Política

Com Jair Bolsonaro preso, parentes enfrentam obstáculos ao tentar ocupar espaço político

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Nunca antes tantos integrantes da família Bolsonaro disputaram as eleições gerais como em 2026 — caso todos os nomes se confirmem nas próximas semanas, quando os partidos farão o registro oficial das candidaturas. Além da tentativa de Flávio de se alçar à Presidência da República, devem concorrer a cargos no Congresso seus irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan, sua madrasta Michelle, o tio Renato, irmão de Jair Bolsonaro, e Rogéria, ex-­mulher e mãe dos três filhos mais velhos do ex-presidente. Todos tentam capitalizar o amplo estoque de votos da corrente política que leva o nome da família, o bolsonarismo, e preencher o espaço político deixado pela inelegibilidade do capitão da reserva do Exército, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado. O caminho, no entanto, pode não ser tão fácil quanto se imaginava há alguns meses, com obstáculos na Justiça, nas pesquisas eleitorais e até na convivência dentro do clã, historicamente marcado pela beligerância.

CASA NOVA - Carlos: ele trocou o Rio por Santa Catarina, onde enfrenta dificuldades na corrida ao Senado (Guido Jr./Fotoarena/.)

De todos os projetos eleitorais colocados em dúvida, o mais inesperado, sem dúvida, envolve Michelle. Levada aos palanques pelo marido na campanha de 2022, como uma espécie de trunfo para alcançar o eleitorado feminino e evangélico, ela não parou de crescer politicamente. Com a inelegibilidade e prisão de Jair, foi apontada como presidenciável e mostrou muito potencial nas pesquisas. Depois, passou a ser tratada pelo PL como candidata certa ao Senado pelo Distrito Federal, mas a crise desencadeada com Flávio, após vídeo no qual acusou o enteado de desrespeitá-la, encheu de dúvidas seu horizonte político. Ela não embarcou na candidatura do Zero Um, deixou a presidência do PL Mulher e chegou a colocar em dúvida se iria tentar mesmo o Senado. Na quinta-feira 23, o presidenciável fez um aceno para tentar atrair a madrasta para sua campanha, com um vídeo publicado nas redes sociais em que voltou a pedir desculpas, dizendo que “é preciso que todos entrem em campo e me ajudem”. Michelle rapidamente curtiu a publicação.

As polêmicas de Jair Bolsonaro na prisão domiciliar

A indefinição sobre sua candidatura já era refletida nas sondagens eleitorais. Levantamento do Paraná Pesquisas divulgado na última semana a coloca numericamente em segundo lugar na disputa, atrás da senadora Leila do Vôlei (PDT) e pouco à frente da deputada Erika Kokay (PT) — veja o quadro. Pior: aparece com 23,9% de rejeição, o maior índice entre os entrevistados, o que pode ser reflexo de seu rompimento barulhento com Flávio. Considerando-se que há duas vagas em disputa, Michelle ainda tem boas chances, mas o favoritismo dela pode estar em xeque. “O Distrito Federal está bastante dividido”, avalia Murilo Hidalgo, diretor do Paraná Pesquisas.

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Gráfico de barras com resultados de pesquisas eleitorais para Michelle, Carlos e Eduardo Bolsonaro. Michelle aparece em foto preto e branco, boca aberta, olhando para cima. Carlos e Eduardo em fotos coloridas, olhando para frente. O gráfico mostra intenções de voto para o Senado no Distrito Federal, Santa Catarina e São Paulo, com nomes de candidatos e porcentagens

Outro nome dado como eleito nos planos iniciais do bolsonarismo faz campanha longe de casa. Após sete mandatos na Câmara Municipal do Rio, Carlos transferiu o domicílio eleitoral e tentará uma vaga no Senado por Santa Catarina, onde disputa espaço dentro da própria direita. Promete ser uma concorrência dura. Na pesquisa mais recente, feita pelo Instituto de Pesquisa Catarinense (IPC), ele está entre os favoritos, mas em empate técnico com Caroline De Toni (PL) e Esperidião Amin (PP), duas lideranças consolidadas no estado: a primeira é deputada federal, enquanto o segundo cumpre mandato no Senado, foi deputado, prefeito de Florianópolis e governador. A aposta do PL em lançar duas candidaturas ao Senado para atender a Jair Bolsonaro — escanteando Esperidião, que sempre foi aliado da família— abriu uma fissura com o PP, partido que apoiou a candidatura do ex-­presidente em 2022 e agora resiste em repetir o movimento.

