Política

A Era Neymar e a Era Gilmar

“Onde você quer?”, perguntou o jogador. “Na trave, tenta na trave”, respondeu o goleiro feliz com a vitória.

Batido o pênalti, gastou tempo para encarar o goleiro e desafiar: “Comigo não, comigo não, otário”. Não correu para pôr a bola no meio de campo e tentar o empate. Não era conosco, era “comigo”. Não era com o time, era com ele. Sua fraqueza diante do goleiro simboliza o fim melancólico de toda uma era. Ou assim queremos crer.

Dia seguinte, ministro de tribunal supremo publica em rede social: “Encerrada nossa participação na Copa de 2026, fica a gratidão. Uma Copa do Mundo se constrói ao longo de anos, com disciplina e a enorme responsabilidade de todos que vestem a camisa verde e amarela. Agora, rumo a 2030, começa um novo ciclo”.

Conclui assim: “E a Neymar, uma justa homenagem à sua trajetória: ao representar o Brasil em quatro Copas do Mundo, nos emocionou com seu talento, categoria e gols que marcaram época. Minha gratidão por tudo o que representa para o nosso futebol“.

Logo abaixo do post, um aviso curioso: “Os leitores adicionaram contexto que as pessoas talvez queiram saber” (Readers added context they thought people might want to know). O contexto era: “Gilmar Mendes não mencionou, mas ele próprio e o filho têm grande influência na CBF“.

Abaixo desse raio contextualizador, alguns links de explicação: “Filho de Gilmar Mendes liga para presidentes de federações após denúncias contra Xaud”; “A caneta amiga de Gilmar Mendes”; “Enquanto a Copa rola, filho de Gilmar Mendes exerce seu poder na CBF”.

As notas da comunidade da rede de Elon Musk fizeram o que instituições de Estado se recusam a fazer: reconhecer e dar transparência a conflito de interesse.

O inusitado esclarecimento de leitores para leitores joga uma dúvida na qualidade republicana da “gratidão” afirmada duas vezes por Gilmar. Mas ainda não marca o fim de uma era, que só deve chegar com sua aposentadoria em 2030, se tudo correr dentro da instável normalidade constitucional brasileira.

Neymar e Gilmar contribuíram como ninguém para desagregar e sobretudo avacalhar a instituição coletiva da qual participam. Ambos protagonizaram a transformação da respectiva instituição em motivo de desconfiança, vergonha e falta de autoridade. São obstáculos individuais corrosivos ao projeto de uma jurisprudência constitucional que proteja nossos direitos e liberdades, por um lado, e de um padrão de jogo consciente de sua responsabilidade, por outro. As faltas cavadas em campo encontram equivalentes funcionais nos ritos arbitrários a nas obstruções monocráticas do tribunal.

O colapso constitucional e futebolístico não se faz com rupturas abruptas, mas por meticuloso deboche clepto-interessado.

Ao final dessas eras o que vai sobrar? Já se sabe que restarão instituições fraturadas por projetos pessoais e familiares cercados por rede de parças e bajuladores que lucram com a degradação. O mais fantástico é que os legados não são parecidos por mera coincidência.

A comunhão entre CBF e STF está documentada. E nos autoriza a desconfiar, de boa-fé, dos interesses por trás de cada decisão, cada liminar anulatória, cada contrato de patrocínio, cada convocação, cada escolha para cobrador de pênalti.


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Folha de São Paulo

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