Augusto Cury cresce nas pesquisas e balança tabuleiro eleitoral, mas avanço levanta suspeitas

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Candidato do Avante à Presidência da República, o escritor Augusto Cury conseguiu um feito que alguns de seus adversários vinham tentando há meses: superar a barreira dos dois dígitos nas pesquisas. O salto extraordinário, que segundo a BTG/Nexus foi de 2% para 11% das intenções de voto em uma semana, o alçou à terceira posição na corrida, atrás apenas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), os líderes das correntes políticas que dominam o país desde 2018. Estreante em eleições, o autor de best-sellers descolou-se de nomes que estão na estrada há tempos, como Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo). O arranque agitou o tabuleiro eleitoral, provocou bastante perplexidade e despertou, não sem razão, variadas suspeitas.
Sem nunca ter concorrido a um cargo eletivo, Cury despontou por uma combinação de exposição na mídia tradicional e, principalmente, nas redes sociais. Apesar de neófito na política, Cury não era exatamente um desconhecido. Médico psiquiatra, tem dezenas de livros publicados: entre ficção e não ficção, todos os títulos têm um quê de desenvolvimento pessoal — embora rejeite o rótulo de escritor de autoajuda. Um dos mais famosos, O Vendedor de Sonhos, ficou semanas nas listas de mais vendidos do país e ganhou adaptações para o cinema e o teatro. Essa popularidade, no entanto, ainda não havia se transformado em intenção de voto: apesar de ter anunciado a pretensão de concorrer em março, Cury fez poucas aparições públicas como candidato e ainda não tinha conseguido se apresentar ao eleitor: 74% disseram não saber quem ele era em pesquisa Quaest de agosto.
Esse cenário começou a mudar com o início oficial da campanha. Um dos quatro presidenciáveis que têm direito ao horário eleitoral — os outros são Lula, Flávio e Caiado —, ele também precisa ser convidado para debates, como manda a lei. No primeiro e único encontro até agora, na Band, no dia 23 de agosto, só estavam ele, Caiado e Renan. Também tem sido chamado para sabatinas, movimentação que deve crescer com seu salto nas pesquisas. A principal mudança, no entanto, aconteceu no meio digital.
É nesse ponto que se acumulam as principais suspeitas. Desde o dia 23, Cury teve um crescimento expressivo no Instagram: em uma semana, ganhou mais de 2,4 milhões de seguidores — segundo a Ativaweb DataLab, metade desse aumento se deu entre os dias 26 e 27, quando 1,2 milhão de pessoas passaram a acompanhar o perfil do escritor. É mais do que Neymar ganhou nas 24 horas seguintes à sua convocação para a Copa do Mundo (cerca de 1 milhão, segundo a Nexus) e Donald Trump nos seis dias após sofrer uma tentativa de assassinato durante a campanha de 2024 (1,1 milhão, de acordo com a mídia americana). Também chama a atenção que esse aumento não tenha sido proporcional em outros canais do candidato, como o TikTok e o Facebook, o que levanta a suspeita de que o crescimento não tenha sido espontâneo, mas fruto da compra de seguidores.
Há ainda outras evidências que levantam suspeitas de um esquema de engajamento artificial. Perfis que normalmente publicam sobre celebridades e temas cotidianos fizeram posts quase idênticos sobre o candidato, dizendo que ele havia ganhado força entre eleitores que não querem Lula nem Flávio e que havia se tornado o candidato mais buscado no Google. Quatro dessas páginas — Alfinetada, Alfinetei, Babadeira e Diferentona, que juntas têm 43,7 milhões de seguidores — também estão na mira de um inquérito no STF sob a suspeita de terem sido contratadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro para promover ataques ao Banco Central em razão da liquidação do Master — segundo a Polícia Federal, cerca de quarenta páginas teriam participado de uma ação coordenada. Ao todo, esses quatro perfis fizeram vinte publicações com textos e até imagens muito semelhantes, citando Cury entre os dias 25 e 30 de agosto, somando milhões de interações.

