Política

‘Temos dificuldade de entender que o absurdo ajuda a vender’ uma figura como Augusto Cury, diz estrategista

A disputa eleitoral esta semana está sendo marcada pelo crescimento expressivo de um candidato que, até semana passada, arrematava apenas cerca de 2% das intenções de voto: o escritor e psiquiatra Augusto Cury (Avante).

Segundo pesquisa BTG/Nexus, o candidato aparece com 11%, assumindo isoladamente a terceira posição do ranking presidencial, deixando para trás políticos conhecidos como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Após a participação no debate da Band, marcado pela ausência dos dois principais candidatos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), Cury ganhou mais de 2,4 milhões de seguidores, considerado um crescimento impressionante em um curto espaço de tempo.

A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observa que há uma “demanda reprimida do que seria uma terceira via”, apesar da pouca possibilidade de o cenário atual se alterar drasticamente. “É mais em um sentido do que seria uma expectativa da grande mídia ou de formadores de opinião, e também das pessoas que têm certa vergonha de votar em Lula ou Flávio. Mas não acredito ser possível a viabilidade de uma terceira via. Não para essa eleição”, avalia em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Goulart reforça o quadro de forte polarização que, a um mês da eleição, impede qualquer alteração drástica da posição dos dois favoritos à disputa, indicando inclusive a necessidade de um segundo turno, mas lembra que uma eleição não serve apenas para escolher mandatários. Nesse sentido, performances de candidatos como Cury não podem ser desprezadas porque indicam um espaço a ser ocupado futuramente. “[A eleição] serve também para a sociedade discutir temas, para ser apresentada para novas abordagens, novos discursos. Parece ser esse o papel desses terceiros lugares. Há uma demanda da população por uma alternativa”, destaca.

A professora e cientista política também reforça a importância da pesquisa como ferramenta para analisar quadros e momentos da campanha, e que ela indica tendências, não resultados. “As pesquisas trazem diferentes abordagens, diferentes metodologias. Tudo isso aperfeiçoa a ciência e nosso conhecimento sobre política”, indica.

Mayra Goulart também avalia que, diante da extrema polarização política, tem sido uma tarefa complexa “mensurar a opinião”. “Boa parte das posições da cidadania sobre temas passou a ser galvanizada, organizada pelos eixos de identificação como um dos polos. Por exemplo, quando você pergunta para uma pessoa: ‘Você gosta do Bolsa Família?’, ela vai automaticamente responder o que ela acha que é a opinião dominante no seu polo”, exemplifica. “Há um desafio de capturar preferências em um mundo muito polarizado e com dissonância cognitiva, em que as pessoas se informam de maneira tão nichada”, afirma.

Ao É de Manhã, da Rádio BdF, o professor Paulo Loiola, estrategista político e fundador da Baselab, apresenta uma análise semelhante à visão de Goulart: a busca por uma opção. Além disso, Loiola destaca a captura que a campanha fez de uma rede já engajada de produtores de conteúdo e influenciadores digitais.

“Não foi programa de TV, tráfego pago na Meta, disparo em massa pelo WhatsApp. Foi uma ação coordenada de produtores de conteúdo em torno de Augusto Cury”, resume, destacando que é “difícil saber exatamente de onde vem”.

O estrategista lembra que Cury já tinha um capital intelectual médio, pela sua atuação com saúde mental e como escritor, o que dava a ele os 2%. Contudo, se não houvesse uma estratégia muito bem pensada de marketing político, do uso das redes, de capilaridade a partir de pequenos influenciadores, pequenas páginas de memes, o candidato provavelmente não teria decolado. “Essas redes que já estavam montadas e favoreceram Augusto Cury já tinham uma tendência mais à direita”, aponta.

Paulo Loiola também avalia que existia uma mensagem muito explícita do mercado político. “Há uma demanda dentro das pessoas, do sentimento social brasileiro. Gente que não quer nem Lula, nem Flávio Bolsonaro”, reforça.

Loiola relaciona a estratégia de Cury à de Pablo Marçal e, apesar de também apontar ser improvável a mudança radical de cenário, acredita que a candidatura pode se sustentar até o fim das eleições.

“Mais uma vez eu vou para o caso de 2024: [Marçal] se sustentou até o fim, mesmo com o prédio de um quilômetro, mesmo com vários absurdos, a cadeirada, a história com o Boulos. Essa é a nossa grande dificuldade: entender que o absurdo ajuda a vender a figura”, destaca.

Para ouvir e assistir

Durante o horário eleitoral, até 1º de outubro, o É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 7h25 às 8h25 da manhã, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Pelo mesmo motivo, o Conexão BdF Primeira Edição também tem alteração de horário: das 12h25 às 14h, de segunda a sexta-feira. A segunda edição continua às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.




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