Boi gordo bate recordes de alta com oferta limitada e dólar forte


Fazer um churrasco está mais caro do que há um ano. E não há, no horizonte, sinais de que isso mudará tão cedo. Ontem (03/11), o indicador do boi gordo do Cepea, centro de estudos ligado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), bateu novo recorde, e alcançou R$ 390 por arroba. Na terça passada (27/10), o indicador já tinha superado o recorde real (deflacionado) mantido por quase seis anos, desde 11 de novembro de 2020, de R$ 385,26, segundo o Cepea.
Oferta restrita, dólar forte e demanda aquecida explicam a alta dos preços do boi — e da carne — , um movimento com potencial impacto inflacionário no Brasil, sem previsão de término.
A menor disponibilidade de animais para abate, resultado do ciclo de baixa da pecuária, é um dos principais motivos para a alta. Após anos enviando vacas para abate, o que reduziu a oferta de bezerros, pecuaristas estão mantendo as fêmeas para reprodução, estimulados pelos preços pagos.
Com isso, caiu o número de animais abatidos e também a produção de carne, o que eleva a demanda pelo boi e o preço do animal. Segundo boletim da Agrifatto, os abates em frigoríficos com registro no Ministério da Agricultura de janeiro a setembro somaram 21 milhões de cabeças, 7,5% abaixo do mesmo período de 2025.
A recente escalada do dólar no Brasil, após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições, foi outro impulso para os preços, segundo a CEO da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel. “A indústria, ao exportar, recebe mais em real, e a nossa carne fica mais barata para o importador”, disse Pimentel ao Valor.
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A receita adicional para o frigorífico exportador pode se transformar em repasse maior ao pecuarista, acrescentou o analista da Scot Consultoria, Pedro Gonçalves, em boletim. “Esse é um dos fatores que ajuda a explicar, um pouco, o fechamento [recente] da B3 nos R$ 400,00 por arroba”, disse.
À oferta limitada e ao câmbio, se soma o retorno da demanda chinesa. Após o preenchimento, no meio do ano, da cota de 1,1 milhão de toneladas estabelecida pela China para o Brasil, sem tarifas adicionais, frigoríficos voltaram a comprar bovinos para produzir carne para os chineses, segundo Pimentel. O objetivo é embarcar o produto a partir da segunda quinzena de novembro para atender a cota de carne bovina de 2027, já que a viagem do Brasil até os portos chineses leva cerca de 40 dias.
Nesse cenário, os cortes de carne bovina já sobem no mercado doméstico, destino de mais de 60% da produção nacional. Na última semana, a média dos preços dos cortes vendidos no varejo aumentou em diversas praças, de 0,3% em Goiás a 1,2% no Rio de Janeiro, segundo levantamento da Scot Consultoria. O preço médio do acém no varejo paulista, em outubro, ficou 20,7% acima de um ano antes; já da picanha caiu até 7,9%. Analistas avaliam, no entanto, que consumidores estão com dificuldades para absorver as altas.
“O atacado e o varejo têm reagido, mas não na mesma proporção do movimento [de alta] do boi, então as margens da indústria e do varejo estão apertando. O consumidor já não tem tantas condições para absorver novos reajustes, os preços estão proibitivos”, disse o analista da Safras & Mercados, Fernando Iglesias.
O fundador e CEO da Scot Consultoria, Alcides Torres, disse não ter observado ainda retração do consumo no varejo. “Tanto é que o preço da carne está firme. A proibição das bets é bem-vinda, vai sobrar mais dinheiro para o consumo de alimentos”, afirmou.
Para os analistas, há espaços para novas altas do boi e potenciais reflexos nos preços da carne. No curto prazo, há um sazonal incremento do consumo de consumo no Brasil, com o pagamento do 13 salário e a criação de empregos temporários. “Novos pontos de máxima devem ser alcançados”, disse Iglesias. “[O preço] vai dar uma barrigada em janeiro, como sempre acontece, em função das férias, mas depois volta a subir de novo”, afirmou Torres.
A demanda por carne bovina dos Estados Unidos, que enfrenta há anos uma forte escassez de gado para abate, é outro fator que deve manter os preços firmes no Brasil. No fim de agosto, o presidente americano, Donald Trump, anunciou uma cota de até 300 mil toneladas de carne bovina para produção de carne moída, isenta de tarifas, pelo período de três meses. A medida que beneficia o Brasil e outros países fornecedores visa reduzir os preços domésticos nos EUA.
“As cotas adicionais vão ajudar [a diminuir a pressão de alta nos EUA], mas a necessidade de importação dos Estados Unidos é muito grande, vão continuar comprando grandes quantidades”, afirmou Iglesias.
Ao longo de 2027, o cenário de alta tampouco muda, tendo em vista a contínua redução do número de fêmeas enviadas para os frigoríficos e dos abates totais, na avaliação dos analistas. “A expectativa do mercado é de cotação da arroba firme ao longo do ano que vem”, disse Torres, da Scot.
Globo Rural



