São Luís e Região

como goianos compram araras e répteis online

Considerado o terceiro comércio ilegal mais rentável do mundo, responsável por movimentar mais de US$ 20 bilhões de dólares anualmente, o tráfico de animais rompeu a barreira física e entrou no meio digital um novo modelo de negócio. Aves, mamíferos, anfíbios e até répteis exóticos – e que correm risco de extinção – são vendidos como artigos de luxo por meio de plataformas como Telegram, Facebook e WhatsApp. Reportagem exclusiva do Mais Goías teve acesso a alguns desses grupos restritos, como o denominado “Exóticos-DF”, que reúne 484 membros e publicações acerca de comércio ilegal de animais envolvendo goianos dos dois lados da negociação.

A reportagem acompanhou os bastidores e simulou negociação com com traficantes de animais atuantes em todas as regiões do Brasil, inclusive, em Goiás. O valor dos “produtos” variam de acordo com a raridade de cada espécie. Os preços iniciais, por exemplo, vão de R$ 80 a R$ 20 mil. “O casal de Araras Canindé consigo fazer para você por R$ 1,2 mil. O casal de Arara Azul é R$ 8 mil. O casal de Macaco Prego, R$ 10 mil. O Bugio Ruivo é R$ 7 mil, mas preciso de um prazo de 10 dias para o meu fornecedor capturar o baby”, afirma um dos criminosos que se identificou como Leo, morador de Itumbiara. 

LEIA TAMBÉM

Leo, no entanto, pede 50% do valor adiantado e afirma: “Esse preço é sem documento, com documento os preços mudam. Aí é com você, eu não tiro dinheiro do meu bolso nem fudendo”, ressalta.

Tráfico de animais silvestres

Entre as espécies mais comuns anunciadas no espaço cibernético e pelo próprio Leo estão: papagaios, pássaros de canto, tartarugas e jabutis, araras vermelhas e azuis, além da famosa arara canindé. Porém, para os clientes que procuram animais mais exóticos, há filhotes de jacaré, primatas (ameaçados de extinção), cobras (sem veneno e peçonhentas de outros países), iguanas, aranhas e camaleões.

O Brasil, por ser um dos países mais ricos no quesito biodiversidade, está intimamente ligado ao tráfico de animais, contribuindo com 10% das vendas de animais silvestres em todo o mundo.Por ano, 38 milhões de animais são retirados das florestas e matas. Destes, cerca de 4 milhões são comercializados, de acordo com a Organização Social de Interesse Público (Oscip) Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres (Renctas). As regiões com maior índice de tráfico são: Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

“O tráfico de animais é caracterizado por toda conduta ilegal envolvendo a captura, transporte, comercialização, guarda ou exportação de animais silvestres sem autorização dos órgãos ambientais competentes. Não é só vender, capturar ou manter um animal silvestre ilegalmente em casa já pode configurar crime. As aves lideram disparado, principalmente por causa do canto e da facilidade de transporte”, explica a advogada Thaya Leal.

Conforme Thaya, a venda de um animal silvestre em risco de extinção pode ter a pena de até um ano dobrada, passando a dois anos de detenção devido ao agravamento do ponto de vista jurídico. A quantidade de animais ou envolvimento em organização criminosa, como observado com o traficante Leo, também é um agravante.

“O Brasil tem uma das maiores biodiversidades do mundo, com muitas espécies raras e exóticas. Isso gera grande interesse no mercado ilegal internacional, especialmente na Europa, Ásia e Estados Unidos. Além disso, algumas espécies brasileiras têm cores vibrantes e comportamentos únicos, o que aumenta seu valor no mercado clandestino”, reforça.

Falsificação de documentos 

Além dos animais, os criminosos também oferecem licenças ambientais falsificadas. Ao serem perguntados pelo repórter sobre procedência do documento, eles afirmam que é de “qualidade”, sendo feito por um servidor do próprio Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Esse suposto servidor, seria um conhecido dos criminosos que também possui atuação no mundo do tráfico de animais. 

Entretanto, a prática de venda e compra desse tipo de documento se enquadra em pelo menos dois delitos, de acordo com o advogado Tadeu Bastos: crime ambiental e falsidade ideológica (de documento público ou privado) – cujas penas, se somadas, podem ultrapassar os 6 anos de prisão.

Animais silvestres legalizados

Ainda de acordo com o Tadeu, a única forma de possuir uma espécie silvestre legalizada é comprá-la de um criadouro ou estabelecimento comercial autorizado pelo Ibama ou pelo órgão estadual ou distrital competente. No entanto, há requisitos como: 

  • Animais silvestres precisam ser adquiridos, exclusivamente, por criadouro ou outro estabelecimento autorizado pelo Ibama. Ao adquirir o animal, o comprador recebe a nota fiscal com os detalhes como espécie e marcação do animal, e também recebe um certificado de origem com os mesmos dados.  
  • Os animais precisam de marcação individual, podendo ser feito com microchip ou em caso de aves uma anilha na pata. Futuros filhotes nascidos na residência são considerados ilegais, e devem ser entregues aos centros de triagem e reabilitação de animais silvestres (Cetas).
Arara azul resgatada pelo Ibama (Foto: Gov.br/Ibama)

“O processo começa com o cadastro online no SisFauna, onde o interessado informa seus dados, a localização do futuro empreendimento e as espécies que pretende criar. O Ibama tem prazo de 90 dias para analisar e emitir a AI após o recebimento de toda a documentação. Com a AI em mãos, o empreendedor constrói ou adapta as instalações e cadastra os recintos no próprio SisFauna. Feito isso, o Ibama realiza uma vistoria técnica no local para verificar se tudo está conforme o projeto e, então, libera a solicitação da Autorização de Manejo (AM), que é o documento final”, concluiu.


Mais Goiás

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo