Em entrevista a podcast, Lula diz que vencerá EUA pela narrativa e cobra respeito de Donald Trump

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, nesta sexta-feira (14), que pretende enfrentar as investidas do governo de Donald Trump contra o Brasil por meio da diplomacia e da defesa da soberania nacional. Segundo ele, o país não precisa de poderio militar para se contrapor aos Estados Unidos, mas da “verdade” e de uma narrativa capaz de expor o que considera contradições nas medidas adotadas por Washington.
“Eu não tenho os aviões que os EUA fazem propaganda dizendo que têm, não tenho bomba atômica. O que eu tenho? A verdade! A minha consciência!”, afirmou em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs. Na sequência, Lula declarou: “Com mentiras, ninguém ganha do Brasil. Vou vencer os EUA pela narrativa”.
O presidente voltou a contestar as justificativas apresentadas pelo governo estadunidense para a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros. Para Lula, as medidas foram baseadas em informações falsas e, em alguns casos, utilizadas como instrumento de pressão contra outros países. “É mentira você querer taxar o Brasil com base em dados falsos”, disse.
Apesar do enfrentamento às políticas de Trump, Lula procurou diferenciar o governo estadunidense da relação pessoal que mantém com o presidente dos EUA. Segundo ele, Donald Trump tem sido respeitoso no trato direto entre os dois.
“Trump me trata muito bem, de forma respeitosa”, afirmou. Lula também disse que gostaria de estabelecer uma relação baseada no diálogo direto com o estadunidense. “Trump, somos dois jovens de 80 anos. Temos que passar para os outros a ideia de seriedade, tranquilidade. Essa é a relação que eu quero ter com você: olho no olho”, declarou.
O presidente também criticou a pressão dos Estados Unidos para acelerar a aprovação do agrément do novo embaixador estadunidense no Brasil. Lula questionou a urgência demonstrada agora pelo governo Trump, depois de, segundo ele, o processo ter levado cerca de um ano e seis meses.
“Se o embaixador dos EUA é importante para o Brasil, por que demoraram um ano e seis meses e agora querem mandar?”, questionou. Lula afirmou que tenta estabelecer contato com o diplomata e que pretende tratar diretamente das divergências entre os dois governos.
Nesse contexto, o presidente fez um alerta sobre uma possível interferência estadunidense nas eleições brasileiras de 2026. “Não se meta nos negócios do Brasil, sobretudo na eleição. Se se meterem, vão perder”, afirmou. “Quem vier dar palpite da eleição aqui dentro vai perder.”
Lula ainda criticou adversários políticos que, segundo ele, atuam contra os interesses nacionais. Sem citar nominalmente o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, o presidente mencionou “o meu adversário” e afirmou que o irmão dele estaria disseminando “infâmias sobre o Brasil”.
Apesar do tom de confronto, Lula reforçou que não pretende romper relações com Washington. “Não queremos brigar com EUA, China, Rússia, Bolívia, Espanha”, afirmou. Para o presidente, o Brasil deve preservar uma política externa baseada no diálogo e na defesa dos próprios interesses.
“São 201 anos de relação diplomática” entre Brasil e Estados Unidos, destacou Lula. “Não quero guerra, quero tratar seriamente sobre o assunto”, acrescentou.
O presidente também afirmou que pretende buscar uma conversa direta com Trump para discutir as medidas adotadas contra o Brasil. “Vai marcar uma conversa telefônica com ele”, disse. Segundo Lula, a prioridade é preservar uma relação bilateral construída ao longo de mais de dois séculos sem abrir mão da soberania brasileira.
Contextos
Os Estados Unidos anunciaram, no último dia 4, que revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida, segundo o Departamento de Estado, é uma resposta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez, um republicano filho de cubanos, assuma a embaixada dos EUA no Brasil.
A revogação do visto, no entanto, não significa a expulsão da diplomata, que poderá permanecer nos Estados Unidos, mas sem um visto válido. Segundo a decisão, o visto poderá ser restabelecido se o aval diplomático ao novo embaixador estadunidense for concedido.
Perez foi indicado ao cargo de embaixador no Brasil em junho, com aval do Senado dos EUA, mas ainda precisa ser aprovado pelo plenário da Câmara.
Pela tradição, antes de um embaixador assumir o posto, o país que recebe o diplomata precisaria autorizar a indicação. Ainda segundo o governo Trump, as autoridades brasileiras sinalizaram que a autorização só deve ser dada após as eleições presidenciais de outubro.


