Campanha eleitoral começa em meio ao silêncio de Lula e Flávio sobre crise fiscal

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Ao lançar sua candidatura à reeleição na convenção do PT, no domingo 2, Lula reclamou da falta de mulheres no evento, relembrou cenas de sua infância em Garanhuns, prometeu fortalecer a indústria militar, anunciou o ex-ministro Fernando Haddad como seu sucessor político, disse que criará um programa especial para os idosos, criticou as emendas parlamentares, falou em resolver os problemas da educação, garantiu que as terras-raras continuarão sob controle dos brasileiros e comparou a tentativa de se eleger para um quarto mandato ao número de Copas do Mundo disputadas por Pelé. Em um discurso que durou mais de uma hora, o presidente não dedicou um único segundo àquele que talvez seja o problema mais desafiador que o futuro ocupante do Palácio do Planalto terá de enfrentar: o desarranjo das contas públicas. Uma semana antes, na convenção do PL, Flávio Bolsonaro ensaiou propor um “tesouraço” nas despesas do governo, mas depois recolheu os flaps ao perceber que a declaração deu munição para a esquerda difundir nas redes que ele cortaria programas sociais.
Da moratória da dívida externa decretada em 1987 pelo então presidente José Sarney até hoje, o rombo nas contas públicas é uma chaga que marca governos dos mais variados matizes ideológicos, mas o terceiro mandato de Lula entrará para a história como aquele em que a dívida alcançou seu patamar mais alto em tempos de normalidade. Desde que voltou ao Palácio do Planalto, em 2023, ela saltou de 72% para 82% do PIB, nível inferior apenas aos 88% vistos no momento mais crítico da gestão de Jair Bolsonaro, quando o ex-presidente lidava com os impactos da pandemia da covid-19. Segundo o Fundo Monetário Internacional, a dívida brasileira está proporcionalmente entre as quinze maiores do mundo, quando comparada com países de renda semelhante — e a perspectiva é de piora. O próprio Tesouro Nacional prevê que ela pode atingir 87% do PIB em 2029. “Quem for eleito precisará fazer uma grande reforma fiscal”, diz Márcio Holland, professor da Fundação Getulio Vargas.
Os candidatos — todos eles — sabem disso. A questão é que falar em corte de gastos, revisão de programas e ajustes não rende votos. O atual governo, por exemplo, nunca se preocupou em equilibrar as contas. Pelo contrário. Inventado por Fernando Haddad, então ministro da Fazenda e hoje candidato a governador de São Paulo, para substituir o teto de gastos implantado por Michel Temer no fim de 2016, o chamado arcabouço fiscal é visto pelo mercado como parte do problema ao permitir que as despesas cresçam acima da inflação. Isso, aliado às medidas populistas de Lula mirando a reeleição, contribuiu para que as despesas federais aumentassem 22% neste terceiro mandato, chegando a 2,6 trilhões de reais nos últimos doze meses.
O impacto do descontrole já reflete em vários setores. O Índice de Confiança do Empresário Industrial, medido pela Confederação Nacional da Indústria, a CNI, por exemplo, atingiu o menor nível desde junho de 2020, quando o mundo enfrentava a pandemia do coronavírus. O pessimismo também alcançou o eleitorado. Na última pesquisa divulgada pela Genial/Quaest, 43% dos entrevistados afirmaram que a economia do Brasil piorou nos últimos doze meses. Só 20% disseram que melhorou, e para 33% está tudo igual.

