Candidatos a governador registram planos com trechos copiados e referências de outros estados

Candidatos a governador registraram no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) planos que repetem trechos ou documentos inteiros apresentados por correligionários em outros estados e, em alguns casos, preservam referências locais incompatíveis com a candidatura, mostra levantamento da Folha.
No Democrata, retiradas as identificações dos candidatos e dos estados, a sequência de palavras do plano de Márcio Jambo, que disputa o governo de Alagoas, é idêntica à do documento apresentado por Jeremias Cosmo na eleição de Pernambuco.
No caso da UP (Unidade Popular), o plano de Tayná Miessa Tsushida para o Paraná reproduz blocos do programa apresentado por Serley Leal no Ceará e mantém referências a instituições do estado nordestino.
As propostas defendidas são documentos obrigatórios no pedido de registro de candidatos a presidente, governador e prefeito. Os arquivos ficam disponíveis para consulta pública no sistema da Justiça Eleitoral.
Os planos de Márcio Jambo e Jeremias Cosmo têm sete páginas e seguem a mesma estrutura, da apresentação às considerações finais, com capítulos sobre saúde, educação, segurança, desenvolvimento social, cultura, economia, turismo, mobilidade, transformação digital e habitação.
Não há proposta acrescentada, retirada ou substantivamente adaptada de um estado para o outro.
As alterações se limitam principalmente à substituição de “Pernambuco” por “Alagoas”, de “pernambucanos” por “alagoanos” e do nome de Jeremias Cosmo pelo de Márcio Jambo.
Entre as propostas mantidas integralmente estão a construção de um novo hospital evangélico, a implantação de um hospital para pessoas idosas e a ampliação de escolas militares e técnicas. Também aparecem a criação de um Instituto Estadual de Robótica e Inteligência Artificial, o uso de drones e inteligência artificial na segurança e o estudo para a criação de um banco estadual.
O Hospital Evangélico de Pernambuco consta no CNES (Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde) como hospital geral localizado na capital pernambucana. Nas relações atuais de hospitais gerais e especializados de Alagoas, não aparece estabelecimento com a mesma denominação.
Outra proposta repetida é o Programa Pindorama, citado sete vezes. Sem ser definido, ele aparece como iniciativa para segurança pública, cultura, desenvolvimento regional, gestão pública, transformação digital, planejamento territorial e habitação.
À Folha Jambo disse que a semelhança decorre de pautas comuns do Democrata e de problemas que, segundo ele, se repetem nos dois estados.
“As mesmas dificuldades que Pernambuco tem, Alagoas também tem. […] Não tem muita diferença”, afirmou.
Ao explicar por que seu plano prevê a construção de um “novo” hospital evangélico em Alagoas se o estado não tem nenhum, disse: “Eu sou evangélico e quero colocar as pessoas daqui também para ir para o hospital evangélico”.
Jambo também reclamou da falta de recursos do partido para a sua campanha.
“Estou saindo candidato só com meu nome, pedindo voto, apertando a mão, sem papel, sem dinheiro, sem nada. Eles não mandaram dinheiro”, afirmou.
O candidato disse ter cogitado renunciar por estar desmotivado, mas declarou que pretende permanecer na disputa até o fim. “Não acredito mais em partido. Meu partido é o povo”.
A reprodução entre os planos da UP não abrange os documentos inteiros. O programa de Serley Leal para o Ceará tem 85 páginas, enquanto o de Tayná Miessa para o Paraná tem 23.
A comparação, porém, mostra blocos iguais ou quase iguais em áreas como saúde, cultura, transporte e políticas para mulheres.
No capítulo sobre as mulheres, o plano paranaense promete priorizar a intermediação de mão de obra feminina nas ações do “Sistema Nacional de Emprego — SINE/CE”, com a sigla do Ceará.
O plano do Paraná também propõe clubes de cinema nas escolas em “parceria SEDUC”. A frase aparece da mesma forma no programa cearense. Seduc é a sigla usada pela Secretaria da Educação do Ceará; no Paraná, a pasta é a Secretaria da Educação, identificada em seus sistemas pela sigla SEED.
No capítulo de transportes, os dois planos propõem integrar “ônibus, metrôs e trens”. O Paraná possui projetos de VLT e serviços ferroviários de outras naturezas, mas não possui metrô em operação.
Na área cultural, o programa de Tayná propõe instituir um “sistema estadual de bibliotecas públicas”, chamado no texto de SMBP. O Paraná, porém, já possui um sistema com esse nome, coordenado pela Biblioteca Pública do Paraná.
O mesmo item promete implementar um “plano estadual do livro e da leitura”, abreviado como PML. O instrumento estadual existente é o PELLL (Plano Estadual do Livro, Leitura e Literatura do Paraná), que orienta projetos oficiais de incentivo à leitura.
A origem das siglas mantidas no documento paranaense está em um programa municipal anterior da UP. Em 2024, a legenda propôs para Juazeiro do Norte, no Ceará, a criação de um “sistema municipal de bibliotecas públicas”, abreviado como SMBP, e de um “plano municipal do livro e da leitura”, chamado de PML.
Nos planos estaduais apresentados em 2026 no Ceará e no Paraná, a palavra “municipal” foi substituída por “estadual”, mas as siglas SMBP e PML permaneceram inalteradas. O mesmo bloco conservou a expressão “patrimônio histórico do município”, apesar de tratar de políticas estaduais.
À Folha Tayná afirmou que o documento registrado contém “alguns erros de revisão” e disse que as siglas corretas são SEED e SINE/PR.
“Nosso partido, diferente de outras organizações, é um partido centralizado, portanto, temos uma política unificada nacionalmente, com defesas que são debatidas no diretório nacional com o conjunto dos estado.”
A candidata disse que a proposta para o transporte prevê ampliar a integração entre diferentes modalidades para elevar a oferta e a qualidade do serviço público e fortalecer o direito à cidade.
Sobre o sistema estadual de bibliotecas públicas, afirmou que a proposta busca enfrentar a falta de orçamento e de articulação com outros órgãos públicos e entidades da sociedade civil, problemas que atribuiu ao plano em vigor.
Os documentos desta reportagem estão públicos e disponíveis na ferramenta Pinpoint, do Google. Clique aqui para acessar todas as coleções já publicadas.
Folha de São Paulo


