Política

Alcolumbre e PT da Bahia aparecem em novo capítulo das revelações de Vorcaro

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Desde que eclodiu, o escândalo do Banco Master chama atenção por uma série de razões. Um dos maiores rombos financeiros da história do país, ele deixou um rastro de prejuízo estimado em mais de 50 bilhões de reais. A meteórica ascensão de Daniel Vorcaro e de sua instituição, sabe-se hoje, está intimamente ligada à construção de uma impressionante rede de conexões junto aos Três Poderes da República. O banqueiro transitava nas mais altas-rodas. Promovia festas nababescas, que misturavam atrizes, modelos estrangeiras, políticos, juízes, empresários e burocratas bem posicionados. Sua frota de jatos estava sempre à disposição dos poderosos e ele não economizava na hora de distribuir pequenos e grandes mimos a personagens influentes das mais diversas correntes ideológicas. Com acesso a tudo que o dinheiro pode comprar, parecia imune às adversidades reservadas aos mortais. Nada sugeria que essa situação um dia pudesse desmoronar. Até que desmoronou. Confinado há três meses em uma cela, Vorcaro, numa tentativa de mudar o destino que parece traçado, passou a emitir sinais de que pretende revelar segredos.

Para conseguir mudar o futuro, o banqueiro precisa confessar seus crimes, contar os detalhes mais sórdidos de como construiu seu império e apontar nomes de comparsas e autoridades que se envolveram de alguma forma em suas trapaças. Essa possibilidade tem deixado Brasília em um característico estado de elevada tensão. Esse temor vai se mostrando justificado, conforme Vorcaro começa a revelar aos investigadores alguns de seus segredos. A nova leva de revelações pode comprometer nomes de altíssimo escalão, como autoridades graúdas do Congresso e membros do Judiciário. O ex-banqueiro promete detalhar crimes desconhecidos, como negociatas de valores vultosos e pagamentos de propinas. Por enquanto, são apenas palavras. Essas acusações graves precisarão ser acompanhadas das devidas provas. Se o ex-­banqueiro comprovar tudo o que diz, o que ele tem prometido fazer aos investigadores, o caso Master subirá a um patamar inédito em termos de escândalo.

PAGAMENTO - Davi Alcolumbre: 30 milhões de dólares teriam sido depositados em contas no exterior (Carlos Moura/Agência Senado)

Conforme apurou a reportagem de VEJA, um dos novos e mais bombásticos segredos envolve o senador Davi Alcolumbre (União Brasil- AP), o presidente do Congresso. Segundo o relato, o ex-banqueiro teria feito a Alcolumbre um pagamento de 30 milhões de dólares, cerca de 155 milhões de reais. De acordo com proposta de confissão, o valor foi depositado em uma conta secreta no exterior e repassado ao parlamentar pelo apoio dado a uma demanda de interesse do Banco Master, em transação operada por Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. O ex-banqueiro se dispôs também a falar sobre seus negócios nebulosos com o PT da Bahia, citando especialmente Rui Costa, chefe da Casa Civil de Lula até recentemente, que se mostraram fundamentais para a ascensão meteórica do Master.

Segundo ele, a história começou em 2007, durante o governo Jaques Wagner, com o nome de Cesta do Povo. A iniciativa foi criada para permitir que servidores públicos estaduais realizassem compras em supermercados públicos com desconto direto na folha de pagamento. Com a entrada de Vorcaro na operação, o CredCesta virou uma das principais operações de crédito consignado na Bahia, especialmente na modalidade de Reserva de Cartão Consignado. Em 2022, já na gestão de Rui Costa, sucessor de Wagner, um decreto estadual restringiu a portabilidade dessas dívidas para outros bancos, medida que ampliou a presença da instituição financeira no setor. Ou seja,na prática, o governo do PT baiano realizou uma manobra para se tornar um dos principais parceiros de Vorcaro. O ex-banqueiro ainda não detalhou a que custo se deu essa relação.

