Brasil falha na alfabetização e candidatos tropeçam em ideologia e omissão

Medalhas decoram a parede revestida com lençóis da casa que mescla alvenaria inacabada e pedaços de madeira na comunidade do Jardim Corisco, extremo norte da cidade de São Paulo. Prêmios conquistados por Kauê, 10, em competições de matemática, xadrez e mancala, jogo de tabuleiro africano que aprendeu na escola. A aptidão para o raciocínio lógico contrasta com a dificuldade na escrita. “Ele lê certo, mas não escreve direito, troca muitas letras”, conta a mãe, a ajudante-geral Ellem Priscila Gomes da Silva, 33.
Estudante do 4º ano do Ensino Fundamental na rede pública, Kauê deveria dominar o sistema alfabético e redigir textos simples com desenvoltura há pelo menos dois anos, segundo diretrizes do Ministério da Educação e da BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Mas alfabetizar na idade certa ainda é um desafio para o Brasil.
A Folha perguntou a seis autoridades em educação quais gargalos devem ser enfrentados primeiro pelo próximo presidente da República. Superar o atraso no letramento foi resposta unânime.
O caminho para acelerar a alfabetização passa por melhorar a atenção à primeira infância (da gestação aos 6 anos), aplicar reforço escolar nos últimos anos de ensino, ampliar a oferta de escolas de tempo integral, preparar professores por meio da formação presencial e prática e utilizar critérios técnicos para preencher cargos de gestão escolar.
Os principais concorrentes ao Planalto têm em seus planos de governo ideias alinhadas às estratégias consensuais entre especialistas consultados. Algumas propostas omitem, entretanto, medidas para enfrentar falhas no sistema. Outras incluem temas que desviam o foco do eleitor para assuntos descolados de práticas pedagógicas reconhecidas.
Amostras dessas incompatibilidades e lacunas podem ser encontradas nos programas dos dois líderes nas pesquisas de intenção de voto.
Lula (PT) deixa de mencionar medidas que garantam nomeações de gestores baseadas no mérito. O presidente também não diz como reverter a excessiva formação de professores por meio de EAD (Ensino a Distância).
Flávio Bolsonaro (PL), por sua vez, propõe criar mais escolas cívico-militares e respeitar o papel das famílias na formação de valores. São pautas sem respaldo técnico, com viés doutrinário e que ocupam espaço de assuntos urgentes.
Faz duas décadas que o país expande investimentos em educação, mas o desempenho continua baixo, segundo Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da USP. De 2005 a 2025, o gasto por aluno na educação básica aumentou 4,5 vezes. O salto foi de R$ 3.450 para R$ 15.581, em valores atualizados em 2024. Nesse mesmo intervalo, a nota média dos estudantes da rede pública nos anos finais do Ensino Fundamental subiu apenas 20%.
Uma das explicações para a ineficiência do gasto são os obstáculos que aparecem antes mesmo de a criança entrar em uma escola, na fase que vai da gestação aos seis anos. Faltam creches, assistência social e psicológica, saneamento básico. Falta o essencial para uma vida digna. “Para que a criança se desenvolva, especialmente as que nasceram em famílias vulneráveis, todas estas partes têm que funcionar”, diz.
Carências não atendidas no início da vida reverberam durante toda a jornada escolar, mostram os dados apresentados pelo pesquisador: as notas dos alunos do Ensino Médio subiram apenas 12% de 2005 a 2025, segundo Naercio.
Kalleb, 9, tropeça nas sílabas ao tentar ler frases simples. Ele estuda na mesma escola que Kauê e também está no 4º ano. Os cadernos têm letras emboladas e incompreensíveis até para a mãe, a dona de casa Ingrid Karem Aparecida Silva, 41. “Olha aqui, não dá para saber se é um ‘a’ ou um ‘b’, ele mistura mesmo”, diz Ingrid.
O estudante diz sentir falta de materiais de apoio e atendimento individual que o ajudem a converter frases impressas nos livros em “letras de mão”. A incompreensão do alfabeto cursivo trava as tentativas de produzir textos ou copiar o que está na lousa. Isso fica ainda mais difícil quando os 40 alunos resolvem falar alto e correr pela sala enquanto a professora coloca o conteúdo no quadro. “Quando vou escrever, já esqueci tudo. Fico muito tempo pensando”, conta.
Alunos como Kauê e Kalleb tendem a chegar ao 9º ano sem dominar as competências esperadas para o 5º ano, afirma Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação. Diante de um ciclo inicial ineficiente, é preciso corrigir defasagens nos anos finais de ensino, segundo a especialista.
Reforço escolar também é uma forma de combate à evasão. É do 6º ao 9º ano que aumentam as reprovações e o desengajamento, afirma Katia Smole, diretora-executiva do Instituto Reúna. Essa etapa “ficou no meio do caminho” entre a alfabetização e o ensino médio. Corrigir essa falha requer uma política nacional de transição do 5º para o 6º ano, diz.
“O Brasil está literalmente estagnado [do 6º ao 9º ano e no Ensino Médio] há mais de duas décadas e, nessa fase, estagnação significa retrocesso”, diz Mozart Neves Ramos, pesquisador da USP.
Ingrid e Ellem, mães de Kalleb e de Kauê, disseram acreditar que o desempenho dos filhos seria melhor se eles passassem mais tempo na escola. Elas estão certas. Aumentar o período de estudo colocaria o Brasil mais perto do desempenho dos países mais bem colocados no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), diz Claudia Costin, ex-diretora global de Educação do Banco Mundial.
No Pisa de 2025, o Brasil ficou na 52ª posição em leitura, na 67ª em ciências e na 71ª em matemática. O ranking tem 91 países e territórios. “No Ensino Fundamental 2 [do 6º ao 9º ano] são quatro horas de aula, em média. Os 40 primeiros colocados no Pisa têm de sete a nove horas de jornada escolar”, compara Claudia.
Faltou água na escola onde estudam Kauê e Kalleb quando a Folha esteve no local. Tubulações tinham sido depredadas. Vândalos entraram no local pelo portão que, com defeito, ficou aberto de madrugada.
Percalços que a maioria dos professores desconhece até o dia em que colocam os pés pela primeira vez na rede pública de ensino. “Oito em cada dez professores são formados [em universidades privadas] por EAD e mesmo os formados em universidades federais têm preparação excessivamente teórica, pouco exposta à prática”, diz Claudia.
Uma das formas de aproximar teoria e prática são os estágios orientados para estudantes de licenciatura, sugere Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da USP. Medidas que devem ser aliadas a melhorias estruturais e salariais. “Ninguém ensina bem se não tiver condições satisfatórias para isso”, afirma.
Folha de São Paulo



