Entenda a investigação da PF envolvendo Lulinha

Após pedido da Polícia Federal, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça autorizou a abertura de um inquérito para investigar suspeitas envolvendo o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Lula (PT).
Segundo os investigadores, há suspeita de que Lulinha tenha atuado com Roberta Luchsinger no mercado de canabidiol em favor de uma empresa ligada ao Careca do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
A PF requereu ainda ao Supremo que provas que foram colhidas na Operação Sem Desconto, que investiga desvios no INSS e que tem o lobista como um dos alvos, sejam compartilhadas com o novo inquérito.
Entenda o que se sabe sobre o caso.
O que a Polícia Federal quer investigar?
De acordo com informações obtidas pela Folha, os investigadores querem apurar os crimes de corrupção e tráfico de influência na autorização da comercialização de cannabis medicinal, em programas ligados ao Ministério da Saúde.
A suspeita dos investigadores é que Lulinha tenha atuado com a empresária Roberta Luchsinger em favor da empresa World Cannabis, ligada ao Careca do INSS. O pedido de abertura de inquérito também cita contatos entre os alvos e servidores, inclusive do gabinete de Lula. A suspeita é de que o tráfico de influência tenha sido exercido junto ao Ministério da Saúde e ao gabinete da Presidência, de acordo com informações da PF.
Advogados de Lulinha, Luchsinger e Antunes foram procurados na tarde desta quinta-feira (30) para comentar o pedido da PF, mas não responderam até a publicação desta reportagem. O Palácio do Planalto também foi procurado, mas ainda não se manifestou.
O que já disse a defesa de Lulinha?
Em março, a defesa de Fábio Luís admitiu que Careca pagou as despesas de uma viagem que o filho do presidente Lula fez a Portugal em 2024. Afirmou que ele teria sido convidado pelo Careca do INSS para conhecer a produção dos medicamentos produzidos com canabidiol e que o acompanhou “sem qualquer compromisso”.
Os advogados também afirmaram que Lulinha não participou de negociações, não investiu trabalho ou valores “e tampouco recebeu convite para associação, participação ou compra de cotas” no projeto comercial do Careca do INSS “World Cannabis”. A defesa sempre negou que o filho do presidente tivesse envolvimento em qualquer ilegalidade.
Quem é Roberta Luchsinger?
Roberta Moreira Luchsinger é empresária, sócia da RL Consultoria e Intermediações, e figurava como um dos elos entre Lulinha e Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS e que é o lobista apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de fraudes nos descontos de aposentadorias.
Segundo a PF, a empresária teria recebido, em parcelas, R$ 1,5 milhão do lobista. Ela, que é amiga de Lulinha, foi alvo de busca e apreensão em dezembro do ano passado. A PF descreveu sua atuação anteriormente como “essencial para a ocultação de patrimônio, movimentação de valores e gestão de contas bancárias e estruturas empresariais utilizadas como instrumentos da lavagem de capitais”.
Em mensagens apreendidas, ela também orientou Antunes a descartar telefones após uma busca e apreensão. Roberta Luchsinger é herdeira de um ex-acionista do antigo banco Credit Suisse.
O que Roberta Luchsinger já afirmou anteriormente?
A defesa de Roberta afirmava que as transferências recebidas não tinham relação com o INSS, mas decorriam de um projeto na área de canabidiol desenvolvido com o lobista. Em depoimento à PF em maio, ela afirmou que efetivamente prestou serviços ao lobista relacionados à regulação do mercado de canabidiol no Brasil, mas que o reconhecia como um empresário do ramo farmacêutico.
Na ocasião, Roberta disse ainda que apresentou Lulinha para o Careca do INSS antes da deflagração da Operação Sem Desconto e que o filho do presidente não prestou qualquer serviço relacionado à regulação de canabidiol e nem foi remunerado por isso, direta ou indiretamente. Também afirmou que não repassou qualquer valor a Lulinha relacionado a essa contratação.
Quem é o Careca do INSS?
Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, é o lobista apontado pela PF como um dos operadores centrais do esquema de fraudes nos descontos de aposentadorias. Ele foi preso pela PF em setembro do ano passado e sua defesa afirma que ele é inocente.
Em mensagem apreendida pela PF, Antunes pede a um operador que transfira R$ 300 mil a uma empresa em nome de Roberta Luchsinger, empresária próxima de Lulinha. Ao ser questionado sobre o destinatário do dinheiro, Antunes responde que seria “o filho do rapaz”.
A Operação Sem Desconto, conduzida pela PF em parceria com a CGU (Controladoria-Geral da União), apura um esquema de fraudes que teria desviado cerca de R$ 6,3 bilhões de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024.
A fraude consistia em descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões —cobranças feitas por entidades de fachada que não prestavam os serviços prometidos, como convênios médicos ou auxílio funerário.
O que a PF investigava sobre Lulinha?
A PF apurava citações feitas a Lulinha nas investigações da operação Sem Desconto. Uma das hipóteses aventadas pelos investigadores era a de que ele tenha sido sócio oculto do Careca do INSS.
O pedido para abertura de um novo inquérito foi enviado ao STF na última sexta (25), durante o recesso do Judiciário. A PF remeteu o caso à presidência do Supremo por considerar que os fatos não são relacionados à Operação Sem Desconto, que envolve fraudes no INSS e que está sob relatoria de Mendonça.
Por que Mendonça é o relator?
O requerimento foi analisado por Alexandre de Moraes, que substituía Edson Fachin na presidência da corte em regime de plantão.
No mesmo dia, o ministro pediu um parecer da PGR (Procuradoria-Geral da República), que afirmou que as quebras de sigilo apresentadas pelos investigadores “revelaram a prática de crime” sem relação com a Operação Sem Desconto, opinando pelo sorteio de um novo relator para o caso. O escolhido foi André Mendonça.
O que Lula já disse sobre o caso no passado?
O presidente Lula adotou publicamente uma postura de não interferência. Em entrevista em dezembro do ano passado, afirmou que “ninguém ficará livre” de investigação se estiver envolvido —incluindo o próprio filho. “Se tiver filho meu metido nisso será investigado. Se tiver o Haddad vai ser investigado, o Rui Costa com essa seriedade vai ser investigado”, disse.
O presidente também relatou ter chamado Lulinha a Brasília para cobrar explicações pessoalmente. Segundo relatos, a conversa ocorreu em dezembro. Lulinha disse ao pai estar “100% tranquilo” e ironizou rumores sobre suposta evolução patrimonial.
Folha de São Paulo



