Política

Preso e condenado, Jair Bolsonaro é solução e problema para a campanha do filho

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Centralizador, Jair Bolsonaro anunciou ainda em 2025 que a formação dos principais palanques para a campanha dos candidatos de direita nas eleições deste ano passaria pelo crivo dele. Condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente deu instruções sobre a formação das alianças estaduais, escolheu a dedo candidatos do PL ao Senado e, à revelia de conselheiros e para surpresa geral de ninguém, ungiu o primogênito como nome a defender seu espólio como candidato ao Palácio do Planalto. Até poucas semanas atrás, não havia decisão estratégica na campanha presidencial do filho que não passasse por consultas prévias ao antigo mandatário, mesmo preso em regime domiciliar e proibido de ter contato com quem quer que seja do mundo político, a não ser com sua esposa, Michelle, agora candidata ao Senado pelo Distrito Federal. Nas últimas semanas, Flávio Bolsonaro promoveu até algumas correções de rota para aproximar ainda mais sua imagem e seu discurso aos do capitão. A sombra do pai sempre foi — e ainda é — o principal ativo do senador.

PROCESSO - Moraes: pedido para que o caso seja investigado como crime (Rosinei Coutinho/STF)

Parece um paradoxo, mas Jair Bolsonaro também tem sido uma fonte de problemas para a campanha do filho. Impedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de usar as redes sociais e de transmitir mensagens políticas por meio de terceiros, o ex-presidente escreveu em julho uma “Carta aos Brasileiros” na qual pedia aos aliados que deixassem de lado as diferenças e reforçava que o filho era a melhor opção para disputar a Presidência da República. Depois, na convenção nacional do partido, uma versão do ex-presidente criada por inteligência artificial fez um discurso político saudando a candidatura do filho. Em ambos os casos, o PT recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Resultado: o candidato do PL começará a corrida ao Planalto investigado por crime eleitoral. A Justiça proíbe na propaganda dos candidatos a utilização de imagens e conteúdos que tenham o objetivo de ludibriar os eleitores ou promover campanha negativa. A versão digital do ex-presidente, em tese, não ludibriou ninguém, já que, desde o início, foi informado tratar-se de uma montagem produzida por inteligência artificial (IA).

O caso acelerou o debate sobre o uso da IA nas campanhas políticas. O PT teme que o ex-­presidente assuma à distância o papel de principal cabo eleitoral do filho. O partido mantém uma equipe jurídica de prontidão para ingressar, se necessário, com representações na Justiça para impedir a campanha adversária de veicular novas mensagens do capitão em sua versão digital. Sabe-se que uma expressiva parcela do eleitorado de direita vota em qualquer candidato indicado pelo ex-presidente, e sua “aparição” pode influir decisivamente nas disputas locais. A campanha do PL, por sua vez, não esperava que a peça publicitária tivesse repercussão tão grande. Os marqueteiros do senador afirmam que queriam apenas deixar claro que Flávio é o herdeiro da direita e o escolhido pelo pai para manter vivo seu projeto político.

PEDINDO VOTO - Vídeo: a presença de Bolsonaro nos palanques é considerada decisiva em alguns estados
PEDINDO VOTO - Vídeo: a presença de Bolsonaro nos palanques é considerada decisiva em alguns estados (PL-SC/.)
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A equipe jurídica do PL deu seu aval à ideia por entender que as regras valiam apenas para o período em que a campanha fosse oficialmente iniciada, no próximo dia 16. Para evitar problemas futuros, o Bolsonaro virtual ficará arquivado até que fique claro o que é e o que não é permitido nesse território. Discursos que exploraram menções ao ex-presidente motivaram o ministro do STF Alexandre de Moraes a encaminhar ao Ministério Público pedido para que os casos fossem investigados como possível campanha eleitoral antecipada. Responsável por acompanhar o cumprimento de pena do antigo mandatário pela condenação na trama golpista, o magistrado ainda cobrou que o político explicasse se havia ou não autorizado o uso de sua imagem em IA. Em caso de uma resposta positiva, o capitão reformado poderia perder o direito à prisão domiciliar e voltar para a cadeia.

