Câncer infantil difere do adulto em origem e sinais – 18/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Quando uma família recebe a notícia de que seu filho tem câncer, uma das primeiras perguntas que costuma surgir é: como isso é possível, se é uma criança?
A primeira coisa importante a saber é que não há culpados. E, em segundo lugar, que a causa do que aconteceu é, em muitos casos, uma incógnita. Nesse momento, além dos cuidados de saúde, o apoio que associações como a Aspanoa ou a Câncer Infantil oferecem às famílias é fundamental.
Embora compartilhem a palavra “câncer”, os tumores infantis não podem ser considerados uma versão antecipada dos tumores em adultos. Sua origem biológica, os tecidos que afetam e sua evolução clínica são diferentes, o que obriga a estudá-los e tratá-los como doenças com identidade própria.
Enquanto nos adultos predominam os cânceres de pulmão, cólon, mama, próstata ou estômago, na infância os mais frequentes são as leucemias, os tumores cerebrais, os linfomas ou os neuroblastomas. Trata-se de patologias diferentes que afetam tecidos distintos e que seguem regras biológicas próprias.
Além disso, o prognóstico costuma ser melhor do que em muitos tumores em adultos. Aproximadamente oito em cada dez crianças diagnosticadas com câncer sobreviverão à doença. Na população adulta, considerando todos os tipos de câncer em conjunto, a sobrevida gira em torno de 50%.
Tudo isso nos obriga a entender o câncer infantil como uma entidade independente. E é aí que surge a primeira pergunta: por que ele aparece?
Hábitos não influenciam
Nos adultos, sabemos que tabaco, álcool, obesidade, certas infecções ou a exposição prolongada a substâncias tóxicas desempenham um papel fundamental no surgimento de muitos tumores. Estima-se que cerca de 40% dos casos em adultos geralmente sejam consequência de décadas de exposição a fatores de risco.
Mas, nas crianças, a situação é bem diferente, já que raramente os cânceres infantis estão relacionados a hábitos ou fatores ambientais acumulados ao longo dos anos. Atualmente, sabemos que cerca de 5% a 10% dos diagnósticos podem ser atribuídos a síndromes hereditárias que predispõem ao desenvolvimento da doença. Mas isso não explica a maioria dos casos. Também não parece fácil atribuí-los simplesmente ao “azar”.
Há cada vez mais evidências de que muitos casos têm origem em alterações genéticas e cromossômicas que surgem durante as primeiras etapas do desenvolvimento — e, em algumas ocasiões, até mesmo antes do nascimento — e que podem permanecer latentes por anos antes de dar origem à doença.
Todas essas diferenças têm consequências diretas na prática clínica, condicionando o diagnóstico, as estratégias terapêuticas e a evolução dos pacientes.
Diferenças em relação aos adultos
Uma criança não é um adulto pequeno. Seu sistema imune está em fase de maturação, seus órgãos estão em desenvolvimento e os tecidos onde o tumor surge são muito diferentes do que esperaríamos em uma pessoa adulta.
A leucemia mieloide aguda é um bom exemplo. Historicamente, os modelos mais utilizados para estudá-la têm sido pacientes idosos, mas a medula óssea de uma criança tem muito pouco a ver com a de uma pessoa de 70 anos. Enquanto no adulto idoso a medula perde progressivamente a atividade hematopoiética (formação e desenvolvimento de células sanguíneas) e é infiltrada pelo tecido adiposo, nas crianças ela constitui um órgão extraordinariamente ativo, projetado para sustentar o crescimento e com alta mineralização.
Há cada vez mais evidências de que esse microambiente condiciona o comportamento das células tumorais e a resposta dos pacientes pediátricos aos tratamentos. Algumas células leucêmicas podem encontrar refúgio em nichos específicos da medula óssea, escapar temporariamente da ação dos medicamentos e, posteriormente, se tornar a origem de uma recidiva, momento em que a taxa de sobrevivência cai rapidamente.
Outra diferença adicional é que os sintomas do câncer infantil costumam ser pouco específicos e podem ser confundidos com os de outras doenças. Enquanto muitas pessoas associam o câncer em adultos ao aparecimento de um nódulo ou à perda repentina de peso, nas crianças os sinais de alerta podem ser muito mais sutis. Febre persistente, cansaço excessivo, infecções recorrentes, hematomas frequentes ou dores ósseas são algumas das manifestações que podem acionar os alarmes.
Sobrevivência não é o único objetivo
Além disso, quando pensamos em tratamentos contra o câncer, costumamos presumir que o objetivo principal é garantir a sobrevivência da pessoa afetada. No entanto, se o paciente for uma criança, o objetivo não se resume apenas à sobrevivência, mas sim a reduzir ao máximo os efeitos associados tanto à doença quanto aos tratamentos utilizados.
Muitas das opções terapêuticas atuais, como a quimioterapia ou a radioterapia, podem causar efeitos colaterais significativos. Em um paciente adulto, essas sequelas podem ter um impacto diferente devido à fase da vida em que a doença surge. Por outro lado, quando a terapia é administrada durante a infância, é inevitável questionar quais serão as consequências décadas mais tarde: isso afetará o crescimento?; condicionará a função cardíaca ou endócrina?; será que poderá limitar a fertilidade ou a possibilidade de ter filhos no futuro?; influenciará a qualidade de vida quando o paciente atingir a idade adulta?
Muitos grupos de pesquisa trabalham para conhecer e compreender essas diferenças, com o objetivo de desenvolver tratamentos cada vez mais precisos e personalizados que permitam aos pacientes não apenas superar a doença, mas também levar uma vida plena e completa. Porque viver não deve se limitar a sobreviver.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler o original.
Informação
Folha de São Paulo