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REGRA - Mendonça: trabalho com “independência, imparcialidade e de forma não seletiva”
REGRA - Mendonça: trabalho com “independência, imparcialidade e de forma não seletiva” (Antonio Augusto/STF)

Alcolumbre e Costa sempre negaram qualquer envolvimento em irregularidades no caso Master. Vale repetir que os relatos de Vorcaro podem soar como acusações vazias, sem as devidas comprovações das negociatas. Os segredos que o ex-banqueiro deseja trazer à luz do dia não ficam apenas nos casos de Davi Alcolumbre e Rui Costa. Conforme apuração de VEJA, em conversas recentes com os investigadores, ele citou um membro do Judiciário que teria recebido dele 15 milhões de reais, dentro de um negócio completamente fora do padrão. Segundo o relato, o pagamento foi efetuado por Fabiano Zettel, o cunhado de Vorcaro que está preso, acusado de ser o operador financeiro das principais transações ilegais do Master. Vorcaro se prontificou a contar também os detalhes da atuação de outro membro do Judiciário que, segundo o ex-banqueiro, agiu secretamente na defesa dos interesses de seu banco quando a instituição já estava na iminência de ser liquidada pelo Banco Central no ano passado. Essa nova leva de revelações se soma a diversos rumores das últimas semanas de citações a outras autoridades por suposto envolvimento em negociatas do Master, a exemplo do senador Ciro Nogueira (PP-PI), do ex-governador do Rio Cláudio Castro e de Antonio Rueda, presidente do União Brasil.

Desde a prisão, Vorcaro e seus advogados vêm prometendo colocar esses segredos em uma proposta de delação a ser aprovada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. A primeira proposta, rejeitada há cerca de três semanas, foi considerada superficial por se restringir a casos que já estão sob investigação e não agregar informações relevantes a episódios conhecidos. A segunda proposta, entregue no início da semana passada, também teria frustrado os investigadores por motivos parecidos.

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OPERAÇÃO - Lima e Vorcaro: construção de uma impressionante rede de conexões em Brasília
OPERAÇÃO - Lima e Vorcaro: construção de uma impressionante rede de conexões em Brasília (Claudio Gatti/.)

De acordo com a defesa do ex-banqueiro, a recusa encontra explicação em um movimento que ocorreu nos bastidores com o objetivo de inviabilizar o acordo de colaboração do ex-dono do Master. Os advogados de Vorcaro fizeram chegar ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso no STF, que PF e PGR não pareceram devidamente interessadas em passar a limpo algumas das graves denúncias, citando com exemplos o pagamento ao senador Davi Alcolumbre no exterior, caso que teria sido prontamente descartado pelos investigadores, assim com as histórias envolvendo membros graúdos do Judiciário. Os defensores que levaram a reclamação ao Supremo asseguraram que elas são consistentes e acompanhadas de provas, como prevê a legislação. Por isso, a motivação dos investigadores para rejeitá-las seria política.

Desde o primeiro momento em que Vorcaro anunciou a intenção de revelar segredos, há uma guerra de versões entre a defesa do banqueiro e os delegados encarregados do inquérito. A Polícia Federal acusa o dono do Master de tentar utilizar a delação premiada, entre outras coisas, para inocentar amigos mais próximos. Na primeira proposta, de acordo com os investigadores, as revelações sugeridas soavam inverídicas diante das provas já colhidas pelas quebras de sigilo e da captura dos arquivos dos celulares que o banqueiro utilizava, sem o mínimo de cuidado, para se comunicar com a elite da República. Além de não contar tudo o que sabe, ressaltam os agentes, Vorcaro teria apresentado capítulos inteiros que isentavam personagens sobre os quais existem evidências concretas de participação nas fraudes. O ex-banqueiro também teria colaborado ativamente para colocar em descrédito a própria proposta de delação. Além de desvirtuar fatos e omitir informações, os policiais dizem que ele ainda teria providenciado para que o teor de sua colaboração fosse levado ao conhecimento de pessoas diretamente envolvidas no caso, fato que levou o ministro André Mendonça, relator no STF do inquérito que investiga o escândalo, a não mais receber um dos advogados do banqueiro. Já na segunda proposta de delação, Vorcaro ampliou o raio das informações, ajustou a versão sobre alguns personagens e incluiu acusações novas.

