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Após briga aos gritos na Globo, maior estrela da TV buscou refúgio na concorrência antes de retorno triunfal

Nos bastidores da televisão, nem tudo corre conforme o roteiro. Em 1972, o público brasileiro viu um dos seus maiores comunicadores sumir da tela da Globo de uma hora para outra. O motivo não foi falta de audiência, mas uma briga pesada com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então diretor da emissora. Segundo o livro de memórias do próprio executivo, com informações repercutidas pelo portal NaTelinha, o apresentador tinha o hábito de estourar o tempo do seu programa ao vivo de propósito. Em um domingo de dezembro daquele ano, a atração estava atrasada e Boni mandou cortar o sinal. A reação foi explosiva: o animador quebrou o cenário, subiu na sala da diretoria sem camisa e gritou: “Vou embora, vou embora, não apareço mais aqui”.

E ele cumpriu a promessa. Dias depois, o comunicador já estreava na concorrente TV Tupi, forçando a antiga casa a improvisar programas musicais para tapar o buraco na programação. Durante os anos em que ficou afastado, ele também trabalhou na Bandeirantes, onde chegou a ser detido após bater de frente com uma censora da ditadura militar nos bastidores, provando que seu temperamento forte não mudava. O clima de inimizade com a direção da Globo durou muito tempo. A paz só foi selada graças à insistência da esposa do animador, Florinda Barbosa. O NaTelinha relata que ela promovia jantares para aproximar os dois e sempre pedia a Boni: “cuida do meu velho”. Após conversas e desabafos, as mágoas ficaram no passado e a volta foi combinada.

Mas quem seria esse homem capaz de peitar a direção da emissora, enfrentar a censura e, dez anos depois, voltar à liderança de audiência como se nada tivesse acontecido? Aquele senhor que, ao assinar o novo contrato, estava com 64 anos, era ninguém menos que José Abelardo Barbosa. Ou, para o grande público, o eterno Chacrinha.

Chacrinha – Divulgação

Ele provou que a idade era apenas um detalhe em sua certidão de nascimento. Com sua buzina na mão, atirando bacalhau para a plateia e usando roupas coloridas, o Velho Guerreiro mostrou que o talento não tem prazo de validade, ditando as regras do entretenimento até chegar aos 70 anos.

O sucesso nas tardes de sábado

A reestreia na Globo, em março de 1982, marcou a junção de seus antigos formatos de calouros e atrações musicais em um só lugar. A nova fase trouxe uma motivação extra. Em entrevista ao jornal O Globo no dia de sua volta, o apresentador confessou que a mudança de horário permitiu realizar um desejo.

“Por incrível que pareça, meus programas são feitos para crianças. Agora, como o programa é à tarde, as crianças a partir de cinco anos de idade poderão participar”, explicou na época. O espaço na grade atendia ao público jovem e garantiu a liderança de ponta a ponta.

O fim da linha e a despedida no palco

O programa funcionou muito bem, mas a saúde do apresentador cobrou um preço alto. Fumante inveterado, que chegava a consumir sete maços de cigarro por dia, Chacrinha já vivia sem um dos pulmões desde 1971. Ao atingir os 70 anos de idade, ele enfrentava um câncer pulmonar agressivo. Familiares notavam sua aparência de extrema fragilidade, mas ele se recusava a deixar o auditório.

Nas últimas semanas de vida, a fraqueza o obrigou a dividir o microfone com humoristas como João Kléber, que o ajudavam a conduzir as gravações. Mesmo doente, gravou um último episódio cerca de 15 dias antes de partir. Em 30 de junho de 1988, o comunicador faleceu após sofrer um infarto e insuficiência respiratória. Dois dias depois, a Globo exibiu sua última gravação, entregando ao público uma despedida real e cravando de vez o seu nome na história da TV.

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