Deputada bolsonarista usa PL da Misoginia para atacar Janja na Câmara

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A deputada de oposição Julia Zanatta (PL-SC) afirmou em discurso na tribuna da Câmara dos Deputados nesta terça-feira, 14, que a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, seria beneficiada diretamente pelo PL da Misoginia — não pelo teor do projeto, que visa à proteção das mulheres contra a cultura do machismo, mas por uma questão financeira. Na visão da parlamentar, Janja teria seus gastos exorbitantes em viagens internacionais blindados de crítica pelo projeto de lei.
“Para o que vai valer [O PL da Misoginia]? A gente já descobriu. Eu adoro quando eles fazem o ‘sincericídio’. A Janja entregou tudo. Entregou o jogo. Eles querem aprovar o PL da Misoginia para censurar — isso eu já tinha falado. Mas a Janja está muito interessada porque, aí, vocês não vão poder mais criticar os gastos, mais de 117 milhões de reais de gastos da senhora Janja sem ter cargo [eletivo]. Ela não foi eleita para nada. [Mas tem] Gabinete paralelo, assessores, diárias em hotéis de luxo, etc. Ela diz que é ‘misoginia pura’ a gente fiscalizar”, disse Zanatta.
A deputada se referiu a um comentário de Janja fez durante entrevista para o jornal Folha de S.Paulo e o portal de notícias UOL ontem, no qual ela disse que as críticas aos gastos que ela e o presidente Lula têm em viagens internacionais são “misoginia pura“, por atribuírem tudo apenas à figura dela. “Nunca falamos sobre eu gastar demais. Às vezes, colocam todos os gastos da comitiva de uma viagem na minha conta. Não posso andar de econômica, tem que ser executiva, é questão de segurança. Por mim, eu não andava com segurança, mas a PF tem que estar comigo. Tem alguns regramentos que eu tenho que seguir”, disse a primeira-dama.
Ainda no discurso na tribuna, Julia Zanatta deduziu que as parlamentares governistas estariam “desesperadas” para tentar aprovar o PL da Misoginia agora que o fim do prazo acordado para a votação está chegando ao final. “Eles estão desesperados porque esse PL não teve apelo popular nenhum (…). Eles dizem ‘quem estiver contra está contra as mulheres’. Ninguém cai mais nesse papinho. Vocês querem é perseguir, inclusive as mulheres que pensem diferente da caixinha ideológica de vocês”, disse.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), havia assumido um compromisso com a bancada feminina da Casa para colocar o PL da Misoginia para votação no plenário até amanhã, último dia de trabalho no Congresso antes do recesso parlamentar. No entanto, diante das investidas do Supremo Tribunal Federal contra as emendas e o orçamento secreto — que têm mobilizado os presidentes da Câmara e do Senado em torno de outra agenda — e também em função de uma grande pressão da bancada evangélica e de parlamentares do Centrão, o projeto pode não ir à votação antes das eleições, correndo o risco de a matéria nem ser apreciada mais em 2026.
Em entrevista coletiva de imprensa, também na tarde desta terça, a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), que é relatora do projeto, falou sobre a possibilidade do projeto não ser pautado e também sobre todas as mudanças feitas no texto para que fosse possível chegar a um consenso entre parlamentares de diferentes campos ideológicos. “A nossa luta não vai parar. Foi feito um compromisso (…) de que a gente votaria esta matéria antes do recesso. E é por isso que nós estamos aqui há tantos meses, construindo um consenso possível. O texto que eu apresentei e que a gente está elaborando não é o texto dos meus sonhos e acho que não é o dos sonhos de nenhuma das mulheres que está aqui, mas é o texto possível, para que a gente possa deixar diferenças pequenas de lado, deixar eleições de lado, e pautar este projeto”, disse Tabata.
Ao comentar diretamente os objetivos do projeto, Tabata desmentiu Zanatta sobre os benefícios a Janja e formatos de evitar críticas políticas. Ela explicou que o projeto visa proteger as vidas das mulheres e punir pessoas que ensinam nas redes sociais como agredir e abusar sexualmente.
“O que ouvi hoje em conversas fechadas é que as pessoas concordam, que o texto avançou, que estamos caminhando para o consenso. Mas tem a narrativa, a eleição, a fake news na internet. Desculpa, mas nada tem um peso maior do que a vida de uma mulher (…). Até hoje não foram punidos aqueles que disseram [numa trend de rede social] que mulher deveria levar um soco, uma porrada, uma voadora, nem aqueles que ensinaram como dopar e estuprar. É isso que a gente quer combater. Sempre me perguntam sobre a liberdade de expressão e sobre as piadas, e eu sempre respondo: se você está falando de comentários ultrapassados e babacas do tipo ‘a mulher está nervosinha’, fique tranquilo, esse projeto de lei não é para [atingir] você. Mas para quem fala que mulher tem que ser estuprada, apanhar e humilhada, não tem liberdade de expressão, não tem liberdade religiosa, não tem nada que deveria proteger esse discurso, porque crime é crime”, finalizou a socialista.
Eu tive que ir pesquisar o que é “betinha” porque a relatora do PL da Misoginia citou na coletiva que adolescentes estão se chamando assim 😂 pic.twitter.com/cCMMLrNim4
— Júlia Zanatta (@apropriajulia) July 14, 2026
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