Saúde

Mosquito com bactéria se consolida no combate à dengue no Brasil, mas ainda esbarra em gargalos

Entre agosto de 2015 e janeiro de 2016, os moradores de Jurujuba, bairro de Niterói (RJ), conviveram com uma população diferente de pernilongos urbanos. A região foi a primeira no Brasil a receber mosquitos Aedes aegypti infectados com a bactéria Wolbachia, que bloqueia a replicação do vírus da dengue.

Em 2019, a cobertura atingiu toda a cidade fluminense. Um estudo-piloto da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) com o World Mosquito Program (WMP, na sigla em inglês) avaliou o efeito pós-liberação. Passados dois anos do início do projeto, os casos de dengue caíram 69%. Depois de cinco, quase 90%.

Desde então, o país avançou no uso da tecnologia, com capacidade semanal de produção de 340 milhões de ovos do mosquito com a bactéria. Porém, ainda esbarra em gargalos regulatórios. E isso num ano com um El Niño em curso que pode impulsionar o volume de casos da doença.

Segundo o Ministério da Saúde, hoje a soltura dos mosquitos com a bactéria ocorre em 16 municípios do país , numa área com 16 milhões de habitantes, com investimento de R$ 117 milhões até o momento.

De acordo com o ministério, o plano é incluir outros 54 nessa lista a partir do ano que vem, alcançando mais 7,2 milhões de pessoas —em São Paulo, constam da lista Campinas e Ribeirão Preto, por exemplo.

Os ovos de mosquitos com Wolbachia são produzidos no país em duas biofábricas —a bactéria é natural em cerca de dois terços das espécies de insetos, mas não no Aedes. Após alguns dias, as larvas eclodem e se desenvolvem em adultos, que são liberados nas ruas por agentes de saúde municipais.

O cruzamento com fêmeas de Aedes selvagens leva a descendentes que também carregam a Wolbachia. Ao longo de algumas semanas, o número de mosquitos com a bactéria atinge um patamar de cerca de 70% no local, diminuindo a transmissão do vírus da dengue entre humanos.

O pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira esteve à frente do projeto de Niterói e de um segundo estudo, em Campo Grande (MS), apoiado pelo Ministério da Saúde —este mostrou 63% de redução de casos. Ele conheceu a tecnologia quando fez pós-doutorado no laboratório de Scott O’Neill, na Universidade de Queensland (Austrália), descobridor do método.

À época, O’Neill estava interessado em testar se uma cepa de Wolbachia que reduzia pela metade o tempo de vida da mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster) também diminuiria o do Aedes.

Experimentos iniciais em laboratório com a cepa wMelPop da bactéria apontaram que, além da redução do tempo de vida, a contaminação bacteriana causava um bloqueio direto na replicação dos vírus da dengue e chikungunya. Posteriormente, observou-se o mesmo efeito no zika vírus, entre outros.

De volta ao Brasil no final de 2010, Moreira iniciou os trâmites para o projeto-piloto de 2015. Estudos de campo confirmaram a transmissão da bactéria à descendência. A queda média dos casos é de 30% a 70%, pois há transmissão residual, segundo o pesquisador, consultor da biofábrica Wolbito do Brasil, em Curitiba.

Para ele, o sucesso do método é fruto das parcerias de entes federais e municipais. “Em 2024, tivemos a virada de chave quando a Wolbachia entrou para as diretrizes nacionais da Saúde, saindo do contexto acadêmico e virando uma política pública.”

Aquele foi o pior ano da doença desde 2000, início da série histórica, com 6,56 milhões de casos e 6.321 mortes. Sob forte El Niño, as infecções se concentraram em março e abril, mais quentes e chuvosos que em 2023.

A Wolbito do Brasil, um consórcio nacional e internacional, diz ter capacidade de produzir até 150 milhões de ovos por semana. A segunda biofábrica no país, da Flyttr (antiga Oxitech), em Campinas (SP), afirma ter capacidade para até 190 milhões, também por semana. Ambas não dizem o número de produção atual e argumentam que este depende de acordos com os municípios.

A liberação dos mosquitos nas ruas ocorre semanalmente em locais previamente definidos e leva, em média, até 26 semanas, diz o Ministério da Saúde.

A soltura, porém, ainda esbarra em desafios, na avaliação de Julio Croda, infectologista e pesquisador da Fiocruz, que participou do estudo de Campo Grande. “A tecnologia é autossustentada após dois anos, quando já atinge, em média, 60% da cobertura municipal. Mas, para ter eficácia na temporada subsequente, é preciso que a liberação comece dois anos antes.”

Segundo ele, as previsões do InfoDengue, boletim de acompanhamento de arboviroses no país, indicam um cenário de alta da doença no país. “Anos de El Niño são anos em que, historicamente, a dengue é muito forte. Só que não conseguimos previsões muito acertadas devido às variáveis regionais e à imunidade prévia.”

O boletim prevê um aumento de 138,2% dos casos de dengue na região Sul, de 98,4% na região Centro-Oeste e de quase 85% na região Sudeste no período de setembro deste ano a janeiro de 2027. Ainda, segundo a Fiocruz, há tendência de aumento de casos em Acre, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e Sergipe. Nos demais estados, o cenário projetado é próximo ao da temporada anterior.

Na avaliação do infectologista, o plano de soltura dos mosquitos com Wolbachia deveria priorizar locais com picos da doença em anos mais quentes. “O que temos visto é uma expansão da dengue no território brasileiro para áreas que eram tradicionalmente mais frias, como o Sul e Sudeste, que têm registrado temperaturas elevadas.”

Segundo o pesquisador, as biofábricas estão prontas aguardando produção, mas esta enfrenta entraves de orçamento.

O Ministério da Saúde diz, em nota, que atualizou o plano nacional para dengue apoiando planos locais com capacitação, manejo clínico, vigilância e suporte técnico. Afirma também que, durante a fase de implantação do método Wolbachia, a quantidade de ovos e mosquitos necessária varia de acordo com o tamanho da população e as características de cada município.

“Neste ano, foram adquiridos mosquitos com Wolbachia suficientes para atender aproximadamente 10 milhões de habitantes”, declara a pasta.



A Wolbito do Brasil possui evidências científicas em 16 países que atestam a eficácia e segurança do método

Outro gargalo é regulatório, afirma a diretora-executiva da Flyttr no Brasil, Natália Ferreira. Segundo ela, até o início de outubro, a diretriz da Saúde considerava como padrão o mosquito da Fiocruz/Wolbito do Brasil. A empresa negocia com o Ministério da Saúde a produção em sua fábrica de Campinas, vizinha à de Aedes do Bem, ativa desde 2014.

A Flyttr oferece, além da wMelPop, outra cepa da bactéria, a wAlbB, mais resistente a altas temperaturas e potencial aliada em tempos de El Niño. “Podemos fazer diversas combinações de mosquitos Aedes aegypti conforme a localidade do município e as duas cepas de Wolbachia, ampliando as possibilidades de cobertura”, diz Ferreira.

Para Moreira, embora haja ainda um caminho a ser seguido, o Brasil tem o potencial na estratégia de combate à dengue por Wolbachia. “A Wolbito do Brasil possui evidências científicas em 16 países que atestam a eficácia e segurança do método. Essa expertise nacional nos dá segurança de que o modelo brasileiro está pronto para ser replicado. Temos o potencial de levar essa tecnologia para outros países.”

Informação

Folha de São Paulo

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