Saúde

Bangladesh tem 900 mortes por suspeita de sarampo – 28/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Há suspeita de que quase 900 pessoas tenham morrido em Bangladesh em decorrência de um surto de sarampo que começou em março. A maioria dos afetados são crianças.

O sarampo é uma das doenças mais infecciosas conhecidas. Pode se espalhar rapidamente quando as taxas de vacinação caem, e o surto em Bangladesh mostra como anos de lacunas na proteção podem rapidamente se transformar em uma grave crise de saúde pública.

O país esperava eliminar o sarampo e a rubéola até 2020. Em vez disso, a pandemia interrompeu a vacinação infantil de rotina, deixando grupos de crianças vulneráveis ao vírus. Agora, outros países onde as taxas de vacinação caíram enfrentam um risco semelhante.

A hesitação vacinal provavelmente também faz parte dessa história. Durante a pandemia da Covid-19, quase metade da população de Bangladesh demonstrava receio de se vacinar. É bem possível que essa mesma desconfiança tenha se estendido à vacina contra sarampo e rubéola, levando muitos pais simplesmente a se recusarem a vacinar os filhos.

O sarampo também tem seus próprios fatores de risco. A pobreza, o nível de escolaridade e a frequência com que as mães comparecem às consultas de pré-natal influenciam a probabilidade de as crianças de uma comunidade serem vacinadas. Somados todos esses fatores, a cobertura vacinal infantil vem caindo há anos —e chegou a apenas 87%.

Entre 15 de março e 6 de setembro de 2026, Bangladesh registrou 92 casos suspeitos de sarampo por 100 mil habitantes e 11 casos confirmados por 100 mil habitantes, com base em uma população nacional estimada em 178 milhões.

Em março de 2026, o grupo consultivo de vacinação de Bangladesh aprovou uma campanha emergencial de vacinação contra sarampo e rubéola para crianças de seis meses a cinco anos, com medidas adicionais para bebês de seis a oito meses.

Normalmente, as crianças recebem duas doses da vacina contra o sarampo. Durante esse surto, porém, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomendou uma dose adicional para todas as crianças da faixa etária-alvo, independentemente de já terem sido vacinadas, a fim de reduzir a transmissão e prevenir casos graves. Isso criou rapidamente uma barreira de imunidade.

A campanha de vacinação começou no início de abril em 30 subdistritos de 18 distritos prioritários e, mais tarde naquele mês, foi ampliada para todo o país. Foi a primeira campanha nacional contra o sarampo desde 2020. Os serviços de vacinação de rotina foram gravemente prejudicados pela pandemia e pela instabilidade política, deixando muitas crianças sem proteção completa.

Além da vacinação, todas as crianças com suspeita ou confirmação de sarampo receberam vitamina A, um tratamento de suporte simples para infecções ativas ou suspeitas que reduz o risco de doença grave e morte. Uma campanha nacional de suplementação de vitamina A já havia sido realizada em 2025, e as equipes consultivas aproveitaram essa experiência no surto de 2026.

A Diretoria-Geral de Serviços de Saúde de Bangladesh (DGHS, na sigla em inglês) mobilizou equipes distritais de resposta rápida, e os hospitais acrescentaram leitos de isolamento e reforçaram as medidas de controle de infecções. As enfermarias pediátricas de alguns hospitais rapidamente ficaram lotadas de crianças com febre alta, erupções cutâneas e dificuldades respiratórias.

As equipes operacionais começaram a produzir boletins epidemiológicos semanais, e as autoridades de saúde publicaram novas diretrizes nacionais e regionais sobre vacinação, atendimento a pacientes e fornecimento de vacinas. Isso ajudou as autoridades locais das oito divisões administrativas do país a coordenar a resposta à medida que o surto se espalhava.

O Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a OMS e a Gavi, aliança global para vacinas, trabalharam com o governo para apoiar a resposta. Organizações como a Save the Children realizaram campanhas de conscientização comunitária, incluindo visitas de porta em porta e ações com grupos de mães e escolas, para incentivar as famílias a cadastrar os filhos e levá-los para serem vacinados.

Mesmo com essa campanha nacional de grande escala, os riscos permanecem. Se as crianças perderem as doses de reforço de rotina, se grandes aglomerações continuarem ou se boatos mantiverem os pais longe dos centros de vacinação, uma nova onda de infecções voltará a bater à porta.

O sarampo é altamente contagioso —uma pessoa infectada pode transmiti-lo a dezenas de outras se quem estiver ao redor não estiver protegido. O vírus se espalha pelo ar por meio da tosse ou do espirro e pode permanecer suspenso, invisível, muito depois de a pessoa que espirrou ter saído do ambiente. É por isso que a vacinação não pode ser irregular: precisa ser ativa, ampla e chegar a todos os cantos de uma comunidade para romper a cadeia de transmissão.

Imunidade coletiva

A pandemia da Covid-19 apresentou a muitas pessoas o termo “imunidade coletiva” —a ideia de que, quando uma parcela suficiente de uma comunidade está imune a uma doença, torna-se difícil para a infecção se espalhar. No caso do sarampo, esse limiar é alto: cerca de 95% da comunidade precisa estar vacinada para manter a doença sob controle.

Até mesmo uma pequena queda nas taxas de vacinação pode deixar grupos de crianças desprotegidas. Um único caso importado pode então ser suficiente para desencadear um surto, e a experiência recente de Bangladesh mostra como esses pequenos focos de vulnerabilidade podem crescer ao longo de vários anos. Padrões semelhantes ocorreram em outros países onde a cobertura vacinal diminuiu.

Alguns países conseguiram eliminar por completo o sarampo e a rubéola —um marco para a saúde pública. Cabo Verde, Maurício e Seychelles foram os primeiros da África Subsaariana a alcançar esse objetivo.

O Zimbábue enfrentou um grande surto de sarampo em 2022. Campanhas intensivas de vacinação ajudaram a conter o vírus, evitar hospitalizações e salvar vidas.

Em 2016, as Américas se tornaram a primeira região da OMS a interromper a transmissão contínua e autóctone do sarampo. Esse status não durou: a Venezuela registrou casos em 2018, seguida pelo Brasil em 2019.

A região recuperou o status de eliminação em 2024, mas voltou a perdê-lo em novembro de 2025, após o surgimento de casos no Canadá. A eliminação é uma grande conquista, mas sua manutenção depende de uma vacinação de rotina contínua, de uma vigilância robusta e da capacidade de responder rapidamente quando ocorrem surtos.

O surto em Bangladesh é um lembrete de que as vacinas só funcionam se as pessoas realmente as receberem. A ciência já fez sua parte: as vacinas contra o sarampo são seguras, eficazes e protegem crianças há décadas. O que falta é confiança, acesso e a urgência necessária para fechar essa lacuna —e, enquanto isso não mudar, surtos como este não serão os últimos.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.

Informação

Folha de São Paulo

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