ESTREIA - Michelle: candidata ao Senado pelo Distrito Federal
ESTREIA - Michelle: candidata ao Senado pelo Distrito Federal (@michellebolsonaro/Instagram)

O TSE pretende realizar uma reunião a portas fechadas, na quarta-feira 12, para decidir eventuais punições à campanha de Flávio pelo uso de IA. Uma resolução do tribunal proíbe qualquer tipo de mensagem de deep­fake, mesmo as autorizadas pela pessoa cuja voz ou imagem foi fabricada artificialmente, mas a vedação só é válida para a propaganda eleitoral, que ainda não começou. Os ministros devem debater também se serão permitidos avatares, hologramas e discursos feitos em IA nas campanhas de 2026 e levar o tema à votação no dia 17. O diagnóstico é de todo desafiador. O Observatório IA nas Eleições, mantido pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, identificou 357 conteúdos políticos sintéticos publicados entre 1º de janeiro e 15 de julho de 2026. Prevalecem publicações com ataques (67%), em comparação a endossos a candidatos (32%). Entre os políticos, Flávio Bolsonaro e o deputado Mario Frias despontam como os principais adeptos da ferramenta, segundo o levantamento feito a pedido de VEJA. A maior parte das mensagens, no entanto, foi produzida por usuários anônimos. “O potencial desinformativo é muito maior”, alerta o pesquisador Matheus Soares, um dos coordenadores do Observatório IA nas Eleições.

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Responsabilizar uma campanha por postagens publicadas por terceiros ou perfis apócrifos será outro desafio da eleição. Para se chegar aos responsáveis, é necessário iniciar uma investigação judicial e demonstrar que houve coordenação, financiamento ou algum outro vínculo entre os autores e a candidatura beneficiada. Quem for acusado de fabricar deepfakes indevidamente, terá de provar o contrário — uma inversão do ônus da prova promovida pela Justiça Eleitoral por considerar que quem publica o material tem melhores condições de apresentar o arquivo original. Na prática, tais inquéritos têm se revelado pouco eficazes. Por isso, diante de dúvida relevante sobre a autenticidade de um conteúdo potencialmente danoso, a tendência, segundo advogados especializados ouvidos por VEJA, deve ser a simples remoção das publicações. Posicionados entre o avatar e o eleitor, os togados terão de definir o limite entre a criatividade e a fraude.

ISOLAMENTO - Alfredo Gaspar: candidato a vice anunciado na última hora
ISOLAMENTO – Alfredo Gaspar: candidato a vice anunciado na última hora (Andre Borges/EFE)

Em meio à polêmica do uso da IA, com o empuxo do pai, mas ainda sim rejeitado por 54% dos eleitores, segundo levantamento da pesquisa Genial/Quaest, Flávio chega ao início da corrida presidencial com vinte palanques estaduais montados, depois de trombadas na formação de parcerias políticas como a do Ceará, que provocou uma briga pública entre ele e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Chega também sem alianças formais com partidos do Centrão e sem ter conseguido viabilizar uma mulher como candidata a vice, solução que buscava para conquistar a simpatia do eleitorado feminino. A solenidade que oficializou, na quarta-feira 5, o nome do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-­AL) como candidato a vice revela algumas dificuldades da campanha bolsonarista. Apesar do simbolismo que marca cerimônias dessa natureza, nenhum dos irmãos Bolsonaro, nenhum cacique estadual do partido e nenhum dos mais importantes apoiadores do candidato do PL, como o governador Tarcísio de Freitas, foi a Brasília para o anúncio.

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PALAVRA FINAL - Nunes Marques: TSE vai definir limites para o uso de IA
PALAVRA FINAL - Nunes Marques: TSE vai definir limites para o uso de IA (Antonio Augusto/TSE)

A despeito das polêmicas e do isolamento político, Flávio é o candidato da direita mais bem posicionado nas pesquisas. Segundo levantamento da Quaest divulgado na quarta-feira 5, o senador diminuiu de 8 para 5 pontos percentuais a vantagem do presidente Lula em um confronto direto e voltou a centralizar a preferência do eleitor antipetista. Em um eventual segundo turno, o senador teria 81% das intenções de voto da direita não bolsonarista e 95% dos votos daqueles que se declaram bolsonaristas. Manter esses índices inabaláveis é fundamental para as pretensões do senador. Assim como ocorreu no anúncio do nome de Gaspar para vice, em que mais uma vez Jair Bolsonaro foi descrito como um preso “em cativeiro”, não há fala política em que Flávio não mencione o pai ex-presidente. Na convenção que o oficializou como principal nome da direita na corrida pelo Palácio do Planalto, por exemplo, ele se referia a si mesmo como “o filho mais velho do capitão” e disse saber “o tamanho da responsabilidade que o meu nome carrega”. Faltando dois meses para o primeiro turno das eleições, Flávio trocou a equipe de comunicação, isolou alguns coordenadores, promoveu outros e passou a emular em atos públicos uma versão dele mais parecida com o ex-presidente. Atacou as urnas eletrônicas, incorporou críticas ao Supremo como matéria-prima de seus discursos e passou a fazer lives periódicas — virou um avatar do próprio pai.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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