Saúde

Em novo livro, Maria Homem defende liderança menos individual e mais coletiva

Quando se fala em liderança, é provável pensar em uma única figura que concentra a capacidade de apontar um caminho —seja um chefe, um governante ou qualquer outro tipo de autoridade. Para a psicanalista Maria Homem, porém, esse modelo já não dá conta do mundo contemporâneo.

É dessa constatação que nasce seu novo livro, “Procura-se uma Nova Liderança Para um Novo Tempo”.

A obra surge em um momento observado pela autora como de profunda transformação. Se crises econômicas, conflitos geopolíticos, mudanças tecnológicas e desafios ambientais vêm alterando as formas de viver e trabalhar, passa a ser necessário também revisar as estruturas de poder que organizam essas atividades.

“Eu estou discutindo mais do que liderança no trabalho ou na política, é um ensaio sobre uma mudança no tempo que a gente vive. O século 21 é, sem dúvida, uma mudança para um novo paradigma”, afirma.

Apesar de enumeradas na obra, essas mudanças parecem inumeráveis. “Procura-se” passeia pela crise da autoridade, polarização política e as possibilidades de cocriação com a inteligência artificial. Fala também sobre noções de propósito, perda de sentido e volatilidade.

Enquanto essas transformações externas inspiraram a escrita, foram as mudanças na vida pessoal que a incentivaram a escrever. Como conta a autora, seu mundo ficou de “pernas para o ar” depois da morte do marido, o também psicanalista Contardo Calligaris, em 2021.

Convidada para atuar como professora visitante na faculdade americana de Harvard em 2023, Maria Homem encontrou por lá as teorias que nomeiam o que já estava sentindo e percebendo.

Liderar, segundo ela, não é apenas exercer autoridade sobre outras pessoas, mas assumir responsabilidade sobre a própria vida e os espaços que cada um habita. Nesse sentido, todos seriam líderes em alguma medida.

“É um livro sobre poder, sobre a função do poder e sobre como a gente poderia refazer um pacto social profundo para que todos fôssemos sujeitos.”

A autora recorre ao exemplo dos pássaros migratórios que se revezam na ponta da formação ao longo dos meses em que viajam. Para ela, o mundo atual exige modelos mais distribuídos de tomada de decisão, nos quais a função de liderança circula entre diferentes pessoas conforme as necessidades do grupo.

A figura do líder salvador —apontada por Maria Homem como “profundamente infantil”—, então, cai por terra. A nova liderança não corresponde a uma pessoa ideal, nem mesmo se chamaria de líder.

O que a obra propõe é uma liderança mais consciente de seus limites, capaz de compartilhar poder e reconhecer a complexidade do mundo contemporâneo.

“O livro vem da ideia de uma nova liderança para um novo tempo, mas é, acima de tudo, sobre uma nova consciência para um novo tempo.”

Informação

Folha de São Paulo

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