota humilhante para o país sul-americano, que não conseguiu recuperar o território no oceano Atlântico.
Desde então, menções sobre a retomada das ilhas pelos argentinos costumam abalar a sensível diplomacia entre as duas nações —e a desta quarta (15) ocorreu em um campo de futebol que recebia a semifinal da Copa do Mundo, uma das maiores vitrines que um protesto poderia ter.
A resposta não demorou a chegar.
“Pode ser que a Copa do Mundo não seja nossa, mas as Ilhas Falkland certamente são”, afirmou a jornalistas a porta-voz do primeiro-ministro Keir Starmer nesta quinta, usando o nome que os britânicos usam para se referir ao território. “Nossa posição não mudou. A autodeterminação pertence aos habitantes das ilhas.”
Ela faz referência ao referendo de 2013 no qual 92% da população de 1.650 pessoas das ilhas votou, dos quais 99,8% decidiu permanecer como um território ultramarino do Reino Unido.
Questionada sobre como a Fifa (Federação Internacional de Futebol) deveria agir diante da manifestação, já que a organização proíbe manifestações políticas no estádio, a porta-voz disse que concordava com o ministro de Ciência britânico, Peter Kyle. Mais cedo, o funcionário havia dito que esperava uma “investigação exaustiva” do ato.
Sobre a torcida do premiê para o jogo de domingo (19), quando a Argentina enfrenta a Espanha pela taça, a porta-voz afirmou: “O primeiro-ministro deseja boa sorte a ambas as equipes na final, especialmente à Espanha”.
Nile Gardiner, que atuou como assessor da primeira-ministra Margaret Thatcher, chefe de Estado britânica na época do conflito, chamou o ato de “comportamento de terceiro mundo”. “Todos os jogadores argentinos da Premier League inglesa que participaram dessa demonstração repugnante de ódio contra os britânicos deveriam ter seus vistos de trabalho para o Reino Unido revogados”, afirmou.
Já o líder dos Liberal Democratas, Ed Davey, afirmou que os jogadores argentinos que comemoraram com a bandeira “deveriam ser excluídos da final”.
A Ifab (Conselho da Associação Internacional de Futebol, na sigla em inglês), que organiza as regras do esporte, afirma que “o uniforme dos jogadores não deve conter slogans, declarações ou imagens de cunho político, religioso ou pessoal” e que “os jogadores não devem exibir roupas de baixo com lemas, declarações ou imagens de natureza política, religiosa ou pessoal, nem publicidade que não seja o logotipo do fabricante”.
No entanto, não há uma punição específica para isso. Ao comentar o assunto nesta quinta, o presidente argentino, Javier Milei, afirmou que, “na pior das hipóteses” a AFA (Associação de Futebol Argentino), receberia uma multa de US$ 30 mil. “A reação dos jogadores é compreensível; a emoção os domina e leva a discussões sobre uma sanção”, afirmou, de forma genérica, em uma entrevista à rádio El Observador.
Sobre a declaração de sua vice-presidente, Victoria Villarruel, com quem é rompido, Milei foi mais taxativo. Na terça (14), antes da partida, a política chamou os ingleses de “piratas usurpadores”.
“Não vou ser politicamente correta nem covarde, contra os ingleses sempre é algo a mais. São as Malvinas, é o Diego [Maradona], é a última do Leo [Lionel Messi] e é dar um basta nos invasores”, escreveu na rede social X, citando trecho de uma música que virou a trilha sonora do jogo nesta semana.
“Não podemos nos deixar levar por slogans nacionalistas baratos, populistas e ultrapassados”, afirmou Milei após a vitória, sem citar o nome da adversária. “Entendo que seja difícil, mas as Malvinas serão recuperadas com diplomacia sábia, não com gestos patrióticos baratos e de mau gosto que, se levados ao cenário internacional, seriam verdadeiramente patéticos e muito ruins.”
Apoiar a causa não é uma opção para Milei: a questão une praticamente todos os argentinos, mesmo em um cenário polarizado como o atual.
O presidente citou ainda o técnico da Argentina, Lionel Scaloni, que pediu, na véspera da partida, para que os torcedores não misturassem a rivalidade futebolística entre Argentina e Inglaterra com a guerra, e a federação de veteranos do conflito, que afirmou em uma carta que “o esporte não é guerra”, nem uma “reparação histórica”.
O líder argentino tem apresentado a sua aliança com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um trunfo para a questão. Em abril, a agência de notícias Reuters afirmou que Washington cogita revisar sua posição sobre o território como uma forma de punir os ingleses pelo que considera uma falta de apoio na guerra contra o Irã.
Na prática, porém, nada mudou. Atualmente, o site do Departamento de Estado afirma que as ilhas Malvinas são uma “questão bilateral que precisa ser resolvida diretamente entre os governos da Argentina e do Reino Unido”.
Esporte / Folha de São Paulo



