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conheça a história por trás da origem de Trindade

Capital da Fé

Conheça a história de fé, doação, disputas e conflitos por trás do surgimento da Capital da Fé

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Igreja celebra 186 anos da Romaria do Divino Pai Eterno, mas pesquisadores apontam que a devoção surgiu por volta da década de 1840 (Foto: Museu Virtual de Trindade)

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Embora a Igreja Católica e o site oficial do Santuário Basílica do Divino Pai Eterno celebrem neste ano os 186 anos da Romaria do Divino Pai Eterno, historiadores afirmam que não existe documentação capaz de determinar com precisão a data de início da peregrinação. Segundo o historiador Bento Fleury, PhD em Geografia e autor de diversos livros sobre Trindade, a devoção surgiu por volta da década de 1840, ainda no então povoado rural de Barro Preto. “A gente não consegue dar uma data certa. O que se sabe é que foi por volta de 1840. Portanto, não é possível afirmar que a romaria completa exatamente 186 anos ou qualquer outro número preciso”, explica.

Naquele período, o mineiro Constantino Xavier de Maria e sua esposa, Ana Rosa de Oliveira, já reuniam vizinhos e conhecidos para rezar diante da imagem da Santíssima Trindade. Aos poucos, as orações domésticas deixaram de ser um ato familiar e passaram a atrair cada vez mais fiéis da região. O crescimento da peregrinação levou Ana Rosa, após a morte de Constantino, a doar uma área de sua propriedade ao patrimônio do Divino Pai Eterno. O terreno abrangia uma extensa faixa entre o Ribeirão Fazendinha e o Morro da Cruz das Almas, local onde atualmente está a Basílica do Divino Pai Eterno.

Trindade do Barro Preto de Goiás

Com a aceitação da doação pela Mitra de Goiás, a Igreja Católica reconheceu formalmente a importância daquela manifestação de fé. Nascia, então, o Arraial da Santíssima Trindade do Barro Preto de Goiás e uma nova capela, agora coberta por telhas, passou a receber os devotos. Para Bento Fleury, esse momento representa um divisor de águas na história regional. “Trindade passou a existir por causa da romaria. Era uma localidade pequena, sem expressão econômica e dependente da agricultura e da pecuária. Foi a romaria que se tornou a grande locomotiva do desenvolvimento da cidade.”

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Fé e história marcam a trajetória da Romaria do Divino Pai Eterno desde o século XIX (Foto: Museu Virtual de Trindade)

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A institucionalização da romaria

À medida que crescia, a romaria deixou de ser apenas uma manifestação popular e passou a movimentar recursos cada vez maiores. No fim do século XIX, a festa já era administrada por uma comissão leiga de moradores.

A situação chamou a atenção de Dom Eduardo Duarte da Silva, que assumiu o bispado de Goiás em 1890. Segundo Bento Fleury, o religioso defendia que uma peregrinação daquela dimensão deveria ficar sob responsabilidade direta da Igreja.

Foi então que o bispo buscou na Baviera, na Alemanha, a Congregação do Santíssimo Redentor, posteriormente conhecida como Congregação Redentorista, para assumir a administração da Romaria do Divino Pai Eterno e também da Romaria de Muquém, em Niquelândia.

Os redentoristas chegaram à região em 1894, marco considerado por historiadores como o início da institucionalização da festa.

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A transição da romaria para controle institucional gerou tensão entre lideranças locais e a Igreja (Foto: Museu Virtual de Trindade)

Disputas e até ameaças de morte

A transição, no entanto, esteve longe de ser pacífica. A administração da romaria provocou um intenso conflito político e religioso.

Na época, o chefe político regional, o coronel Anacleto Gonçalves de Almeida, se opunha à transferência da gestão e dos recursos da festa para os padres redentoristas. A disputa se intensificou a ponto de envolver ameaças de morte e uma grave crise entre lideranças civis e religiosas.

Os redentoristas chegaram a assumir o santuário entre 1894 e 1899, mas acabaram deixando a cidade após a escalada do conflito.

Em meio à crise, os religiosos passaram a residir em Campinas, onde construíram a Igreja de São José e o convento que posteriormente abrigaria a antiga Escola de Música Gustavo Ritter. Somente décadas depois, já nos anos 1920, eles se estabeleceram definitivamente em Trindade.

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A devoção ao Divino Pai Eterno ganhou estrutura institucional e consolidou definitivamente Trindade (Foto: Bento Fleury /Museu virtual)

Da Romaria ao município de Trindade

Enquanto a devoção se consolidava, a própria organização territorial da região também mudava. Em 1910, Barro Preto deixou de ser apenas um povoado e tornou-se distrito de Campinas.

A emancipação política veio em 16 de julho de 1920, quando o distrito passou a se chamar oficialmente Trindade e ganhou Câmara Municipal, administração própria e, alguns anos depois, comarca judicial.

A partir daí, a cidade cresceu lentamente, impulsionada principalmente pela força da romaria. “A história de Trindade e a história da Romaria do Divino Pai Eterno são praticamente inseparáveis. A cidade nasceu, cresceu e se transformou por causa da peregrinação”, resume Bento Fleury.

Hoje, quase dois séculos depois de seu surgimento em algum momento da década de 1840, a Romaria do Divino Pai Eterno continua sem uma data de nascimento precisamente definida. O que os historiadores afirmam com segurança é que aquela manifestação de fé iniciada entre moradores do antigo Barro Preto se tornou a força motriz responsável por transformar uma pequena comunidade rural em um dos maiores centros de peregrinação católica do país.

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