Bolsonaristas insistem na estratégia de intimidar aliados

O ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos não costumam tolerar nem suspeita de traição. Quando despachava no Palácio do Planalto, o capitão demitiu ministros por achar que eles não seguiam fielmente as ordens e a cartilha do clã.
Bolsonaro e sua prole também nunca aceitaram que aliados tentassem alçar voo próprio. Ninguém pode fazer sombra a eles, a não ser com autorização prévia. Vem daí a prática sistemática de intimidar e atacar aqueles que não estariam priorizando o interesse da família.
Antes da eleição presidencial, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro comandou uma ofensiva contra o deputado federal Nikolas Ferreira e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, segundo o Zero Três, não estariam empenhados na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
O Zero Um até acabou na frente no primeiro turno, mas sofreu uma virada histórica para Lula, que acabou reeleito, no segundo turno, com uma vantagem de 4,4 milhões de votos. O resultado não mudou o ímpeto dos rebentos de Bolsonaro — e da ala radical a serviço deles — de partir para cima de quem não se mostra 100% alinhado ao grupo.
O primeiro alvo de ataques foi o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas, que reconheceu a vitória de Lula, o que até hoje não foi feito por Flávio Bolsonaro, e disse que pode ser candidato à Presidência em 2030 se terminar a gestão bem avaliado. Tarcísio apanhou durante dias nas redes sociais.
Agora foi a vez de a senadora Tereza Cristina (PP-MS) entrar na mira. Ministra da Agricultura no governo Bolsonaro, ela anunciou a pretensão de disputar em fevereiro a presidência do Senado, que também é cobiçada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Nas redes, setores do bolsonarismo passaram a acusar Tereza de atrapalhar a oposição e, indiretamente, de facilitar a reeleição de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) ao cargo. O próprio Marinho teve de se manifestar para tentar conter os ataques contra a colega. “A senadora Tereza tem toda a legitimidade de ser candidata”, afirmou.
Os dois oposicionistas têm um acordo. Quem tiver mais chances de vitória continuará no páreo, enquanto o outro deixará a disputa para apoiá-lo. Diferentes motivos podem levar à ruptura desse pacto. Um deles é justamente a fritura de Tereza pelos radicais bolsonaristas.
A presidência do Senado é um dos postos mais poderosos da República e tem a prerrogativa de pautar pedidos de impeachment de ministros do Supremo e projetos destinados a reduzir penas e livrar da prisão condenados por tentativa de golpe de Estado.
Sentenciado a mais de 27 anos de cadeia, Jair Bolsonaro sabe disso. Por isso, pediu autorização do STF para conversar pessoalmente com Tereza Cristina e Rogério Marinho. Ele não quer divisão numa votação estratégica. Divisão que tem sido alimentada pela estratégia de intimidação usada desde sempre pelo grupo do ex-presidente.
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