O risco para o candidato é alto, porque a lei brasileira prevê punições para a manipulação digital com finalidade eleitoral. Caso ela seja comprovada, a chapa de Cury poderá sofrer sanções que o tornariam inelegível, de acordo com especialistas. A legislação estabelece que o único tipo de propaganda eleitoral paga permitida nas redes sociais é o impulsionamento contratado diretamente com as plataformas. Até o momento, a campanha declarou ter desembolsado apenas 50 000 reais com esse tipo de publicidade. “Compra de espaço, contratação de influenciadores, qualquer outro modo de amplificar a repercussão de um candidato nas redes sociais são absolutamente proibidos”, diz o professor de direito eleitoral da FGV Fernando Neisser. Segundo ele, caberia à Justiça Eleitoral analisar a gravidade da conduta, levando em conta o valor dos pagamentos e a repercussão gerada. Se considerada uma infração leve, a punição é uma multa. Em casos graves, porém, a prática pode configurar abuso dos meios de comunicação e resultar na cassação da chapa.
O estafe de Cury negou qualquer irregularidade. “Não existe isso. Essa é uma campanha com baixos recursos. Não faz sentido isso, se fosse tudo robô, não refletiria esse interesse nas pesquisas”, afirma o marqueteiro Sergio Lima. Sobre as publicações iguais, ele atribuiu à dinâmica das redes sociais. “Tudo na internet é parecido, essas páginas copiam tudo que está bombando”, afirma. O próprio candidato declarou que as suspeitas são “absurdas”. “Acha que alguém com meu histórico, que sempre lidou com a verdade, que a vida inteira disse que quem não é transparente tem uma dívida impagável consigo mesmo, vai comprar seguidores?”, disse ele em entrevista ao telejornal Em Foco, de VEJA. A reportagem da revista também procurou os perfis citados, mas não obteve resposta.

Apesar das suspeitas sobre o que provocou o salto nas redes, o efeito nas pesquisas foi real. Todos os levantamentos divulgados na última semana registraram o avanço do escritor. O crescimento de Cury disparou o alerta nas outras campanhas. Os dados mostram que o escritor conseguiu capturar votos de todos os candidatos, sobretudo os de oposição. O diretor de análise política da AtlasIntel, Yuri Sanches, explica que Cury tem uma imagem mais conservadora, mas diferente do que ofertavam os candidatos de direita. “Ele despontou como uma voz mais serena, em comparação a políticos como o Renan, que tem uma postura muito radical”, avalia. O candidato do Missão, a propósito, enfrentou nos últimos dias enroscos relacionados à campanha digital. Na segunda-feira 31, acusando uso irregular de perfis de Renan, o ministro Dias Toffoli proibiu vários atos da campanha. A decisão acabou sendo revista no dia seguinte.
No caso de Cury, o salto nas pesquisas vai pressionar mais o candidato e obrigá-lo a explicar melhor suas propostas para o país. Apesar da imagem diferente em relação aos nomes da direita, Cury fala em anistiar os presos pela trama golpista. Também defendeu ideias controversas, como o uso de drones para combater a violência doméstica e treinar embaixadores para serem influenciadores nas redes sociais e melhorar a imagem internacional do país. Por trás das propostas um tanto excêntricas, há uma estrutura profissional de campanha. Apesar de estar longe de ser uma das maiores legendas do Congresso, o Avante tem tamanho para ter acesso a fundos públicos e aos espaços na TV, ao contrário do Missão e do Novo. O marqueteiro Sergio Lima participou da campanha de Jair Bolsonaro em 2022 e, neste ano, já trabalhou com Flávio e Zema. Já o vice é Júlio Delgado (Avante), que foi deputado federal por cinco mandatos e chegou a disputar a presidência da Casa.
Só as próximas semanas mostrarão se Cury vai conseguir se consolidar como alternativa ou se vai murchar tão rapidamente quanto cresceu. O salto, por enquanto, mostra que há algum espaço para uma candidatura que se apresente como alternativa à polarização. Em uma frase que ele próprio popularizou em seu principal best-seller, O Vendedor de Sonhos, Cury prega que “o sucesso é mais difícil de trabalhar do que o fracasso”. Ele terá o desafio de manter o ritmo de escalada da popularidade e certamente será cobrado a explicar melhor a receita de autoajuda digital que o transformou no fenômeno do momento das eleições.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011
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