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INVESTIGAÇÃO - Andrei Rodrigues, diretor da PF: delegados têm reservas sobre a proposta de delação
INVESTIGAÇÃO – Andrei Rodrigues, diretor da PF: delegados têm reservas sobre a proposta de delação (Cristiano Mariz/Agência O Globo/.)

Sempre que perguntando sobre o processo, o ministro André Mendonça costuma repetir que não interfere nas investigações. Procurado por VEJA, ele não quis se pronunciar. Em conversas recentes com interlocutores, no entanto, disse estar atento a tudo que se passa no inquérito, especialmente em relação a eventuais pressões que possam impedir ou atrapalhar o bom andamento do caso. Bem ao estilo do ministro, a declaração foi um recado diante das suspeitas de interferência no processo relatadas pela defesa de Vorcaro. Na mesma conversa, o magistrado inclusive reafirmou a necessidade de o trabalho dos delegados e procuradores ser conduzido com “independência, imparcialidade e de forma não seletiva”, disse ele ao interlocutor ouvido por VEJA.

Apesar do barulho que já produziu, a apuração do escândalo do Master ainda está numa fase que pode ser considerada inicial, embora já tenha causado danos à biografia de várias autoridades. Já se sabe que uma parte do império de Daniel Vorcaro foi construída à base de negócios obscuros impulsionados por autoridades influentes. O fundo de pensão dos funcionários do Amapá, por exemplo, comprou 400 milhões de reais em títulos podres do Master. O órgão era comandado por um ex-tesoureiro da campanha do mesmo Davi Alcolumbre que teria recebido dinheiro no exterior. Situação semelhante à do Amapá enredou também os ex-governadores Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Ibaneis Rocha, do Distrito Federal. No telefone do banqueiro, a polícia encontrou conversas entre ele e Alexandre de Moraes, além de um contrato de prestação de serviços no valor de 129 milhões de reais que o Master tinha com o escritório de advocacia da mulher do ministro. Ex-­relator do inquérito, o ministro Dias Toffoli, do STF, foi afastado do caso após a descoberta de que ele foi sócio de uma empresa que tinha negócios com o grupo Master. Mais recentemente, o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, apareceu numa gravação de áudio pedindo dinheiro a Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre o pai dele. Fora o constrangimento, a princípio esses personagens não praticaram nenhum crime.

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PROCESSO - Gonet: PGR acompanha o caso de perto e também terá palavra final sobre ele
PROCESSO – Gonet: PGR acompanha o caso de perto e também terá palavra final sobre ele (Mateus Bonomi/AGIF/AFP)

No caso do presidenciável, a simples exposição da conversa provocou abalos em sua campanha. Na pesquisa de intenção de voto divulgada na quarta-feira 10, a Genial/Quaest detectou que a revelação não só interrompeu a ascensão do senador, como ainda impulsionou seu principal adversário. Está demonstrado que Vorcaro desembolsava fortunas para ter a seu lado pessoas que lhe abrissem caminhos. Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda dos governos de Dilma Rousseff e de Lula, por exemplo, tinha um contrato de prestação de serviço com o Master no valor de 10 milhões de reais. Em dezembro de 2024, Mantega levou Vorcaro para uma audiência com Lula no Palácio do Planalto, na qual também estavam presentes Gabriel Galípolo, então futuro presidente do Banco Central, e o ministro Rui Costa. Daniel Vorcaro pode esclarecer esses e outros episódios, envolver em suas revelações essas e outras autoridades. É isso que faz da série de segredos do Master um espectro que assusta, amedronta e justifica o esforço e a torcida de alguns para que o caso seja abafado. Considerando o tamanho do rombo deixado pelo banco e as inúmeras evidências de negociatas do ex-banqueiro, o Brasil espera o contrário: que a investigação avance e, ao término, seja feita justiça.

Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999

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