Ceará investiga facção por tentar interferir na campanha eleitoral

Sábado, 22 de agosto. Naquela noite, a campanha do deputado federal Danilo Forte (PP-CE) se preparava para distribuir material em uma praça de Cidade 2000, bairro da zona leste de Fortaleza. A atividade, porém, não aconteceu. Os militantes foram impedidos, sob a ameaça de homens portando armas de fogo que diziam que o local era controlado por uma facção. Forte apresentou denúncia à Polícia Federal e ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral).
O episódio aconteceu dois dias depois de dois homens terem sido presos em Forquilha, na região metropolitana de Sobral, por suspeita de ameaça e extorsão no contexto eleitoral. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social, eles teriam agido para impedir atividades políticas no município a mando de um integrante do CV (Comando Vermelho), que estaria no Rio de Janeiro.
Nesta quinta-feira (27), oito integrantes do CV foram presos na Operação Arquipélago 2 por crimes em Forquilha e arredores. Um dos suspeitos foi localizado em um hospital carioca.
A ação da Polícia Civil do Ceará, com apoio do órgão no estado do Rio, visava desarticular uma célula da facção no município e investigou também extorsões a políticos locais, com valores de até R$ 300 mil. Os presos na operação são investigados separadamente dos dois homens detidos em 20 de agosto.
A Arquipélago 2 não é a primeira operação a investigar a atuação do CV em eleições no estado. Antes dela, em 11 de agosto, três vereadores foram presos em Sobral, dentro da Operação Omertà, do MPCE (Ministério Público do Ceará), que investiga a suspeita de atuação do CV nos pleitos de 2024 e 2026. Os candidatos pagariam cerca de R$ 60 mil para fazer campanha em bairros do município.
O TRE havia identificado possível interferência da facção nas eleições municipais de 2024. Além da capital e de Sobral, Morada Nova, Canindé, Tejuçuoca e Iguatu haviam captado a atenção do tribunal após denúncias locais. As investigações apontaram ameaças, restrição à circulação e pressão sobre os eleitores.
Embora Santa Quitéria, nas proximidades de Forquilha, não estivesse na lista do TRE em 2024, teve os vencedores da eleição municipal cassados por abuso de poder político e econômico no pleito. Após denúncia do Ministério Público Eleitoral, em dezembro do mesmo ano, o prefeito, José Braga Barrozo, o Braguinha (PSB), e seu vice, Francisco Gardel, o Gardel Padeiro (PP), perderam o mandato.
A decisão foi confirmada pelo TSE em março último. Segundo a investigação, a chapa contou com a estrutura do CV para intimidar eleitores e apoiadores da candidatura adversária.
Localmente e em Brasília, a Justiça Eleitoral tem demonstrado preocupação com a infiltração de facções criminosas nas eleições. Nesta quinta (27), o TSE aprovou o envio de forças federais a 67 municípios cearenses no primeiro turno, em 4 de outubro.
O reforço havia sido pedido pelo TRE, que além disso debateu com a Polícia Federal o planejamento da segurança das eleições, em vista da atuação das organizações criminosas no estado.
O TRE também acolheu pedido do Missão para a proteção do Delegado Huggo Leonardo, seu candidato ao governo do estado. Até o momento, foi a única solicitação formalizada por candidato ou partido no Ceará.
Candidato à reeleição, o governador Elmano de Freitas (PT) disse em postagem no X, na última quarta (26), que confiava no trabalho das forças estaduais, mas que “toda cooperação federal é bem-vinda”. Em Fortaleza, o pleito terá acompanhamento da Polícia Militar.
Ricardo Moura, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará, define a atuação das facções como um exemplo de “governança criminal”. O conceito descreve situações em que moradores precisam lidar com as regras do Estado e, ao mesmo tempo, com aquelas impostas por grupos criminosos.
Moura diz que ainda é preciso fazer um levantamento para saber onde o problema ocorre. Mesmo que o número de municípios e bairros afetados seja pequeno, afirma, as denúncias já acendem um alerta, pois a prática pode mudar o resultado das eleições. “É uma afronta muito grande à democracia.”
Relatos sobre possíveis interferências em Maracanaú e Santana do Acaraú também circularam nas redes sociais nesta semana. Em um dos episódios, houve registros de tiros durante um ato. A Folha procurou candidatos ligados aos eventos para confirmar os casos, mas nenhum deles quis se pronunciar.
Folha de São Paulo