Sem debate público, os candidatos têm designado a auxiliares a missão de tranquilizar o mercado e mostrar que eles estão atentos ao problema. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, por exemplo, tem garantido que Lula, em um eventual quarto mandato, reduzirá o crescimento das despesas. O gesto, porém, não convenceu, especialmente depois do desassossego provocado pelas declarações de José Sergio Gabrielli, coordenador do programa de governo do PT, que defendeu propostas heterodoxas, como controle de capitais, para incentivar o crescimento econômico. “É difícil acreditar que Lula assumirá um compromisso sério com o ajuste fiscal em um novo governo”, afirma Ângelo Passos, sócio da assessoria de investimento Faz Capital. O ceticismo se justifica quando se sabe que o próprio partido do presidente é um obstáculo. O PT já aprovou, por exemplo, uma resolução contra o que classifica como “austericídio fiscal”, termo cunhado para criticar políticas de austeridade que resultem em corte de gastos em áreas como saúde e assistência social.
Pelo lado da oposição, Flávio Bolsonaro já falou em um corte de 200 bilhões de reais nas despesas. “Um governo que chega a esse patamar de dívida é um governo gastador, irresponsável, e todo mundo está sentindo a consequência disso no mercado: uma comida cara, porque a inflação chegou com força e não tem mais mecanismos para você lançar mão, a não ser corte de gastos”, afirmou em entrevista ao programa Canal Livre, da BandNews. Na sequência, revelou que tem discutido com sua equipe a criação de um gatilho automático que seria acionado quando a relação dívida/PIB alcançasse “um determinado patamar” — sem, no entanto, esclarecer que patamar seria esse.

Entre as medidas aventadas como parte de um choque de gestão, a administradora Daniella Marques, porta-voz da campanha para temas econômicos, afirmou a VEJA que, se eleito, o senador pretende criar um fundo imobiliário para explorar cerca de 700 000 imóveis pertencentes ao governo, securitizar valores que a União tem a receber de contribuintes e, ainda no período de transição, apresentar uma emenda à Constituição criando o mecanismo de controle da trajetória da dívida. As propostas estão sendo finalizadas pelo senador Rogério Marinho, coordenador do programa de governo do PL. “O programa econômico de Flávio, por enquanto, é muito superficial”, afirma Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central e colunista de VEJA.
Com os partidos do Centrão declarando-se neutros na disputa eleitoral, Flávio, assim como Lula, também foi incapaz até o momento de convencer o mercado de que terá força política para aprovar no Congresso as medidas de austeridade que promete. “Ele não conseguiu até agora atrair nenhum nome relevante para a campanha”, destaca Rodolfo Amstalden, fundador da casa de análises Empiricus. Se os dois principais postulantes ao Planalto enfrentam o ceticismo da Faria Lima, os nomes que se apresentam como uma possível terceira via também não empolgam. É o caso do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), que surge em um distante terceiro lugar nas pesquisas, com cerca de 4% das intenções de voto. As chances mínimas de vitória também levaram o mercado, até agora, a prestar pouca atenção em nomes como o do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e de Renan Santos (Missão). “Os grandes temas econômicos não estão sendo debatidos”, atesta Walter Maciel, presidente da gestora AZ Quest.

Outro aspecto grave do momento é o efeito bola de neve, alimentado pelo conjunto de problemas e desarranjos econômicos. A inflação fora da meta força o Banco Central a manter a Selic em patamar alto, em 14% (mesmo com o corte de 0,25 anunciado na quarta 5, ela segue entre as maiores do mundo). Juros altos encarecem o custo de refinanciamento da dívida pública, o que eleva o endividamento total do país. Além de não cortar despesas, o governo alimenta esse ciclo perverso, indo na direção oposta ao BC, com incentivos ao consumo.
Por qualquer ângulo que se analise essa conjuntura, a situação é bastante grave. Se a trajetória de ascensão da dívida pública não for interrompida, a primeira consequência será sentida no câmbio, já que grandes investidores estrangeiros devem levar os recursos hoje aplicados no Brasil para mercados mais seguros. Com isso, o dólar tende a subir, pressionando o preço dos produtos importados. Sem contar com o governo para ajudar a combater a inflação, restará ao Banco Central manter os juros em patamares altos. Esse movimento ganhará um impulso extra, à medida que os investidores dispostos a financiar a dívida pública cobrarem juros ainda maiores, em troca do risco de emprestar dinheiro para um país irresponsável com suas contas. Segundo Alexandre Schwartsman, o desfecho dessa história é retratado pelos economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart no livro This Time Is Different (Desta vez é diferente, em português), publicado em 2009 e que avalia a crise financeira que estourou um ano antes nos Estados Unidos. “Cedo ou tarde, um calote aparece”, diz o ex-diretor do BC. Caso isso aconteça, o Brasil de 2027 lembrará bastante o de José Sarney em 1987 — um cenário de caos. Está mais do que na hora, portanto, de exigir dos candidatos propostas mais aprofundadas de como evitar o pior.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007
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