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Aos 42 anos, João Velho revela desafio ao atuar e dirigir clássico do teatro brasileiro: ‘É uma loucura!’

Aos 42 anos, o ator João Velho vive a experiência nos palcos de atuar e dirigir simultaneamente o espetáculo Eles Não Usam Black-Tie, clássico de Gianfrancesco Guarnieri. Em entrevista exclusiva à CARAS Brasil, o astro conta como decidiu assumir um dos personagens da montagem, fala sobre o desafio de deixar o palco para acompanhar a direção das cenas e reflete sobre o amadurecimento ao longo de mais de duas décadas de carreira. O artista também revela os próximos trabalhos no cinema e celebra a fase atual da vida profissional.

– João, poderia dar mais detalhes sobre o espetáculo “Eles nao usam Black Tie”?
– Esse espetáculo é um clássico da dramaturgia brasileira, escrito por Gianfrancesco Guarnieri quando ele tinha pouco mais de 20 anos. A peça foi escrita por volta de 1954 e estreou em 1956. É uma das primeiras — talvez a primeira — peças realistas do teatro brasileiro. Ela conta a história de uma família de operários que vive em uma comunidade no Rio de Janeiro. O pai trabalha em uma metalúrgica e participa ativamente do sindicato. Quando os operários entram em greve, surge um forte conflito entre ele e o filho, que dá início ao grande embate da trama. A peça deu origem a uma adaptação para o cinema, também assinada por Gianfrancesco Guarnieri, no filme ‘Eles Não Usam Black-Tie’, um verdadeiro clássico e, na minha opinião, um dos maiores filmes da história do cinema brasileiro, sou suspeito para falar. É uma obra maravilhosa que, apesar de ter sido escrita há quase 70 anos, continua extremamente atual.

– E sobre seu personagem?
– Quando eu comecei a estudar essa peça, foi em uma aula que eu estava dando no grupo de teatro Nós do Morro. Lá, comecei a trabalhar o texto com os alunos e, dessa turma, surgiu a companhia. Foi a única companhia que a gente formou ali. Na época, esse personagem, que talvez seja o menor papel masculino da peça, era interpretado por um rapaz que era um ator muito bom. Mas, quando chegou a hora de montar o espetáculo e começar os ensaios de verdade, ele decidiu que não poderia participar porque precisava trabalhar como mototáxi. Isso acabou pesando mais na decisão dele. Como a gente já estava pensando em fazer a peça de uma maneira mais guerrilheira, sem esperar patrocínio ou edital, achei que seria muito mais difícil encontrar outro ator para um personagem tão pequeno. Então, decidi fazer o papel eu mesmo. É um personagem que é irmão da Maria, mulher do Tião, filho do Otávio, e que vive esse conflito com o pai, além de acabar entrando em conflito com a própria irmã. Eu apareço na festa de noivado, interajo com o cunhado… Enfim, tenho algumas ceninhas só, mas adoro esse personagem. As cenas pequenas são ótimas, maravilhosas. E, por coincidência, ele também se chama João.

– Como é lidar com um projeto que você atua e dirige?
– É uma loucura! O meu personagem nessa peça é muito pequeno, mas, mesmo assim, eu fico enlouquecido fazendo isso. Tenho que fazer o personagem, sair do palco para ver a cena e pedir para alguém entrar no meu lugar. Fico impressionado com as pessoas que fazem peças e conseguem, ao mesmo tempo, dirigi-las. Porque só de interpretar esse personagem pequeno eu já fico completamente louco. Mas, ao mesmo tempo, é uma delícia, porque você se coloca em desafio. É um desafio muito grande. Eu jamais decidiria fazer um espetáculo em que meu personagem tivesse uma responsabilidade maior e, ao mesmo tempo, eu fosse o diretor. Seria uma loucura. Porque o que estou fazendo já é, para mim, uma experiência limítrofe. Mas nunca se sabe

