Cezinha de Madureira juntou Mendonça e Vorcaro, andou de moto com Bolsonaro e tirou foto com Lula

André Mendonça estava acompanhado de aliados, no gabinete do então senador Luiz do Carmo (PSD-GO), quando soube do placar a seu favor na votação que selou sua entrada no STF (Supremo Tribunal Federal).
O deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) era um deles e aparece no vídeo que viralizou da cena: está atrás de Michelle Bolsonaro, primeira-dama à época. Antes de abraçar o novo ministro, ela clamou “glória a Deus”, agradeceu ao “Deus de promessas”, deu pulinhos de alegria e falou em línguas, o que pentecostais como ela e Cezinha veem como um dom guiado pelo Espírito Santo.
A terceira fase da Operação Transparência, deflagrada nesta segunda (14) pela Polícia Federal, arrasta para a berlinda uma das figuras mais estratégicas e pragmáticas da bancada evangélica no Congresso.
Segundo a PF, o objetivo da ação é apurar suspeita tráfico de influência junto a tribunais superiores e irregularidades na destinação de emendas parlamentares.
Alvo da investigação junto com a esposa, a advogada Valéria Rodrigues Linhares, Cezinha foi um dos principais articuladores da indicação de Mendonça ao STF em 2021.
O pastor presbiteriano, que foi advogado-geral da União e ministro da Justiça e da Segurança Pública de Jair Bolsonaro (PL), tinha as credenciais religiosas para se tornar o “terrivelmente evangélico” prometido pelo presidente para a vaga. E Cezinha estava lá para ajudar a fazer esse sonho virar realidade.
Três anos e meio depois, o deputado fez a ponte entre Mendonça e Daniel Vorcaro. O encontro entre os dois aconteceu no fim de uma tarde de março de 2025, na sede do Instituto Iter, do ministro. Mendonça apontou Cezinha como intermediário entre ele e o dono do Master. No fim do ano, o banco estaria em tudo quanto é manchete, associado a uma das maiores fraudes financeiras da história do Brasil.
Vorcaro mandou mensagem a Cezinha às 16h37 daquele dia, para avisar que estava chegando para a reunião com Mendonça, e ele respondeu: “Ministro já está te esperando”.
Pastor e um dos principais rostos do Ministério Madureira, um dos ramos mais influentes e capilarizados da Assembleia de Deus no país, Cezinha construiu sua carreira pautado mais pela habilidade de articulação política do que por embates ideológicos acalorados.
A atuação reflete o perfil da sua igreja. O Ministério Madureira tem fama entre seus pares evangélicos de ser camaleônico na relação com o poder. Costuma privilegiar a proximidade com o governante de turno em troca de influência na gestão pública. É essa facilidade em negociar que define o estilo do deputado.
Primeiro, é preciso entender o papel que a igreja exerce sobre sua carreira política. Existe o Antonio Cezar Correia Freire e existe o Cezinha de Madureira. São, a princípio, o mesmo homem. Mas não foi à toa que o deputado escolheu carregar sua igreja na alcunha política.
“Sou cristão, sou crente, sou pastor. E estou aqui porque a igreja me colocou, foi a igreja que me elegeu. Respondo ao meu povo através do meu líder”, ele disse à Folha em 2018, quando encerrou seu único mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo para assumir o posto na Câmara.
Sua chegada a Brasília coincidiu com a mudança de Bolsonaro para o Palácio da Alvorada. E Cezinha se aliou ao bolsonarismo com entusiasmo. Em 2021, chegou a aparecer publicamente na garupa do então presidente, numa motociata batizada Acelera para Cristo. Liderava na época a bancada evangélica e atuou para manter o bloco alinhado aos interesses do governo.
Com a troca de Bolsonaro por Lula (PT), Cezinha abrandou a retórica antipetista. Buscou manter canais de diálogo abertos com a atual gestão e circulou bem entre ministérios, evitando ser um entrave nas pautas do Planalto. O deputado é visto em Brasília como um nome que prefere a negociação nos bastidores à radicalização retórica, o que lhe permitiu manter influência mesmo com a troca de comando no Executivo.
Em outubro de 2025, Cezinha apareceu junto com o bispo Samuel Ferreira, um dos nomes centrais da Assembleia de Deus Madureira, em foto com Lula no Planalto. Disse na ocasião que Jesus é da paz e “igreja não foi feita para brigar com o governo”.
O mesmo Cezinha que defendia a indicação do batista Jorge Messias para o STF, algo caro a Lula, trocou o PSD pelo PL dos Bolsonaro neste ano —mais uma amostra de sua capacidade adaptativa em diferentes ecossistemas políticos.
Folha de São Paulo