Filho mais barulhento do clã, Eduardo foi do franco favoritismo a senador a um personagem praticamente fora do jogo eleitoral. Antes líder em todas as pesquisas para o Senado por São Paulo, o então deputado federal mais votado da história do país (1,8 milhão de votos em 2018) jogou tudo para cima. Mudou-se para os Estados Unidos, passou a buscar sanções a autoridades, em especial do Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de interferir no julgamento de seu pai, e é acusado agora de articulações que resultaram em sanções econômicas do governo Donald Trump ao Brasil. Perdeu o mandato na Câmara por excesso de faltas, está perto de ser demitido do cargo de escrivão da Polícia Federal e foi condenado a quatro anos de prisão pelo STF por tentativa de obstrução de Justiça.

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POLÊMICAS - Eduardo: fora do país, condenado no STF e quase barrado do jogo eleitoral
POLÊMICAS - Eduardo: fora do país, condenado no STF e quase barrado do jogo eleitoral (@Bolsonarosp/Instagram)

Ainda assim, o PL pretende mantê-­lo como primeiro suplente de André do Prado, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e escolha da legenda para disputar o Senado. A estratégia pode pôr em risco a chapa, já que a Justiça Eleitoral analisa titular e suplentes em conjunto e todo o registro pode ser indeferido. Um integrante do partido, no entanto, diz que não há preocupação, uma vez que o suplente pode ser trocado. “A legislação permite a substituição em caso de renúncia ou indeferimento de registro, como seria o caso, até vinte dias antes da votação”, esclarece o advogado eleitoral Alexandre Rollo. Além dos entraves judiciais, o plano tem outra barreira, a preferência popular: André do Prado aparece em quarto lugar nas pesquisas, atrás dos ex-ministros Marina Silva (Rede), Simone Tebet (PSB) e Ricardo Salles (Novo).

Caçula do clã Bolsonaro no mundo político, o filho Zero Quatro do ex-presidente, Jair Renan, vereador em Balneário Camboriú (SC), disputará sua primeira eleição à Câmara Federal. Um dos irmãos de Jair, Renato, será candidato ao mesmo cargo por São Paulo e é visto pelo PL como possível puxador de votos no estado. Há, no entanto, um histórico pouco animador: Renato já concorreu em oito eleições desde 1996 e só foi eleito em uma, para a Câmara de Praia Grande (SP). Também tenta chegar ao Congresso, mesmo que na suplência, Rogéria Bolsonaro, na provável chapa liderada por Márcio Canella (União Brasil) para o Senado pelo Rio de Janeiro. Mas a prisão do ex-prefeito de Belford Roxo por posse ilegal de um fuzil, em investigação da PF sobre corrupção, colocou toda a chapa em dúvida. Caso a composição não se confirme, esta poderá ser a primeira eleição desde a redemocratização sem um Bolsonaro disputando um cargo pelo Rio.

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PLANO - Jair Renan: vereador em Balneário Camboriú, ele mira Brasília
PLANO - Jair Renan: vereador em Balneário Camboriú, ele mira Brasília (@bolsonaro_jr/Instagram)

As dificuldades vão muito além dos problemas externos. O vídeo de Michelle é o maior exemplo de que os obstáculos estão também dentro de casa. Desde a publicação, ela passou a ser alvo de críticas dos irmãos Bolsonaro nas redes sociais. Na última semana, Eduardo disse que a madrasta foi “imatura” e “jamais” poderia ter feito a gravação. Apesar do aceno de Flávio e da possibilidade de reconciliação, uma dúvida vai persistir no clã: se Michelle representa de fato a continuidade do projeto político inaugurado por Jair. “Para os filhos de Bolsonaro, Michelle não é nem considerada da família. Com a ruptura, ela poderia ter um projeto próprio e um enorme exército de mulheres para apoiá-la”, diz o cientista político Eduardo Grin, professor da FGV.

A incerteza sobre o futuro político da família tem um ponto central: a ausência do ex-presidente. Jair fez da política um empreendimento familiar. Sua primeira esposa, Rogéria, foi vereadora do Rio, vaga que perderia para o filho Carlos na primeira disputa após o divórcio, em 2000. À época, Jair disse que a separação se deu porque Rogéria se recusou a obedecer a suas orientações. Sem a figura que centralizava as articulações, abre-se espaço para que outros grupos disputem a hegemonia do campo conservador, avalia o cientista político e professor do Mackenzie Rodrigo Prando. “É uma oportunidade singular para que a direita se afaste do extremismo bolsonarista. Não há vácuo de poder”, diz.

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Um fracasso eleitoral coletivo do clã não significaria o fim do bolsonarismo. A política brasileira raramente admite pontos-finais, como demonstraram as eleições de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência e de Fernando Collor ao Senado após sofrerem duros golpes na vida política. O movimento iniciado pelo ex-presidente segue contando com uma base numerosa de apoiadores. Pela primeira vez, porém, a família pode perder parte relevante de sua representação institucional. Resta saber se essa militância vai se manter mobilizada diante da perspectiva real de um cenário sem um Bolsonaro no centro do poder.

Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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