Eleitora que atua em rodeios critica polarização e vota em Caiado

O movimento no Parque do Peão de Barretos estava grande na tarde do sábado (22), data em que os ingressos para os shows e montarias no estádio de rodeios já estavam esgotados havia quatro meses.
Esse cenário interiorano típico nos meses de agosto faz parte da vida da paulistana Hanelora Amaral, 53, desde a década de 1990, quando resolveu visitar a cidade a convite de amigas.
Formada em direito, nasceu na Vila Madalena (na zona oeste da capital paulista) e atua no setor de logística em São Paulo. Mas tem Barretos em sua vida desde quando conheceu a Festa do Patrão, realizada durante a tradicional Festa do Peão.
Desde então, ela soma 30 edições do maior evento do gênero no país, que tem seu marido, Marcos Abud, como diretor de rodeios e ex-presidente de Os Independentes, associação que organiza a festa desde 1956. Além disso, amigas do período de faculdade moram na cidade do interior.
Quando se aproximou do evento sertanejo, gostou e depois passou a trabalhar diretamente nos bastidores da Festa do Peão, onde exerceu inúmeras atividades. Curiosamente, conheceu o marido em outro rodeio no interior paulista e, após dois anos, começaram a namorar e se casaram.
Na festa, além do rodeio, já trabalhou nos shows internacionais e nos camarotes. Ajudou Abud a montar a LNR (Liga Nacional de Rodeio), cuja final anual é em Barretos e classifica peões brasileiros para o The American, milionário rodeio nos Estados Unidos —é nessa conexão internacional que está seu foco de atuação na liga.
O território é dominado por políticos da direita —a festa se declara apartidária. Barretos recebeu nos últimos anos os presidenciáveis Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além do governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas ela se considera uma pessoa de centro. “Não centrão”, reforça.
“Nunca fui para nenhum lado mais radical, nem direita nem esquerda. Em alguns momentos, fui mais levemente, vamos dizer, à esquerda, mas sempre centro, sempre buscando um equilíbrio”, disse ela, que conversou com a Folha em dois ranchos ao lado do estádio projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012).
Neste ano, afirma que votará no ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, por considerar que o candidato tem propostas e por gostar de sua visão sobre economia. Diminuir a interferência estatal e controlar os gastos públicos são vistos por ela como essenciais para o desenvolvimento do país.
“Não interessa se Caiado está com 1%, 2%, se ele tem chance, não tem chance”, afirmou. “A economia me preocupa. Outra coisa que destaco nele é a capacidade que tem de conversar com as pessoas, seja de que lado for. Está um passo à frente dos demais em ouvir. “
Sua posição na eleição deste ano passa longe da polarização e, apesar da beligerância eleitoral no país, ela afirma que não briga com amigos que estão em espectros políticos radicais, dos dois lados.
“Não vou perder amigo por causa de política. Nunca vou fazer isso na minha vida, seja de direita, seja de esquerda. Consigo ouvir, posso não concordar, entendeu? Em algumas coisas, sou mais conservadora; em outras, mais moderna. Por exemplo, acho que a mulher tem que ter uma independência financeira. Não sei se isso é moderno ou não, mas eu acho.”
Além da posição definida para a disputa presidencial, Hanelora diz que seu foco nas eleições é votar em mulheres. “Sempre gostei muito de votar em mulheres, então para deputado federal e estadual, eu procuro candidatas.”
É crítica ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principalmente em relação às contas públicas. Defende a existência dos programas sociais, mas aponta falhas ao avaliar que foram transformados em ajuda financeira sem contrapartida.
“Na parte econômica, acho que inchou o Estado novamente. Tudo bem, foi feita uma reforma tributária, mas a gente não sabe a consequência dela. Acho que alguns setores da economia foram prejudicados. O país está endividado.”
Ela defende a independência completa do Banco Central —por isso, afirma ver com maus olhos críticas ou tentativas de interferência no órgão— e é crítica do atual patamar da Selic, que atribui ao descontrole de gastos.
Para os próximos quatro anos, ela disse acreditar que, se Caiado for eleito, o país voltará a viver num “rumo de esperança” por ter um projeto. “Se continuar a atual situação, é mais do mesmo e aí não vejo o Brasil evoluindo. Vai evoluir na medida de cada um por si.”
Se Caiado não chegar ao segundo turno, Hanelore não tem ideia em quem votará.
Saudades do diálogo
Hanelora afirmou ter saudades do Brasil dos anos 1990, época em que o país estava se abrindo para o mundo e não havia polarização de tudo, como o coentro, a camisa da seleção brasileira e a vacina.
“Eu era bem jovem e o país estava se abrindo, você via muita oportunidade. Hoje eu vejo um país em conflito, as pessoas mais interessadas em defender a própria posição, independentemente se estão com razão ou não.”
Católica, afirma ver a fé crescer com o passar dos anos. “Graças a Deus eu tenho amigas com as quais posso falar coisas que elas não concordam, elas vão ouvir, e eu, a mesma coisa. Eu queria que os brasileiros voltassem a se escutar.”
Folha de São Paulo



