Economia

Apoio para alta de juros dos EUA foi maior que os três votos dissidentes

A decisão de manter os juros nos EUA, tomada pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) no fim de julho, teve um amplo debate sobre os rumos da inflação, com apoio para alta de juros já naquele encontro se mostrando maior do que os três votos dissidentes apontavam. O contexto da decisão está na ata da reunião, que foi divulgada nesta quarta-feira (19).

Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, isso ocorre porque diversos participantes não votam em toda reunião, já que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA,  alterna esse direito entre os presidentes dos bancos regionais a cada ano. “Por isso, é possível que mais dirigentes defendam uma posição no debate do que os que efetivamente a registram no voto final”, explica Kayo. 

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“O ponto central é justamente que os membros que defenderam a alta de juros não estavam apenas isolados em uma posição”, afirma Nicolas Gass, chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital. Ele aponta que a ata mostra, inclusive, que alguns deles argumentaram que subir agora ajudaria justamente a evitar altas maiores mais adiante. 

“Quando você tem múltiplos participantes dizendo que ‘aperto adicional provavelmente será necessário’ e dois presidentes regionais sem voto sinalizando publicamente que também teriam apoiado a alta, fica claro que o Comitê estava a um dado ruim de distância de perder a maioria pela manutenção”, avalia Camilo Cavalcanti , Gestor da Oby Capital.

Inflação

Leonardo Costa, economista do ASA, destaca que a ata do Fomc mostra um comitê preocupado com a inflação, “com viés claramente vigilante”, mas sem consenso para alta.

Na avaliação dele, a autoridade monetária está em modo de espera, mas com uma ala hawkish defendendo a alta de juros caso os dados mostrem um cenário de deterioração.

Apesar do maior apoio para a alta de juros do que os três dissidentes apontavam, Costa pontua que a avaliação predominante foi de que a inflação deve desacelerar no restante do ano, na medida em que os efeitos das tarifas e do choque de energia se dissipem. 

Ele também pontuou que muitos participantes defenderam que a pressão inflacionária está disseminada em diversas categorias, especialmente em serviços subjacentes e em setores ligados à Inteligência Artificial (IA). “A ata deixa claro que os riscos para a inflação continuam assimétricos para cima, agravados pela escalada do conflito no Oriente Médio e pela sucessão de choques de oferta dos últimos anos”, afirma.

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Gass destaca que, quando a alta é generalizada, o diagnóstico muda para a pressão de demanda e o argumento a favor de uma alta de juro fica mais forte.

No entanto, os dados que vieram depois da reunião do Fomc, mostrando um mercado de trabalho mais fraco em julho e o núcleo da inflação mais comportado, alteraram a projeção de probabilidade de alta de juros em setembro, afirma Cavalcanti, da Oby. Ainda assim, a expectativa é de que haja ao menos uma alta de juros neste ano, já que a inflação não deve arrefecer no ritmo que o Fomc gostaria.

Cláudia Moreno, economista do C6, aponta que mesmo com os dados mais fracos, ainda há um mercado de trabalho sólido nos EUA que deve manter a taxa de emprego estável e a inflação seguirá pressionada devido aos preços de energia o que, dado o contexto, pode levar a uma alta de juros nos EUA. Segundo Moreno, o C6 mantém a projeção de duas altas de juros neste ano, de 0,25 pontos percentuais cada.

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O banco Daycoval, no entanto, manteve a expectativa de manutenção de juros nos EUA no intervalo atual de 3,50% a 3,75% até o fim de 2026 e retirou a projeção de dois cortes em 2027.

Menos reuniões, mais dados

Outro ponto destacado pelos economistas foi a defesa do presidente do Fed, Kevin Warsh, de reduzir o número de reuniões de oito ao ano para seis, fazendo com que o comitê reunisse mais dados econômicos a cada encontro. Gass afirma que nenhuma decisão foi tomada neste sentido, mas mostra a postura de Warsh de conduzir a política monetária com base em dados acumulados e não em relação à expectativa do mercado.

Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, avalia que a mudança no número de reuniões poderia trazer mais impacto na decisão sobre juros, já que muitos encontros acabam sendo pela manutenção de juros, a espera de mais dados.

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Impacto no Brasil

A decisão de juros nos EUA é acompanhada de perto no Brasil porque a política monetária de lá influencia na daqui. Leonardo Mendes, economista da Manchester Investimentos, aponta que a ata é “marginalmente negativa” para os juros longos do Brasil, porque aumenta a pressão para os títulos públicos brasileiros, dada a saúde fiscal do país. Isso significa que os juros que o Tesouro Nacional teria que pagar mais juros para atrair os estrangeiros e compensar o risco. Mas, se o Fed ficar parado ou subir mais 0,25 ponto percentual, a diferença de juros atrairia os investimentos ao Brasil.

Infomoney

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