Corrida psicodélica entra na reta final da regulamentação

Na segunda-feira (2) o Instituto Usona, entidade sem fins lucrativos fundada pelo bilionário Bill Linton, formalizou à agência de fármacos FDA pedido de licença para psilocibina no tratamento de depressão. Um dia depois, a empresa concorrente Compass Pathways anunciou que fará o mesmo em duas semanas.
Com isso, torna-se provável que versões sintéticas do psicodélico originalmente obtido de cogumelos “mágicos” sejam aprovadas pelo órgão regulador dos EUA ainda neste ano, ou no início de 2027. A competição entre os grupos prosseguirá então no campo das estratégias de comercialização e das patentes, cujo resultado definirá os preços da terapia e, portanto, quem terá acesso a ela.
Há muita expectativa por tratamentos alternativos para depressão, mal que aflige mais de 300 milhões pessoas no mundo e não conhece inovação farmacológica significativa há quase meio século. Um terço ou mais dos que sofrem com o transtorno não obtêm melhora com os antidepressivos disponíveis, e psicodélicos como psilocibina, DMT e LSD são hoje a maior promessa de avanço clínico.
Além de surgir como opção para enfrentar essa depressão resistente a tratamento, substâncias psicodélicas exibem outras vantagens sobre antidepressivos convencionais. Ensaios clínicos indicam que a redução de sintomas é imediata, enquanto estes podem demorar semanas para surtir efeito; além disso, o benefício terapêutico não depende de uso contínuo, pois a melhora pode ocorrer com uma única dose e permanecer por dias, semanas ou até meses.
As notícias do Usona e da Compass não foram as únicas a animar a semana. Três meses depois de ser comprada pela Eli Lilly por US$ 2,8 bilhões, a AtaiBeckley publicou, no periódico médico Jama, bons resultados da droga BPL-003 contra depressão obtidos em ensaio clínico duplo cego com 193 voluntários.
BPL-003 é uma formulação inalável do chamado veneno do sapo-do-rio-colorado (Incillius alvarius), a substância 5-MeO-DMT (mebufotenina), também conhecida por “bufo”. Como seu efeito é breve, o paciente poderia ser dispensado da sessão em duas horas, enquanto só a viagem de psilocibina dura quatro horas ou mais —algo bem complicado e caro de implantar em clínicas, pela necessidade de supervisão contínua por especialistas treinados.
O produto concorreria com o medicamento Spravato patenteado pela Janssen, o anestésico dissociativo escetamina em spray nasal que tem a desvantagem de necessitar várias aplicações mensais para reduzir a depressão, além do preço proibitivo (no Brasil, pode chegar a R$ 10 mil por aplicação). A mesma lógica de encurtar sessões preside testes clínicos com DMT inalada realizados no Instituto do Cérebro da UFRN, que ainda está distante de regulamentação.
Embora o Usona tenha apresentado pedido de licença primeiro, a Compass poderá exibir fôlego para ultrapassar o instituto na corrida pelo mercado bilionário. A empresa conta com dois recursos de reserva: grandes investimentos na futura rede de clínicas para aplicar sua psilocibina (COMP360) e uma série de patentes que poderão dificultar a venda do produto do competidor sem fins lucrativos.
Há dúvidas, porém, sobre a eficácia da propriedade intelectual da Compass em travar a droga do Usona. A psilocibina é um produto natural e, por isso, não patenteável como tal. As patentes da empresa cobrem sua formulação e a maneira de produzi-la ou administrá-la, o que não necessariamente se aplicaria ao medicamento do instituto.
O Usona, como não tem fins lucrativos e se sustenta com doações filantrópicas, não precisa propagandear planos para atrair investidores. Não se conhece, por exemplo, sua estratégia para comercialização, se já tem parceiros em vista para o lançamento e quais seriam os preços —especula-se que sua psilocibina seria mais barata que a da Compass, além de estar registrada para um transtorno mais abrangente (depressão maior) que o visado pela empresa (depressão resistente, ou refratária).
Foi, como se vê, uma semana cheia de fatos relevantes para o campo dos psicodélicos e da saúde mental. Tão relevantes que, por coincidência ou não, o prestigiado periódico científico Nature publicou uma reportagem e um editorial sobre essa fronteira da psiquiatria e da psicoterapia.
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Informação
Folha de São Paulo



