Política

Quem paga a conta do futuro?

“É preciso fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo.”

Eu nem sequer chegara à adolescência quando ouvi minha mãe, indignada, repetir ironicamente a frase e criticar o seu autor, o então todo-poderoso ministro Delfim Netto.

Aos meus ouvidos infantis a ideia fazia sentido, mas minha mãe sempre tinha uma forma didática de explicar-me suas afirmações. Primeiro me disse que o “bolo” era apenas uma imagem para representar toda a economia, tudo o que se produzia. Em seguida afirmou que era injusta, porque a experiência demonstrava que o crescimento do bolo não beneficiaria aqueles que deveriam renunciar à sua fatia imediatamente, justamente os mais necessitados.

A desastrada frase, em que pese seu caráter caricatural, continua representado de uma forma esquemática a diferença do pensamento econômico entre conservadores e progressistas. Enquanto os primeiros dão prioridade ao equilíbrio das contas públicas, considerando-o requisito indispensável para o crescimento sustentável, os segundos privilegiam a expansão do consumo por meio da ampliação dos gastos do Estado, como forma de aceleração do desenvolvimento econômico.

Em linha com essa ideia, encontrei recentemente em “Kolkhoze”, de Emmanuel Carrère, uma bela citação da escritora francesa Françoise Sagan: “A diferença entre a esquerda e a direita é que, enquanto a direita diz: ‘Há injustiça, e ela é inevitável’, a esquerda diz: ‘Há injustiça, e ela é insuportável’”. A distância entre os graus de tolerância à iniquidade social explicaria o imediatismo das propostas econômicas dos progressistas em oposição ao gradualismo dos conservadores.

Sempre imaginei que essa diferença de atitude diante da desigualdade também explicasse a distinta relação que conservadores e progressistas parecem manter com o tempo; os primeiros mais dispostos a aceitar sacrifícios presentes em nome de benefícios futuros, e os segundos mais preocupados com benefícios imediatos. Os acontecimentos das últimas semanas, tendo por pano de fundo as ondas de calor na Europa, fizeram-me rever essa interpretação.

Este foi o mês de junho mais quente já vivido pela Europa em qualquer época; a temperatura média foi de inacreditáveis 3,06ºC superior à média de 1991 a 2020. A França viveu em junho os seus três dias mais quentes de todos os tempos. Neste início de julho, a Europa enfrenta sua terceira onda de calor em seis semanas, com temperaturas voltando aos 40ºC na França e na Espanha.

Também na França e na Espanha, a seca generalizada transforma pequenos focos de fogo acidentais em grandes incêndios descontrolados. No início de julho, as áreas afetadas por incêndios já eram três vezes superiores à média histórica na Espanha e quatro vezes na França. Enquanto escrevo, os jornais noticiam 23 desaparecidos e 13 mortos em um incêndio ainda fora de controle na Andaluzia.

A World Weather Attribution (WWA), consórcio de cientistas especializado em estudos que atribuem eventos climáticos extremos a suas causas, foi categórica ao afirmar que essas ondas de calor seriam praticamente impossíveis sem a mudança climática provocada pela ação humana.

E como reagiram os políticos conservadores a fatos que confirmam de forma tão “candente” a realidade do aquecimento global, que desde sempre procuram minimizar e a cujos esforços de superação têm se oposto sistematicamente?

A resposta, a meu ver, é clara: por meio de uma estratégia de fuga para a frente; “a melhor defesa é o ataque”. Tomarei o exemplo da França, que, embora mais explícito, não difere fundamentalmente do que se verificou na Alemanha ou na Inglaterra.

Diante do fenômeno da “canícula”, partidos de direita radical que sistematicamente defenderam o corte de políticas de descarbonização procuraram auferir ganhos eleitorais acusando o governo de falhar em tornar o país mais resistente às ondas de calor. Marine Le Pen, candidata à Presidência pelo Rassemblement National (RN) —partido de direita radical—, prometeu implementar um amplo plano de instalação de ar-condicionado, começando pela população mais vulnerável.

Há razoável concordância quanto à necessidade de prover ar-condicionado em hospitais, escolas e asilos; a discórdia se situa na questão de adotar o equipamento como solução generalizada para combater a elevação da temperatura.

O que chamou a minha atenção na postura conservadora nesse conflito é que esta se limita a propor medidas de adaptação às consequências do aquecimento global, enquanto obstrui, ou quando muito silencia, as medidas de mitigação, aquelas que atuam sobre as causas do problema.

À primeira vista, os investimentos em mitigação lembram a lógica do “bolo do Delfim Netto”; exigem sacrifícios presentes para produzir benefícios futuros. A analogia, entretanto, é imperfeita. O ponto decisivo, como veremos, não é o tempo, mas quem suporta esses sacrifícios.

Aqui eu retorno à questão para a qual eu tive minha curiosidade despertada: por que, na questão do aquecimento global, os papéis parecem se inverter, com os conservadores privilegiando medidas de adaptação, cujos efeitos são imediatos, em detrimento de políticas de mitigação que garantam a estabilidade a longo prazo, enquanto a esquerda, mais contida nas medidas imediatistas, concentra seus esforços nas medidas de descarbonização, que visam à solução definitiva do problema a longo prazo?

Minha hipótese é que a resposta não diz respeito ao horizonte temporal das medidas —imediatistas ou de longo prazo—, mas sim a quem arca com os ônus de sua implementação. Na economia, o ônus da contenção fiscal afeta mais diretamente os mais pobres, daí a resistência da esquerda.

Já no clima, o ônus da descarbonização é concentrado em poucos setores —especialmente o de combustíveis fósseis— com alto poder de influência na economia, o que lhes garante a proteção da direita. A esquerda, por sua vez, tende a apoiar a medida, por seus benefícios difusos, que favorecem toda a sociedade, inclusive as gerações futuras.

Se essa hipótese estiver correta, a inversão de papéis é apenas aparente; esquerda e direita se mantêm coerentes na defesa de interesses distintos. O verdadeiro desafio das democracias contemporâneas talvez não seja a escolha entre o presente e o futuro, mas sim decidir quem pagará a conta do futuro.

Folha de São Paulo

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