Cofundador da Anthropic prevê que PIB dos EUA pode crescer 15% em 2030 com ajuda da IA

O centro de estudos Anthropic Institute, de propriedade de Jack Clark, cofundador da Anthropic, publicou nesta semana um relatório com cenários para o crescimento econômico, salários e desemprego nos EUA até 2030.
Ele concedeu entrevista para o Financial Times mostrando o que um dos principais laboratórios de IA do mundo está pensando sobre o futuro imediato da economia, à medida que as capacidades da IA avançam rapidamente.
Entre os principais dados do relatório está a previsão que o PIB (Produto Interno Bruto) pode crescer até 15,4% em 2030 no cenário mais extremo com impacto da IA, enquanto a perspectiva sem IA é de 2%. Já o desemprego em cargos de conhecimento pode atingir 17,9%.
Veja abaixo os principais pontos da conversa com Jack Clark
Quando é publicado um relatório dizendo que poderemos ter um crescimento anual de 15% em 2030, isso vai deixar algumas pessoas agitadas. Quando ele também diz que poderemos ter desemprego de dois dígitos entre os trabalhadores do conhecimento, isso vai assustar outras pessoas. Fiquei curioso: ao elaborar um trabalho como esse, vocês pensam em como ele pode ser recebido? Qual é o impacto pretendido?
Produzimos esse tipo de trabalho movidos por um objetivo de pesquisa pura: descobrir qual é, de fato, a verdade. Eu dirijo o Anthropic Institute, que reúne várias equipes de pesquisa aqui, e nossa missão é pegar informações —ou, neste caso, premissas— às quais apenas os laboratórios de IA têm acesso e levá-las ao público, para que as pessoas possam compreender melhor as diferentes visões que as empresas de IA têm sobre o futuro. Alguns cenários tratam a IA como uma tecnologia normal; em outros, a singularidade parece estar próxima e acontecimentos extremamente significativos afetarão a economia. Então, criamos uma ferramenta que abrange todas essas diferentes visões. Não produzimos esse tipo de trabalho partindo de uma narrativa específica. Estamos compartilhando isso porque, se esses cenários acabarem se concretizando, provavelmente será necessário tomar uma série de decisões diferentes sobre o mundo.
Em termos práticos, nos últimos dois anos —ou no último ano, se estivermos falando apenas do período dos agentes de IA—, o impacto agregado sobre o emprego pode ser considerado positivo, ou certamente não foi inequivocamente negativo, nem mesmo para os cargos mais baixos. Ainda assim, vocês dizem que o desemprego entre os trabalhadores do conhecimento pode chegar a dois dígitos até 2030. O que muda radicalmente do momento atual para daqui a quatro anos?
Estamos falando aqui do cenário extremo —os cenários menos drásticos parecem muito mais normais, com impacto muito mais insignificante ou pequeno sobre o emprego. Extremos tendem a não acontecer, mas costumam chamar a atenção. Então, qual poderia ser a causa? Basicamente, duas coisas. A primeira é saber se haverá mudanças de fase na capacidade dos sistemas de IA que, de repente, alterarão de forma drástica suas características de difusão? Já vimos duas delas no setor. Uma foi na programação, em 2025, quando os sistemas de IA simplesmente ultrapassaram algum limite difícil de definir, e vimos isso mudar a adoção; com o tempo, provavelmente aparecerá em uma série de estatísticas macroeconômicas. Depois, em 2026, sinto-me muito seguro para dizer que vimos uma mudança de fase nas capacidades de segurança cibernética —algo que não era possível prever com antecedência.
Portanto, nos cenários em que acontecimentos realmente significativos ocorreram, acho que se pode presumir que os sistemas de IA ficaram melhores não apenas em tarefas individuais que compõem um emprego, mas em um amplo conjunto que talvez corresponda à maior parte dele. E sabemos que isso parece estar impulsionando o crescimento do que se pode considerar empresas muito competitivas, com poucos funcionários e forte peso das despesas operacionais. Poucas pessoas, grande quantidade de tokens e, ao que tudo indica, muita competitividade. A Stripe está vendo isso; outras empresas também.
Os efeitos sobre o emprego demoram muito mais para aparecer, e as mudanças nele normalmente também vêm acompanhadas de alterações maiores e imprevisíveis na macroeconomia, como uma recessão. Por isso, neste momento, não sabemos realmente de que maneira a IA está afetando o emprego, porque ainda não tivemos esses eventos macroeconômicos mais amplos, que geralmente são os momentos em que as empresas adotam um novo padrão de contratação.
Se eu quisesse ser um pouco provocador neste momento, diria: certo, e o que poderia provocar uma enorme recessão nos próximos dois anos? Talvez o estouro de uma bolha de IA…
Poderia ser quase qualquer coisa. Veja, estamos vivendo em um mundo muito empolgante.
O relatório trazia uma observação sobre como uma das formas pelas quais os ganhos de produtividade da IA poderiam gerar benefícios fora do setor seria a possibilidade de produzir mais rapidamente projetos e licenças para infraestrutura física, permitindo assim que a IA destravasse mais construções. O que me chamou a atenção foi que isso pressupõe implicitamente que o entrave à construção de coisas no Ocidente é a elaboração dos projetos, e não a política e a regulamentação. Da mesma forma, ouvimos muito sobre a cura do câncer, mas imagino que você tenha visto o artigo de Ruxandra Teslo no New York Times sobre como, na biotecnologia, os entraves muitas vezes também são a regulamentação e questões desse tipo. Então, talvez exista o risco de que seus cenários, e boa parte do discurso nesse campo, partam da premissa de que todos os gargalos da humanidade são de inteligência, quando, na verdade, são aquelas questões humanas complicadas em que a IA talvez acabe, no mínimo, entupindo ainda mais os canos?
Li o artigo de Ruxandra, que achei excelente e revoltante em todos os sentidos certos. Artigos excelentes como esse fazem você pensar: certo, talvez em teoria a IA possa automatizar tudo o que envolve ensaios clínicos, mas será que isso realmente vai acontecer? Isso depende de políticas públicas e de todo tipo de outros fatores.
Ampliando o foco para o panorama geral, se estivermos diante de um crescimento anual de 15% em 2030, como será a economia? Quem estará comprando tudo isso quando 12% dos trabalhadores estiverem desempregados?
Não estamos fazendo previsões aqui. Construímos um modelo, mas Ben Bernanke, que integra o Long-Term Benefit Trust [da Anthropic], apresentou uma boa perspectiva sobre isso. Ele disse: “Se você quiser superar um crescimento de 5% do PIB, precisará criar setores inteiramente novos”. Acho que isso faz sentido. Um mundo de crescimento muito elevado pressupõe que a IA tenha ajudado a inventar ou a viabilizar setores completamente novos, o que implica coisas inteiramente novas para as pessoas comprarem, mas também coisas que estejam mudando a maneira como o mundo funciona.
Folha de São Paulo>


