Comerciante no Recife vota em Flávio ‘porque ele é filho de Bolsonaro’

Quando a reportagem entrou na pequena distribuidora de água no bairro de Boa Viagem, no Recife, perguntando por um eleitor de Flávio Bolsonaro, os três entregadores sentados à porta balançaram a cabeça negativamente. Não é de espantar: na capital pernambucana, Lula teve 55% dos votos válidos no primeiro turno das eleições de 2026, contra 38% do rival.
Mas, do fundo do estabelecimento, José Pedro Santana, 66, se aprumou e respondeu. Votaria em Flávio “porque ele é filho de Bolsonaro”.
Santana é o dono da distribuidora de galões de água, montada em um imóvel térreo que lhe serve também como casa há dez anos, desde que se separou da mulher. Tem dez filhos: quatro homens e seis mulheres, “a maior parte deles é Bolsonaro” também.
Natural de João Alfredo, município do agreste pernambucano com 27 mil habitantes, ele vive na capital do estado desde 1983.
Três anos depois da mudança, votou em Miguel Arraes, então filiado ao PMDB, para o Governo de Pernambuco. Foi a última vez que escolheu um candidato de esquerda, lembra. “Eu tinha 18 anos, não sabia das coisas. Depois fui vendo como é esquerda e direita.”
Perguntado se o Brasil tinha evoluído de 1986 para cá, Santana assentiu. “Melhorou muita coisa mesmo. Abriu as portas para todo mundo; hoje ninguém passa fome”, diz. Depois, hesitou: “Você vê que tem muito mendigo aí pela rua pedindo… Agora, no tempo de Bolsonaro, não, era todo mundo trabalhando”.
Dados do IBGE mostram que a taxa de desemprego do último trimestre da gestão de Jair Bolsonaro estava em 7,9%. Em agosto de 2026, o mesmo índice indicava 5,3%, o menor registrado para o trimestre desde 2012, quando se iniciou a série histórica.
Santana reclamou do valor dos benefícios sociais. Disse que recebeu o auxílio emergencial durante a pandemia, “graças ao Bolsonaro”. “O Lula dá Bolsa Família, mas como é que um casal, um ser humano vai viver com R$ 600? Me diz?! Não tem como não, menina. Lula quer viver com R$ 600? Não quer”, esbravejou.
O comerciante atribuiu a criação do Bolsa Família a Fernando Henrique Cardoso, que governou o país de 1995 a 2002. “Mas era só a metade, a metadezinha [do valor]. Quem aumentou? Jair Messias Bolsonaro.”
Questionado sobre o que gosta mais em Flávio Bolsonaro, citou a condição de herdeiro político. “Gosto de tudo. É um camarada com uma cabeça boa, fala muito bem, é filho de Bolsonaro. Pé de fruta bom bota fruta boa.”
Durante a entrevista, realizada antes do primeiro turno, Santana afirmou que não estava pensando em candidatos para outros cargos. “Eu só vou votar na turma que for de Flávio Bolsonaro. Se for um deputado Bolsonaro, eu voto. O prefeito que for de Bolsonaro, eu voto. O governador que for Bolsonaro, eu voto”, disse.
“Só na turma da direita. Turma da esquerda, chuva pra eles, entendeu?”, ri.
Em um breve contato por telefone depois do primeiro turno, em que Flávio obteve 47,03% dos votos válidos, e Lula, 45,16%, Santana disse que confiava na vitória do candidato do PL na segunda votação.
O pequeno empresário não acredita que Lula tenha sido vitorioso nas urnas nas eleições passadas de 2022. “Todo mundo estava vendo que ia ser Bolsonaro e, de repente, Lula”, diz. “Lula nunca ganhou. Eu sei, você sabe, todo mundo sabe que Lula nunca ganhou. Lula tá lá por motivo dos companheiros dele, mas não que ele ganhou pelo voto.”
A tese falsa serviu como motivação para os ataques à sede dos três Poderes, em Brasília, no 8 de janeiro de 2023.
Santana discorda. “Todo mundo viu isso, não é possível. Hoje tem internet. Eu vejo no YouTube, as mensagens, as coisas, os vídeos, tudinho.”
Folha de São Paulo



