Política

Antipetismo visceral alimenta o servilismo a Donald Trump

Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.

Parece prevalecer uma espécie de reacionarismo atávico, hoje atualizado por um tipo visceral de antipetismo, que se sobrepõe ao senso de nação —um adesismo equivocado, de viés ideológico, sem altivez.

Mais uma vez, para não deixar dúvidas sobre os propósitos de Trump, o Departamento de Estado dos EUA, comandado pelo diligente e vingativo Marco Rubio, postou vídeo no qual o embaixador no Panamá, Kevin Marino Cabrera, detalha o surgimento da doutrina Monroe, em 1823, quando Washington manifestou-se a favor da independência de países latino-americanos e do afastamento das metrópoles europeias.

O post veio com a frase “o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente” –proferida por Trump após a captura de Nicolás Maduro, o ex-ditador da Venezuela, ora substituído pela ditadora fantoche Delcy Rodríguez. O norte-americano, como se sabe, defende a doutrina Donroe, trocadilho infame que sintetiza seus interesses imperialistas em nosso continente, onde encontra o referido apoio entreguista.

Trump exerce o poder como um Átila pós-liberal. Onde pisa, a democracia, o multilateralismo e o bom senso morrem. Instituições que mediavam querelas internacionais perderam sentido, na prática não existem mais.

Em seu admirável mundo bárbaro, endossa a disputa entre potências de perfil autocrático —Rússia e China— com autonomia sobre suas áreas de influência. Apoia o projeto Grande Israel para regrar o Oriente Médio, de preferência em sintonia com ditaduras amigas, como a Arábia Saudita —enquanto a Europa é vista como mera frescura para os fracos.

A imposição de taxas no comércio exterior funciona como arma para impor a superpotência e também serve para ajudar no financiamento do Estado, substituindo os impostos não cobrados dos grandes empresários americanos.

Seria como se Lula, se pudesse, num argumento por absurdo, tentasse buscar recursos fiscais impondo barreiras externas para compensar seus gastos públicos e o custo tributário das isenções.

Em ano eleitoral, o Brasil torna-se uma vítima preferencial do republicano, que acredita estar punindo Lula e favorecendo seus aliados extremistas. Recente pesquisa Datafolha, aliás, mostrou que para 52% dos brasileiros Trump atua para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, cuja família e seguidores batem continência para a bandeira dos EUA.

O clássico livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Hollanda, já chega aos 90 anos, mas ainda vale em boa medida seu diagnóstico: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.


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Folha de São Paulo

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