El Niño pode afetar plantio de soja e qualidade do trigo no Brasil, aponta TAG


A atuação do El Niño deve trazer impactos distintos para a agricultura brasileira ao longo da primavera e do verão 2026/27, com excesso de chuva no Sul, distribuição irregular das precipitações no Centro-Oeste e calor e chuva abaixo do normal em áreas do Sudeste e Nordeste. Uma análise da TAG Investimentos aponta que os efeitos do fenômeno já começaram a aparecer no país e podem ganhar intensidade entre setembro de 2026 e março de 2027.
Segundo a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), o El Niño deve permanecer presente durante todo o verão. As probabilidades oficiais utilizadas pela análise indicam 100% de chance de ocorrência do fenômeno entre julho de 2026 e janeiro de 2027, 97% entre fevereiro e abril e 82% entre março e maio.
Para o trimestre de outubro a dezembro, há 95% de probabilidade de um evento classificado como muito forte e 69% de chance de a intensidade atingir um patamar considerado histórico.
Impactos no agro
No Sul, onde o fenômeno costuma favorecer chuvas acima da média, o excesso de umidade pode dificultar o avanço das atividades agrícolas. A análise aponta risco de encharcamento do solo, doenças fúngicas e perdas em cereais de inverno, além de dificuldades para o plantio da soja.
O trigo é apontado como uma das culturas mais expostas: a colheita no Rio Grande do Sul entre setembro e novembro deve coincidir com o período de maior risco de chuva, o que pode afetar a qualidade dos grãos, incluindo peso hectolitro e germinação.
A soja também entra no radar. No Sul, o excesso de chuva registrado em julho já deixou solos saturados em algumas áreas e pode atrasar a semeadura. No Centro-Oeste, o principal risco é a ocorrência de veranicos durante a primavera, que pode comprometer a implantação das lavouras.
Para a safra 2026/27, a análise trabalha com uma produção próxima de 189 milhões de toneladas caso as condições climáticas permitam a concretização do potencial produtivo.
Para o milho, parte dos efeitos já teria sido observada na safrinha 2025/26, que teve queda na produtividade. Já na próxima temporada, o risco está relacionado tanto ao excesso de chuva no Sul durante o cultivo da primeira safra quanto à possibilidade de redução da janela para a safrinha de 2027.
No Centro-Oeste, a expectativa é de chuvas mais irregulares, com possibilidade de veranicos entre setembro e dezembro. O cenário pode atrasar ou comprometer o plantio de soja em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás e, posteriormente, reduzir a janela para a segunda safra de milho.
Já no Sudeste, o impacto tende a ser mais localizado. A análise aponta temperaturas médias de até 1 °C acima da climatologia e chuvas irregulares no norte de Minas Gerais e Espírito Santo. Entre as culturas mais expostas estão cana-de-açúcar, café e laranja. Para o café arábica produzido no sul de Minas, o principal ponto de atenção é o risco de estresse hídrico durante a florada, entre setembro e outubro.
No Nordeste, o cenário é mais preocupante para as culturas de sequeiro. A análise prevê déficit de chuva em áreas de Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, com risco elevado para milho e feijão.
Na região Norte, a possibilidade de estiagem prolongada também pode trazer consequências para o agronegócio. A redução das vazões dos rios amazônicos ameaça a logística de transporte de grãos pelo Arco Norte, especialmente pelos portos de Itaqui, Santarém e Barcarena.
Além dos efeitos sobre as lavouras brasileiras, a TAG chama atenção para o comportamento dos mercados agrícolas internacionais. A análise aponta que o El Niño tende a afetar principalmente culturas tropicais cuja produção é concentrada geograficamente, como café, cacau, óleo de palma e açúcar.
Já soja, milho e trigo negociados na bolsa de Chicago tendem a sofrer menor influência direta do fenômeno, diante da ampla oferta nas Américas e de outros fatores que atualmente movimentam os preços.
A própria análise ressalta, porém, que a intensidade do El Niño não determina automaticamente o impacto em cada região e sim que o fenômeno aumenta ou reduz probabilidades, mas outros fatores climáticos também interferem no resultado final.
25/08/2026 15:09:26
Globo Rural



