Em meio a crises políticas, PL refaz planos de expansão no Congresso

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Durante décadas, o PL foi apenas mais uma peça da engrenagem do Centrão: de tamanho modesto, emprestou, em troca de cargos, apoio a todos os governos desde a redemocratização, sem, no entanto, atingir maior protagonismo na estrutura de poder. A filiação de Jair Bolsonaro em 2021 mudou o patamar do partido, que saiu da eleição do ano seguinte com a maior bancada da Câmara (99 deputados) e, por consequência, com o maior naco dos fundos eleitoral e partidário. O desempenho histórico fez de Valdemar Costa Neto, seu presidente, o gerente de um cofre com 1 bilhão de reais anuais. O plano do dirigente era manter a trajetória de ascensão e, com isso, engordar ainda mais o caixa. Nos últimos dias, no entanto, um turbilhão de crises vem sacudindo a legenda e já obriga o cacique a recalcular para baixo suas projeções de grandeza.
As luzes amarelas se acenderam já no final de 2025 — e não foi por um motivo qualquer. A condenação e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro anunciaram um período de incertezas. Depois, houve as perdas de nomes importantes, Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, todos deputados cassados e na mira da Justiça. No Rio de Janeiro, berço do bolsonarismo e maior estado gerido pelo PL, suspeitas variadas de irregularidades — que renderam duas operações da Polícia Federal — tiraram o ex-governador Cláudio Castro do páreo eleitoral e mergulharam no caos a articulação da direita no estado. Para piorar, o principal nome da sigla na eleição, o presidenciável Flávio Bolsonaro, foi gravemente chamuscado pela revelação de que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, o enrolado ex-dono do Master.
O maior desafio, no entanto, para o plano de eleger grandes bancadas ao Congresso está na dificuldade para montar palanques consistentes nos maiores colégios eleitorais do país. Um exemplo é Minas Gerais, onde a sigla não tem candidato ao governo a menos de quatro meses da votação. Flávio fez um giro recente de vários dias pelo estado, encontrou-se com o governador Mateus Simões (PSD), foi a uma reunião do PL local e conversou com potenciais aliados para tentar costurar uma chapa que lhe dê sustentação no estado, mas, até quinta-feira 4, não havia sinal de que tenha encontrado um caminho. A única certeza é que o deputado Domingos Sávio será candidato ao Senado, mas ele não desponta entre os líderes de intenção de voto. Em outros colégios estratégicos, como Bahia, Pernambuco e Ceará, o PL endossa candidatos de outras siglas, que estão distantes de abraçar com todas as forças o projeto bolsonarista (leia a reportagem na pág. 32). “Depois da revelação do caso Vorcaro, as pesquisas indicam que Flávio caiu principalmente entre o público mais moderado. Os partidos com essa inclinação já devem pensar duas ou três vezes se vale a pena entrar na campanha dele”, diz o cientista político Paulo Ramirez, da ESPM. A situação contrasta com a de 2022, quando a marca Bolsonaro funcionava como ativo eleitoral em praticamente todos os estados e ajudava a atrair aliados para a órbita da sigla.
Em São Paulo, estado onde o PL mais fez deputados na última eleição (dezessete), o cenário é igualmente difícil. O PL perdeu seus três puxadores de votos: Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli e Ricardo Salles (que foi para o Novo). Para tentar repetir o feito de outrora, as apostas, por enquanto, são o vereador paulistano Lucas Pavanato e Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente, que já perdeu sete eleições (para vereador, prefeito e deputado estadual) e ganhou só uma (vereador em Praia Grande, em 1996). Na disputa ao Senado, o partido, com articulação do próprio Valdemar e a anuência de Eduardo, escolheu o presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado, mas ele pontua apenas 5%, segundo a Genial/Quaest.

Outro contratempo tem sido a participação discreta da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. A esperança da legenda era de que ela viajasse pelo país impulsionando candidaturas nos estados. No entanto, desde a prisão do marido, a maior parte de seus compromissos políticos tem sido cumprida remotamente, a partir de Brasília, muitas vezes diretamente da residência da família, onde age como a principal cuidadora do ex-presidente. Segundo aliados, ela teme ser responsabilizada caso o estado de saúde ou as condições da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro se agravem. A expectativa é que o STF reavalie, ainda neste mês, as medidas cautelares impostas ao ex-presidente e, com isso, ela possa definir seu papel na campanha. Vale ressaltar que ela também não abraçou até agora a campanha presidencial do enteado Flávio Bolsonaro. Embora Michelle não confirme que disputará o Senado pelo Distrito Federal, seu entorno acredita ser difícil que ela não se candidate e aposta que sua ausência em eventos do PL pode se tornar até um ativo eleitoral ao reforçar a narrativa de injustiça cometida contra sua família. “É como quando Bolsonaro não participou da campanha em 2018, depois de ter sofrido a facada”, explica um integrante de sua equipe.
Diante desse cenário, Valdemar já admite uma recalibragem nas projeções — antes, esperava 120 deputados eleitos. “Uma conta mais justa para o momento é eleger 110”, diz o dirigente, que ressalta que essa seria a maior bancada desde 1994, quando o PMDB elegeu 107. A confirmação do prognóstico dependerá da capacidade da sigla de atravessar o momento turbulento, o que é difícil de cravar com investigações policiais, processos judiciais, disputas internas e indefinições eleitorais que parecem longe do fim.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998
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