Em eleição com menos jovens, 70+ tem maior interesse em política e prefere Lula, mostra Datafolha

Aos 70 anos, a aposentada Ana Velchev diz que o voto significa expressar opinião sobre o que os governantes estão fazendo pelo país. “Hoje me envolvo muito mais porque percebi que, me posicionando, meus netos e filhos poderiam viver em um país livre, consciente e melhor.”
Velchev, que nunca deixou de votar, ainda não escolheu um candidato, mas está pesquisando. “Quero que os jovens tenham o direito de ir e vir, de expressar a opinião, de conquistar as coisas que almejam, sem serem subjugados por um governo autoritário.”
O voto do eleitor com mais de 70 anos, portanto desobrigado de votar, ganhou relevância porque a população brasileira está envelhecendo.
As pessoas com mais de 60 anos passaram de 21% em 2022, a mais recente eleição geral, para 23,6% neste ano, enquanto o eleitorado geral cresceu 1,5%. A faixa do idoso com voto facultativo passou de 9,5% para 10,8%, com 17.251.915 pessoas desse grupo aptas a irem às urnas neste ciclo eleitoral.
Análise da Folha a partir de dados do TSE mostra que 45,3% dos idosos com mais de 70 anos votaram no segundo turno de 2022, o que representava à época 6,7 milhões de eleitores. A eleição passada registrou a maior presença desse grupo desde 2014, início da série histórica do tribunal para comparecimento e abstenção. Foi também o pleito com maior variação de presença entre os turnos, com alta de 4,2 pontos percentuais no segundo turno.
Na outra ponta do voto facultativo, a população de 16 e 17 anos se afastou da política. O número de adolescentes que tirou o título de eleitor diminuiu 23% na comparação com o pleito passado: eram 2,1 milhões de votantes que caíram para 1,6 milhão neste ano, representando 1% do eleitorado. A queda supera a variação populacional dessa faixa, que recuou 5,6% segundo projeção do IBGE.
O voto facultativo do idoso pode fazer diferença nesta eleição. Dados agregados das últimas duas pesquisas do Datafolha, realizadas em agosto e setembro, mostram que o eleitor 70+ tem maior disposição para comparecer às urnas, tem mais interesse em política e prefere Lula (PT).
O instituto perguntou a eleitores de diferentes faixas etárias se eles votariam caso não fosse obrigatório. Entre jovens de 16 a 24 anos, 50% responderam que sim, índice que sobe para 61% entre pessoas de 60 a 69 anos e para 76% no grupo acima de 70 anos, para quem o voto já é facultativo. A média das respostas é de 59%.
Na faixa mais jovem, 14% dizem ter grande interesse na política, número que alcança 37% na faixa 70+.
“O que vemos nos dois extremos é contraintuitivo, os jovens deveriam ser os mais interessados em votar, mas quem está engajado são os mais velhos”, afirma Luciana Chong, diretora do Datafolha. “As pessoas com mais de 70 anos hoje são uma fatia da população economicamente ativa, não é mais aquele perfil que ficava em casa, e é um voto que pode fazer toda a diferença.”
Parte do afastamento jovem se explica por uma maior burocracia para tirar o título (na pandemia, o pedido era digital) e pela falta de campanhas de estímulo como as do ciclo passado, quando artistas e influenciadores incentivaram os mais novos em shows e pelas redes sociais.
Em 2026, não é só o jovem que está desestimulado, mas o eleitor em geral. “Havia uma mobilização para tirar o ex-presidente Bolsonaro do poder, um voto pela defesa da democracia. Pode ser que daqui para frente a campanha mude, mas hoje não temos o Lula falando tanto da defesa da democracia, e o eleitor entendeu que Flávio não é o Bolsonaro [Jair]. Pode até haver uma abstenção maior”, afirma.
Na faixa de 60 a 69 anos, 44% dos votos devem ir para Lula, e 31% para Flávio Bolsonaro (PL). Considerando o recorte 70+, o índice cresce, com 46% das intenções no petista, e 35% em Flávio, levando em consideração as últimas pesquisas agregadas pelo Datafolha.
A margem de erro para a faixa de 60 a 69 anos é de 3 pontos percentuais, para 70+, de 5 p.p.
A rejeição a Lula é maior na “geração Lava Jato”, que a diretora define como o eleitor de 35 a 44 anos que presenciou os desdobramentos da operação que culminou na prisão de Lula e que define a corrupção como o maior problema do país. Também é um público cuja maior parte da vida ocorreu sob governos petistas.
Para os mais velhos, pesam as políticas para aposentadoria e proteção da renda, segundo Chong. Além disso, ela pontua, trata-se de uma geração que viveu outros momentos além da Lava Jato, como a “década perdida” de 1980, marcada por hiperinflação e estagnação econômica.
“Para esse eleitor, aposentadoria é um tema muito relevante, e para os candidatos, o voto do idoso é tão valioso que eles evitam esse assunto na campanha”, afirma.
A professora Rosangela Gallinati, 64, ainda não chegou aos 70, mas diz que sempre votou. Ao escolher seu candidato, preocupa-se especialmente com fatores como impostos que paga, aposentadoria que recebe do INSS, e a saúde pública, pelo fato de não ter convênio particular. “São fatores que, aos 18 anos, eu não vivia”.
Para ela, o voto significa um direito de escolha. “Temos que exercer para podermos cobrar ações dos governantes que forem eleitos. A informação e a participação são fundamentais para exercer o voto.”
Os estados que registram hoje o maior número de idosos com voto facultativo são Rio Grande do Sul (14,5% do eleitorado), Rio de Janeiro (14,3%), Minas Gerais (12,7%), São Paulo (11,4%) e Espírito Santo (11,3%).
As principais altas desse público, em relação a 2022, ocorreram em estados que elegeram Jair Bolsonaro na última eleição: Rio Grande do Sul (3,8%), Distrito Federal (3,6%), Paraná (3,4%) e Espírito Santo (3,4%).
Folha de São Paulo