– João, este ano você completou 42 anos. Como se define nesta fase de vida?
– Essa idade é muito legal, estou adorando. Na verdade, tenho gostado de todas as fases da vida. Cada vez que envelheço, penso em como é bom olhar para trás e ver tudo o que construí. Tenho muito orgulho da minha carreira, das peças que fiz, dos trabalhos que realizei e também dos que estou fazendo agora. Sinto que este momento da minha carreira está muito bacana, e a idade tem sido super bem-vinda. Estou aproveitando bastante. Em janeiro faço 43 anos, então acho que ainda tenho mais um ano cheio de coisas interessantes acontecendo. E sinto que a minha cabeça está cada vez melhor também. À medida que o tempo passa, a gente desenvolve uma capacidade maior de absorver as experiências. Claro que nem todo mundo envelhece e aprende, mas eu sinto que venho aprendendo sempre, a cada semana. É um trabalho que não para. Inclusive, a profissão de ator é assim: nunca existe uma formação completamente concluída, é um aprendizado eterno. Tenho a sensação de que vou aprender alguma coisa nova até o último dia da minha vida. Espero que essa capacidade de absorção e de aprendizado permaneça sempre ativa, porque estou vivendo esse momento de uma forma muito feliz.

– O público te acompanha desde muito jovem, como é amadurecer em frente as câmeras?
– Ainda estou amadurecendo e acho que sempre vou estar. É isso que eu falei: com 80 anos, ainda vou estar amadurecendo. É até contraditório, porque, teoricamente, já vou estar maduro. Mas acredito que, no trabalho, a gente sempre aprende alguma coisa nova, especialmente com a forma como as mídias estão se reinventando. A gente precisa se renovar o tempo todo, reaprender e aprimorar o nosso trabalho. Sinto isso quando olho para a época em que fazia Malhação, aos 20 anos. Hoje vejo aquele trabalho e penso: “Caramba, já mudei muita coisa, já troquei muito de pele”. É como uma cobra: a gente vai trocando de pele ao longo da vida. E espero que essa transformação continue acontecendo até o fim. É muito bom amadurecer. É muito bom olhar para os trabalhos, especialmente os do audiovisual, e perceber como a gente fazia as coisas antes. Poder acompanhar essa evolução ao longo da trajetória é algo muito gratificante.

– Depois de Impuros, algum outro projeto no audiovisual a caminho?
– Sim, tenho um filme que já está no streaming e acho que ainda está em cartaz nos cinemas, “Cansei de Ser Nerd”, com Fernando Caruso, dirigido por Walter Pupo. É um filme fantástico. Também fiz um filme com Ricardo Petraglia, que deve estrear em breve, chamado “Um Lugar para Viver”, no qual interpreto o filho dele. É um filme muito bonito. E há ainda outro longa que vai sair, chamado “Devolva-me”. É um filme distópico em que existe uma espécie de ‘uberização’ dos serviços de orfanato: as pessoas alugam crianças e depois as devolvem. Eu interpreto um italiano que aluga uma criança, se encanta por ela e decide que quer comprá-la. A partir daí, surgem todos os conflitos desse universo distópico, em que as crianças se tornam objetos de aluguel. É uma história bem impactante.

– E quais as novidades para este ano?
– Olha, a novidade deste ano é justamente essa peça. “Eles Não Usam Black-Tie” é a grande novidade da companhia. A Única Cia estreia o espetáculo no dia 7 de agosto, no Teatro CCJF, às 19h. As apresentações acontecem de sexta a domingo, sempre às 19h. Estamos com grandes expectativas para essa montagem e acreditamos que ela ainda vai render muitas coisas boas ao longo deste ano. Espero que as pessoas fiquem atentas, porque o espetáculo está muito bonito e muito pertinente para o momento que estamos vivendo. Além disso, o que fizemos nesta montagem também traz uma assinatura muito própria da nossa companhia, o que faz com que a peça seja ainda mais especial.



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