Política

Derrite é a Bárbara Streisand do Banco Master

Na teia de relações de Daniel Vorcaro em Brasília, havia nomes dos três Poderes, com pesos muito diferentes na história. Guilherme Derrite talvez passasse batido se não tivesse pedido à Justiça a retirada de uma publicação do Estadão sobre sua presença nessa rede. A liminar foi negada pela 8ª Vara Cível de Brasília, que viu risco de censura prévia. Ao tentar apagar a menção, Derrite produziu uma nova informação: não apenas aparecia no mapeamento, mas tentava impedir que essa aparição ganhasse destaque.

O que era apenas mais um numa longa lista de nomes, ganhou alguma atenção por sua própria ação. Esse é o efeito Streisand, expressão nascida quando Barbra Streisand tentou tirar da internet uma foto aérea de sua casa em Malibu. A imagem que quase não circulava virou curiosidade global por causa da própria ação judicial. A política às vezes tem essa delicadeza de rinoceronte: tenta pisar no assunto e deixa pegadas maiores.

É claro que, uma vez que jornais podem cometer erros, pessoas públicas têm o direito de contestar reportagens, pedir correções e até recorrer à Justiça. Há, porém, diferença entre disputar uma informação e tentar fazê-la desaparecer. Ainda, outro episódio ligado ao entorno de Vorcaro já havia levado essa disputa à Folha. Em janeiro, um juiz do Amazonas determinou a retirada de uma reportagem sobre a atuação de um diretor do Incra em um projeto de créditos de carbono ligado a parentes do banqueiro, além de proibir novas publicações que associam o diretor ao caso. Em março, Cármen Lúcia suspendeu a liminar e afirmou que a censura determinada pelo Judiciário é “mais grave e afrontosa aos direitos fundamentais”.

A repetição desses episódios mostra que o padrão ultrapassa o Banco Master: desde 2014, foram registradas 6.018 ações judiciais contra a divulgação de informações, 3.690 delas movidas por políticos, segundo o Ctrl+X, projeto da Abraji que monitora tentativas de retirada de conteúdo e assédio judicial. O Monitor de Assédio Judicial, da mesma entidade, contabiliza 784 processos em 126 casos contra jornalistas nos últimos 11 anos. Quando pedidos de retirada, indenizações desproporcionais e proibições de novas publicações se acumulam, a judicialização passa a ser parte dos custos de publicação.

Esse custo não depende de vitória judicial para produzir efeito: Se o processo consome tempo, dinheiro e energia, já impõe pressão; leva jornalistas e veículos a calcular o risco de sustentar uma pauta. Em artigo na Folha, Carlos Gaio, do Media Defence, e Ana Carolina Moreno, presidente da Abraji, trataram esse uso da lei como uma forma sofisticada de repressão justamente porque preserva a aparência de devido processo enquanto empurra a imprensa para a autocensura.

Quando a contenção recebe o carimbo do próprio Judiciário, o risco muda de escala. Em 2019, Alexandre de Moraes determinou que Crusoé e O Antagonista retirassem do ar a reportagem “O amigo do amigo de meu pai”, decisão depois revogada. A ordem importava menos como novo exemplo de viralização do que como demonstração do risco institucional envolvido: quando a censura passa por uma decisão judicial, a disputa deixa de ser apenas entre personagem público e imprensa e passa a envolver o poder do Estado sobre o que pode ser lido.

A tentativa de controlar a narrativa falha quando vira ela própria um fato. Processos e liminares impõem custos à imprensa, mas, quando o esforço para esconder se torna visível, também produzem consequências: o pedido de remoção vira notícia, e a tentativa de sair da história passa a ser a razão de entrar nela.


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Folha de São Paulo

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